Paris MS – Entrevista EDSON CASTRO

O artista plástico corumbaense Edson Castro

O corumbaense Edson Castro conta como está a vida como artista plástico em Paris após quatro anos na França

Edson Castro resolveu ir para a França em 2009. E foi. Na época, o artista plástico corumbaense, que já havia passado vários anos morando em São Paulo, afirmava que estava indo para Paris após ter sido contemplado com uma bolsa para estudar. Mas não era verdade. Ele foi para a capital francesa sem nenhuma bolsa, na cara e na coragem. “É porque se eu falasse, na época, que pegaria meus lápis e partiria sem nada, sem nem um projeto, pro mundo, meus filhos e minha família iriam me chamar de louco”, explica o artista plástico de 41 anos.

Quatro anos depois, Edson Castro não se arrepende. Pelo contrário, atualmente já consegue pagar as contas com o próprio trabalho. Ele já possui certa estrutura em Paris. Seu ateliê é no bairro de Trocadéro. “Fica em frente ao rio Sena, diante da Torre Eiffel. Aí o povo acha chique né? No bairro tem museus, jardins e tem o Bois de Boulogne ao lado. Mas prefiro o Montmartre”, ressalta Edson, referindo-se ao famoso bairro boêmio de Paris. Na entrevista, o corumbaense responde sobre como é o mercado na França, fala da experiência no país e como foi a sua adaptação. Com vocês, Edson Castro!

Rodrigo Teixeira – Conte como foi que você acabou indo parar na França? Você foi por meio de uma bolsa?

Edson Castro – Vim prá cá porque queria ter a certeza que poderia viver em qualquer lugar do mundo com minha obra. Apesar de que, antes de vir para Paris, morava em Sampa e, pensando bem, quem mora em Sampa mora em qualquer lugar do mundo. Eu inventei essa estória de bolsa, mas não teve bolsa nenhuma. É porque se eu falasse, na época, que pegaria meus lápis e partiria sem nada, sem nem um projeto, pro mundo, meus filhos e minha família iriam me chamar de louco.

Rodrigo Teixeira – Como você analisa a sua condição atual na cidade?

Edson Castro – Eu sou mimado por Paris. Foram quatro anos de realizações e de evolução. Hoje eu trabalho para a Galerie Ad Hoc Corner, em Saint-Paul de Vence (Côte d’Azur), aonde tenho uma exposição permanente há dois anos. Também tenho um contrato até 2014 com um marchand que organiza as minhas exposições na Europa. Estou me dedicando ao meu livro também, que o Gerard Xuriguerra está escrevendo. Um super crítico de arte, respeitado no mundo inteiro.

Rodrigo Teixeira – Como você relataria a experiência de morar em Paris, em um bairro como o Trocadéro?

Edson Castro – Morar aqui é uma aventura e por onde se passa tem arte. A gente só anda olhando pra cima (rs). É, eu moro em Trocadéro, que fica em frente ao rio Sena, diante da Torre Eiffel. Aí o povo acha chique né? No bairro tem diversos museus, jardins e tem o Bois de Boulogne ao lado. Mas eu prefiro a atmosfera de Montmartre. É pra lá que eu vou quando não estou trabalhando. Trocadéro morre às onze da noite, mas para trabalhar é bom.

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Rodrigo Teixeira – Como foi o processo de adaptação, você já falava francês?

Edson Castro – Eu estudei um pouco antes de vir, então o básico eu já sabia. Depois eu estudei línguas, arte e música francesa no Institut Catholique de Paris. O resto eu aprendi dentro dos bares, mas é difícil porque a gente escreve de um jeito e fala de outro. Não é justo! Mas eu me adaptei e em seguida tive a nítida sensação que já conhecia o lugar. É difícil só o humor deles no inverno, o resto tudo bem.

Rodrigo Teixeira – Como analisa o mercado para o artista plástico em Paris? Como é para pagar as contas, mais especificamente?

Edson Castro – Olha, pra ser sincero, eu ainda estou entrando no mercado aqui. Mas já vejo coisas incríveis. Eu tenho um amigo japonês, de um metro e meio, que uma escultura dele custa 1 milhão. Outro pintor chinês, as telas valem de 50 a 100 mil euros. Então tento seguir o caminho deles. O mercado existe e é bom. Pagar as contas aqui é a parte que eu mais gosto (rs) porque agora tem pra pagar. Eu tenho dois marchands aqui que trabalham duro para que eu possa continuar desenhando em Trocadéro. Tem sempre exposição privé ou coletivas que eles organizam e depois o resultado aparece. Aqui eles são bem sérios em relação ao mercado. Os caras estudam pra serem marchand, comissários e coisa e tal. Então tudo é programado antes cuidadosamente para que eu consiga produzir sem me faltar nada. Eles falam que vão fazer e fazem e eu digo que vou desenhar e desenho. Eles passam regularmente para ver o que eu estou produzindo.

