Olha a onça!

A onça-pintada Parceria (Foto: Maurício Copetti)

Pela primeira vez, vi uma onça-pintada (Panthera onca). Foi o que aconteceu em uma quarta-feira da primeira semana de julho de 2020. Passando uns dias abençoados a convite meu amigo Maurício Copetti no Refúgio da Ilha, este lugar sensacional no Delta do Salobra, localizado no Pantanal de Miranda (MS), acordei já atrasado para o café da manhã. Assim que coloquei o pé para fora do quarto, escuto o barulho dos rádios de comunicação e Maurício anuncia a novidade: uma onça-pintada foi avistada e é para lá que a gente está partindo em minutos. Em instantes estou ajudando o Maurício a colocar as coisas no barco e pouco depois já subimos o rio… Como dizia minha avó Bibina, o Refúgio da Ilha é “um pedacinho do céu na Terra”. Em poucos dias, já tinha sido contemplado com o avistamento de centenas de animais, de diversas espécies. Nesta época do ano, em que as águas estão baixando, os bichos ficam mais à vista.

Em uma tarde, ficamos eu e Maurício cara a cara com um jovem cervo-pantaneiro (Blastocerus dichotomus). Ele é o maior cervídio da América Latina, devido ao couro e aos chifres é alvo de caçadores e considerado em estado ‘ameaçado’ de extinção! Lindo, com seu pelo de cor caramelo e suas patas com as extremidades pretas! Que bichão sensacional! Mais a noite com a lua grande no céu, incontáveis bichos e uma anta (Tapirus terrestris). O maior mamífero terrestre brasileiro está presente em todo território brasileiro e somente no Pantanal não é ameaçada de extinção. Ao perceber que estávamos próximos, a anta permanece tranquila e calmamente se enfronha no brejo. Em outro dia, também à tarde, paramos para ver uma mamãe tamanduá-bandeira (Myrmecophaga tridactyla) andando tranquilamente com sua cria nas costas. A espécie é considerada ‘vulnerável’ a extinção em outros estados do País. É evidente também a enorme quantidade e a beleza de pássaros de todos os tipos. A plumagem diferente da garça-moura (Ardea cocoi) me chama atenção não por acaso, pois ela é a maior garça do Brasil, chegando a uma envergadura de 1,80 m. Aprendo que ela desfia as próprias penas para indicar que está na época do acasalamento. Acho graça da garça! Vejo várias vezes o solitário gavião-belo (Busarellus nigricollis) no cume das árvores. Quanta formosura neste Refúgio da Ilha!

Maurício arruma o equipamento no barco que vamos subir o rio

Outro ensinamento que Maurício me alerta é quanto ao som dos pássaros e como é interessante perceber que existe uma espécie de “hola” quando algo agita o barulhento aracuã (Ortalis guttata). Esta onda começa com um alarido sempre feito por um casal de aracuã que produz um efeito dominó nas outras aves, fazendo com que o som “circule” ao redor da mata, indo e vindo, de instantes em instantes. Panaceia sonora! Uma das possibilidades da causa do barulho bumerangue dos pássaros é que “ela”, a Onça-Pintada, pode “estar na área”! E é justamente para onde estamos nos encaminhando de barco agora. Em alguns minutos poderei ter o agraciamento de ver de perto o maior felino do continente americano e o terceiro maior do planeta, só perdendo para o tigre e leão. Céus!

É nítido a experiência dos que já vivem diariamente na região. O movimento das águas, o som produzido pelos bichos, os rastros deixados nas matas e beira dos rios e até mesmo cheiros característicos no ambiente servem como indicação de que existem animais por perto. Eu não tinha a menor ideia do que é realmente comungar a presença de uma onça. Faltam duas curvas de rio para chegar ao ponto da parada e sinto a respiração acelerar embaixo da bendita máscara. Procuro controlar a euforia, pois estou ajudando também a registrar a experiência com fotos e vídeos. Uma história importante está acontecendo paralelamente, que aumenta ainda mais o significado daquele momento. O Delta do Salobra, como ficou conhecida a região desde que Maurício Copetti lançou seu documentário homônimo em 2003, é um lugar situado estrategicamente em meio aos biomas do Pantanal e do cerrado. Rio berçário que deságua no Miranda, é proibido pescar no Salobra por lei estadual, o que faz com que haja pouco movimento de barcos no rio, resultando em preservação e manutenção de um lugar que a flora e a fauna pulsam sem preguiça.