Rodrigo Teixeira – Neste tempo que você está por aí, deve já ter visto muitas obras fundamentais às artes plásticas. Quais foram os artistas ou obras que mais te marcaram ou foi importante ter o contato?

Edson Castro – São tantos. Ver os grandes mestres ao vivo isso abriu bastante a minha percepção. Ver no livro é uma coisa, mas quando entrei no Centre Pompidou e elas estavam todas lá, eu sentei e chorei. É muito forte. De Bonnard à Pierre Soulages, estavam todos là. Até hoje é o meu museu preferido. Do lado de casa tem o Musée Marmottan, que é o Museu Monet e é incrível também. A gente vê a liberdade que eles tinham com a superfície e com a matéria que é enorme. Dá um estalo na cabeça na hora. Mas se eu for te dizer quais ficam mais tempo da minha cabeça são Karel Appel, Willem de Kooning, Georges Mathieu e Pierre Soulages. Esses pintores que a ação ultrapassa o sentido da obra me tocam muito. É importante ver ao vivo, se não a gente fica só imaginando como seria.

Edson está em Paris desde 2009

Rodrigo Teixeira – Morar em uma cidade muito antiga, com um história de séculos, o influenciou de que maneira?

Edson Castro – Quando eu cheguei, fui morar em Montmartre e quando eu subi a ladeira para ir ver a Sacré-Cœur tive aquela sensação que escrevi agora a pouco. Passei em frente ao primeiro atelier de Picasso, depois eu vi a casa onde o Van Gogh morou com o Théo, o Museu do Salvador Dali, as decorações do Jean Cocteau e tudo me parecia familiar. Tudo aqui tem história. A gente tem mesmo é que situar-se no tempo e no espaço. O bom é que as coisas não passam despercebidas. Outro dia eu fui jantar na La Colombe d’Or, em Saint Paul de Vence, e os habitués lá eram Pablo Picasso, Jacques Prévert, Yves Montand ou James Baldwin, Matisse, Braque, Léger, Calder, César e outros. Me senti dentro de um filme ou mesmo como se tivesse viajado no tempo. É bizarro e dá uma onda. Não sei te dizer como isso me influencia, mas me alimenta muito.

Rodrigo Teixeira – Comparando com o que você já havia produzido no Brasil, como você analisaria a sua produção neste momento?

Edson Castro – Parto da premissa que todos são bons. Os que eu fiz no Brasil e os que eu estou fazendo em Paris. Eu descobri materiais novos. A minha postura e a minha atitude continuam a mesma, mas sempre em evolução, que esse é o meu caminho. O caminho da pesquisa, das experiências. Eu sempre mudo de tempos em tempos. Tenho fases, não consigo ficar fazendo a mesma coisa o tempo todo. Acho isso muito burocrático.

Rodrigo Teixeira – Vi por algumas fotos que você continua fazendo aqueles saraus, em que você pinta com alguém tocando ou dançando. Como tem feito este procedimento por aí?

Edson Castro – Quando eu aluguei meu atelier, tinha um piano de calda dentro. Um Gaveau, de 1900. Estava ele lá, coitado, triste, sozinho e desafinado. Eu não sei tocar, infelizmente. Então mandei afinar e chamei um amigo. Quando ele tocou, parecia que o bairro inteiro poderia ouvir e eu vi o piano sorrindo feliz da vida! Por causa do piano e graças à ele, depois vieram outros pianistas e bailarinas e eu comecei a aproveitar o clima para fazer um desenho de grande formato. Fizemos isso durante dois anos, toda semana. Isso me obrigava a fazer um grande desenho toda quinta-feira. Depois a minha manager começou a profissionalizar a jam session (eles adoram fazer isso), transformando-a em performance e começou a selecionar o público, convidando só galeristas, colecionadores e pessoas do métier. Aí o lance começou a ficar mais sério e isso não é bom para a arte. Enfim, hoje ela vende a performance. Acabamos de fazer uma no Carrousel du Louvre. No mês passado fizemos na Galerie Rauchfeld, na rue de Seine, em Saint Germain des Prés. É a rua onde estão as melhores galerias de Paris. Rola um clima muito bom, eu ouço a música e trabalho com os movimentos da bailarina. É um improviso total e sempre acaba bem. Os meus parceiros são Pyrene Herts, que é a bailarina e que é a minha manager também e musa, um percussionista Gustavo Faleiros e o Pierre François, no piano. Viu só o que a música não faz? Mas prefiro como era no início aqui em Paris, dentro do atelier.

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Rodrigo Teixeira – Quem são as pessoas que você está tendo contato por aí?

Edson Castro – Tenho contato com artistas do mundo inteiro. Toda sexta-feira no Alcazar Restaurant, na rue Mazarine, tem um almoço com críticos de arte e artistas. Os caras têm grandes exposições em museus e me dão boas coordenadas do que eu preciso fazer e funciona. Como eu trabalho bastante, só tenho tempo para estudar a língua francesa. Uma pessoa que encontro sempre aqui é o Juares Machado, que é muito gente fina e engraçado. Sempre bebo uns copos com o Kinkas Caetano, um super pintor brasileiro.

Rodrigo Teixeira – Quais os marchand que você tem trabalhado? Como é o sistema de galerias de arte por aí?

Edson Castro – Aí é que tá. Marchand no Brasil é aquela pessoa que, na maioria das vezes, não entende de arte e fica com 50% do trabalho do artista. Aqui o marchand conhece bem arte, o mercado, ele compra e vende a obra e organiza exposições e também se ocupa com divulgação. As galerias em Paris alugam espaços para expor, eu nunca paguei! Não tenho dinheiro pra isso e acho meio falso também. Mas tem artista que aluga, faz a exposição e se vender ele ainda dá de 10 a 20% da venda. Eu trabalho com um marchand, o Bernard Mendez, que é um verdadeiro businessman, com a galerista Patrícia Fridemann e com um courtier, o Yohann Pénicaut. É uma boa equipe. Eu alugo o ateliê. É tudo caro aqui, ainda mais cem metros em Trocadéro, ao lado da torre… Mas a equipe é boa. Eles não deixam eu ficar preocupado, isso eu acho bonito.

Rodrigo Teixeira – Do que você mais sente falta do Brasil?

Edson Castro – Depois dos meus filhos, churrasco, peixe frito, caldo de piranha, saltenha, sopa paraguaia e bolinho de arroz.

Rodrigo Teixeira – A cidade de Paris é rodeada de rios. Você nasceu na beira do rio. Como é um corumbaense vivendo em Paris?

Edson Castro – Sabia que acharam pacú aqui no rio Seine? Ter o rio aqui do lado me ajuda muito. As ladeiras de paralelepípedos, tudo isso me é familiar. Gosto dos prédios, das esculturas, das pequenas ruas e seus bistrôs, das pontes. Eu adoro as francesas também. Mas, é claro, morro de saudades de Corumbá, da beira do rio Paraguai e do peixe frito da Sandrinha. Mas com essas minhas viagens eu aprendi que a terra está dentro da nossa cabeça e não fora. Quando a saudade aperta, fecho os olhos e Corumbá tá lá, intacta dentro da minha cabeça.

Apredendo francês nos bares da vida!

Rodrigo Teixeira – De alguma maneira seus quadros valorizaram no Brasil depois que você está na França?

Edson Castro – Na realidade meus quadros valorizaram em Paris, então automaticamente, os preços mudaram no Brasil. Eu tenho um convite para participar do leilão mais importante da Europa, que é a Maison Drouot. Então certamente mudará de novo. Não sou eu que faço isso, é o mercado. Eu vendo mais aqui na Europa, mas sempre pinta alguma coisa do Brasil.

Rodrigo Teixeira – Em Campo Grande tem quadros seus para ser adquirido e onde o público pode ver sua obra na cidade?

Edson Castro – Tem duas obras na exposição permanente do Marco. As poucas obras que eu tenho estão no escritório de arquitetura de uma amiga, a Silvia Lotfi. Ela guarda gentilmente para mim e a minha filha tem uns pequenos formatos que ela levou daqui.

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Rodrigo Teixeira – Você tem alguma previsão de expor seu atual trabalho no Brasil?

Edson Castro – Eu pretendo logo, logo fazer uma ou duas exposições no Brasil para o lançamento do livro que o Gerard está fazendo. Uma em São Paulo e outra em Campo Grande, se possível, no Marco, que ainda é o melhor lugar para mostrar boas e novas ideias.