Morando na região desde 1998, Maurício fundou o Instituto Delta do Salobra (IDS), uma organização socioambiental que tem o objetivo de conservar o meio-ambiente e gerar desenvolvimento sustentável no Delta do Salobra, que fica a 20 km da histórica Miranda (MS). Um modelo do IDS é o próprio Refúgio da Ilha, pousada que já desenvolveu um protocolo de ações voltadas para o turismo ecológico, a preservação ambiental e conta com uma infraestrutura construída de forma pioneira desde os anos 1990.

A onça-pintada totalmente integrada ao ambiente em movimento (Foto: Maurício Copetti)

É incrível perceber que, em apenas oito meses, o Instituto Delta do Salobra já apresenta resultados. Fundado em dezembro de 2019, o IDS agrega profissionais ligados ao meio ambiente, ecologia e outras áreas. Eu mesmo tenho a honra de fazer parte dos colaboradores do instituto. Com a criação do IDS várias parcerias começaram a surgir e uma delas é com o projeto Onçafari, que promove várias ações como ambientação, catalogação e acompanhamento de onças-pintadas no Pantanal. A parceria entre o IDS e o Onçafari foi selada e desde fevereiro o biólogo Eduardo Fragoso vem atuando no Refúgio da Ilha, que dá todo o suporte para o desenvolvimento da parceria. Estamos a poucos segundos de parar o barco onde está, justamente, Eduardo. Foi ele que de manhãzinha avistou a onça e estava falando pelo rádio com Maurício logo que eu acordei. Não se sabia ainda se a onça-pintada já era uma das vistas na área do Refúgio da Ilha ou se era uma nova criatura.

A onça estaria parada logo mais acima, aonde o cientista do Onçafari nos esperava. Desligado o motor do barco, deslizamos suavemente em direção a Eduardo, que com a sua câmara pendurada no pescoço, nos acena e indica onde parar. Também aprendi que quem vê o animal primeiro tem a preferência de ação e pode ficar no melhor lugar para filmar e fotografar a onça. Neste caso, ficamos com um barco ao lado do outro em perfeita comunhão. Uma das regras óbvias nesta situação é ser econômico nos gestos, nada de movimentos bruscos, fazer barulho e conversar em voz alta. Silêncio, câmara, ação… a onça-pintada finalmente estava bem na nossa frente, a uns 40 metros de distância.

O maior felino das Américas finalmente se levanta (Foto: Eduardo Fragoso)

Maurício e Eduardo não identificaram a onça como entre as que já estavam catalogadas. Tudo indicava que aquele seria o felino número 25 da lista. Ela estava deitada encoberta pela vegetação. Devido a sua camuflagem perfeita, a onça se confundia com a natureza, mas era possível enxergar bem a sua cabeça. Por um longo tempo permaneceu deitada, completamente relaxada, observando tudo o que ocorria ao seu redor e, às vezes, virava a cabeça e olhava em nossa direção. Como é incrível a sensação de estar próximo a este sensacional exemplar de felino, topo da cadeia alimentar e soberano entre os animais da região. A verdade é que, se ela quisesse, facilmente estaria diante de nós com alguns saltos sobre a vegetação e a água. Mas a onça não parece nem de longe nutrir algum interesse por aquelas três figuras a sua frente! A maneira adequada com que é feita a operação para avistar a onça resulta em tranquilidade. Em nenhum momento me senti ameaçado e com medo. Mais importante, a onça está calma.

Escuto pela conversa entre Eduardo e Maurício que a onça deve ter por volta de três anos. Agora ela acaba de se levantar e pela primeira vez vejo todo o corpo do animal. Ela é incrivelmente forte, tem uma camuflagem perfeita, aparenta estar sem nenhuma pressa de se locomover. Escuto também que geralmente depois que a onça dá umas três ou quatro bocejadas ela geralmente deixa o local que está e some. Não foi o caso. Nossa onça levanta e deita mais uma vez, permanecendo daquele jeito por um longo tempo. No máximo, ergue a cabeça e mira em nossa direção. Eu estava participando do que eles chamam de processo de habituação, para que o bicho se acostume com a presença (discreta) dos humanos, facilitando o desfrutar do avistamento. No caso desta nova onça-pintada nem precisou realmente desta habituação, pois ela está muito à vontade e tranquila.

O dia está nublado e é incrível perceber e acompanhar as infinitas ações que acontecem durante as mais de três horas que ficamos em comunhão com a onça-pintada. A movimentação dos pássaros é intensa e o barulho produzido pelas mais diferentes espécies nos empurra para o chavão de que estamos ouvindo a sinfonia da natureza. Impressiona até mesmo quem não é adepto ao birdwatching, menos a nossa Dona Onça! Ela ameaça levantar-se, mas vários bocejos depois continua tranquila e na horizontal. Lambe o próprio corpo, levanta uma das patas, presta atenção em determinado ponto da paisagem e de tempos em tempos olha para o nosso lado.

O incrível colhereiro rosa com bico em forma de colher (Foto: Eduardo Fragoso)

Eduardo fala que quando a viu, ela parecia estar na espreita de algum animal, que bem poderia ser um jacaré, uma capivara… Quando um urubu-de-cabeça-preta (Coragyps atratus) pára em uma árvore próxima, ouço a conversa de que provavelmente tem alguma carcaça de bicho morto por perto e talvez por isso também a onça esteja sossegada sabendo que tem comida garantida.

Um colhereiro (Platalea ajaja) cruza o céu, com seu bico em forma de colher e sua linda plumagem roseada, e se instala em um tronco alto. Que visão deslumbrante. E pensar que o colhereiro é apenas uma das 320 espécies de aves já catalogadas no Refúgio da Ilha. De repente, vem um carão (Aramus guarauna) e pousa a poucos metros da onça. Ela percebe, mas não se afeta. Reina. Fico pensando se o carão é quem vai espantar a “bicha”. Ele não se atreve! Depois de alguns minutos, pula algumas vezes e voa para longe. Escuto que é preciso ficar em alerta porque simplesmente a onça pode levantar e sumir em segundos. Alguns instantes depois é batata! A onça levanta-se, fica um tempo observando o ambiente, balança o rabo, muda de direção, começa a dar os primeiros passos e, lentamente, some na paisagem! Emocionado, pois acabava de ver a minha primeira onça, que também era o primeiro felino “encontrado” por Eduardo no Refúgio da Ilha. Com a adrenalina baixando no caminho de volta, só quero saber de ver todas as fotos e vídeos.

Vigésima-quinta onça-pintada catalogada agora no Refúgio da Ilha (Foto: Maurício Copetti)

Como foi a primeira onça avistada após começar a união entre o Instituto Delta do Salobra e o Projeto Onçafari, a belezura é batizada de Parceria. Agora, são 25 onças-pintadas catalogadas dentro do Refúgio da Ilha, apoiador fundamental para as atividades em conjunto entre o IDS e Onçafari . Juntamente com outras propriedades vizinhas, o instituto está concretizando o projeto de se oficializar na região do Delta do Salobra um sistema de corredores ecológicos, servindo como área de fluxo não só para as onças, mas para todas as espécies. Este corredor vai possibilitar que as centenas de animais transitem entre a Serra da Bodoquena e o Pantanal, gerando uma grande troca genética e promovendo também a defesa do meio ambiente. Começamos o retorno para a pousada e eu só quero saber quando é que vamos repetir a dose! Olha a onçaaaa!

O cineasta Maurício Copetti e o biólogo Eduardo Fragoso após o avistamento da onça-pintada

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