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Rodrigo Teixeira – Você mantém contato com os artistas de Campo Grande?

Edson Castro – Eu não tenho muito contato. Não conheço muita gente das artes plásticas, porque, na época que eu morei aí meus amigos eram músicos e eu vivia no meio deles. O Heron (Zanatta) às vezes falo com ele pelo Face. Ele é um bom amigo, de longa data. A Miska (Thome) é uma criatura doce e gentil. Ela esteve no meu atelier em Paris há duas semanas e foi um momento muito feliz. Me lembrei que foi ela quem mostrou três obras minha em um salão de arte muitos anos atrás e foi o meu primeiro prêmio. Então foi muito bonito, foi como se fosse uma confirmação do que ela viu e percebeu anos atrás. Isso é importante também pra mim. É como se eu estivesse no caminho certo. Mas eu queria ser músico.

Rodrigo Teixeira – Você chega a pensar em voltar para o Brasil?

Edson Castro – Eu penso em voltar o tempo inteiro. Fico imaginando a Ilha Grande e todos os lugares maravilhosos que eu andei. Fico pensando aonde vai ser minha casa… Mas se eu olhar por outro lado, ainda tenho um longo caminho à percorrer. Então não dá pra voltar agora, mesmo se eu quisesse. Eu estou feliz aqui, sou respeitado e valorizado. O clima de arte aqui é muito bom, é super nutritivo, o mercado de arte existe e as coisas funcionam. Isso é confortante para quem trabalha com criação, é propício para a arte. Então eu devo continuar por aqui e que o caminho seja suave.

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16 pensamentos sobre “Paris MS – Entrevista EDSON CASTRO

  1. Parabens pelo seu sucesso, Parabens pela sua trajetoria que muito inspira outros artistas a acreditar que sonhos sao possiveis. Como brasileira e aspirante a artista estou muito orgulhosa do seu trabalho!!félicitations

  2. Dison, amei sua reportagem, fico feliz em saber que sua trajetória aí em Paris está te trazendo brilhantes frutos. É isso aí, sonhos precisam ser conquistados, não apenas sonhados, e você está começando a realizá-los vencendo a ausência de quem você ama, filhos, porém sabendo que num futuro próximo, tudo será devidamente e legitimamente compensado. O talento foi, é e sempre será seu. Suas obras…são belas …sempre as admirei…. A vitória é sua! Parabéns! Sucessos! Perseverança sempre. Fique com Deus! abraços .

  3. EDSON CASTRO pantaneiro em suas obras em PARIS . DESEJO muito mais sucesso. felicidades mil……..um grande abraço da sua amiga ANA PAULA CARLINO……

  4. PARABENS ,VC VENCEU LAFORA MAS NÃO ESQUECEU DE SUAS RAIZES E FALA COM BASTANTE CARINHO DA SUA CIDADE NATAL Q É CORUMBA, ISSO É MUITO BONITO. DIFERENTE DE MUITOS Q A SE MUDAM PARA CAMPO GRANDE E SE FAZEM DE ESQUECIDOS COM SUA TERRA E POR MUITAS VEZES AINDA MALHAM E RIDICULARIZAM NOSSA CORUMBA… ISSO EU ACHO RIDICULO!!! MUITOLINDO SEU TRABALHO,VC MERECEU O SUCESSO , QUE DEUS TE ILUMINE SEMPRE.

  5. Parabéns poeta! Eu sabia que seria assim. Sucesso fácil é para os fracos. Viva a arte brasileira e seus guerrilheiros culturais. Abraço transcendental, João Linhares.

  6. Parabéns amigo Edson,vc é um batalhador e vencedor conheço á muitos anos e sei do seu esforço em vencer de forma ética,amiga e sempre leal com os amigos.Seja feliz companheiro.
    A turma da Vila Planalto em Campo Grande manda um grande abraço á vc.

  7. Desejo a você todo o suce$$o do Mundo… Parabéns… Vc é muito dedicado e tem um talento incrível… Felicidades… Linda Reportagem!!!

  8. Parabéns pelo esforço e claro pela vitória conquistada! Casualmente cliquei na página e comecei a ler sua entrevista ,fiquei surpresa com os passos que a vida as vezes nos leva mas feliz pela sua conquista. Eu amo arte , comecei por acaso e agora me dedico tentando deixar fluir!

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