Livro ‘Os Pioneiros – A origem da música sertaneja de MS’ ganha segunda edição

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Método, entrevistas, procedimentos e bibliografia 

por Rodrigo Teixeira

Os Pioneiros – A Origem da Música Sertaneja de Mato Grosso do Sul” foi contemplado no edital de 2008 do FIC-MS (Fundo de Investimentos Culturais de Mato Grosso do Sul) e agora recebe segunda edição produzida pela Editora UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul). O livro foi revisado, atualizado, ganhou mais fotos, a discografia foi ampliada e um novo projeto visual foi criado. A publicação teve as 1.000 cópias da primeira edição esgotada e já ultrapassa dos 2.500 downloads no coletivo virtual Overmundo. “Os Pioneiros” já serviu de base para peças educativas e uma exposição audiovisual no Museu da Imagem e do Som (MIS) de Mato Grosso do Sul que já recebeu centenas de estudantes sul-mato-grossenses. Nesta segunda edição, os músicos Paulo Simões e Márcio De Camillo assinam textos sobre a publicação.

O livro trata da primeira geração de compositores de Mato Grosso do Sul e é baseado em entrevistas. Foi a maneira escolhida para mergulhar no universo musical dos compositores e deixar que eles próprios contassem a sua história. Todos os encontros com os músicos foram realizados em Campo Grande (MS) no decorrer de 2008 e 2009. A maioria nas residências dos artistas. Foi assim com Délio, Delinha, Maciel Corrêa, Ado, Adail, Aurélio Miranda, Elinho do Bandoneon e Victor Hugo de La Sierra. No caso das duplas, o encontro com Amambay e Amambaí foi na residência do Amambaí, com Beth e Betinha na casa de Betinha e com Tostão e Guarany no estúdio do Guarany.

A entrevista com o sanfoneiro Dino Rocha foi numa manhã ensolarada de sábado em um boteco da área central de Campo Grande. No caso de Zacarias Mourão, a sua filha Lígia e a ex-mulher Itamy, que veio a falecer em agosto de 2011, me receberam na residência da família, onde há um grande acervo sobre o compositor de Pé de Cedro, assassinado em 1989. Entrevistei o cantor Benites em um bar e depois nos encontramos em seu apartamento. As informações sobre a cantora Jandira, falecida em 1994, foram passadas por Benites. Além de cúmplices na música, os dois foram marido e mulher. A fonte sobre Zé Corrêa foi o seu genro, casado com a filha do sanfoneiro falecido em 1974, o pesquisador e músico Márcio Nina, biógrafo do Rei do Chamamé. O encontrei em um restaurante e depois na sede do jornal O Estado de MS, onde trabalhava na época.

Também foram realizadas entrevistas com os colecionadores de discos Carlos Luz, Kenzo, Capitão Moura, Fauzer, Odilo e Luis Carlos em suas residências, escritórios e lojas. O responsável por estes encontros, por catalogar os discos e as informações e fotografar a capa dos LPs foi o meu irmão Raphael Teixeira. Acompanhei algumas visitas aos colecionadores.

O objetivo era conseguir os discos referentes às duplas enfocadas e não necessariamente obter depoimentos para o livro. A discografia, parte 3 do livro, é fruto deste contato. Poucos artistas, como Delinha e Maciel Corrêa, tinham nos seus acervos a discografia de tudo o que haviam gravado. Por isso, os colecionadores foram fundamentais. Os mais de 100 LPs compilados na discografia do livro foram conseguidos somando os LPs pessoais dos artistas com os discos adquiridos pelos colecionadores.

Raphael também pesquisou o acervo do jornal Correio do Estado, onde encontrou as matérias referentes às mortes de Zacarias Mourão, Zé Corrêa e Jandira, além de várias outras. Já a morte de Délio, em 2010, presente no livro a partir desta segunda edição, está documentada nas matérias do jornal O Estado de MS.

Dois “homens do rádio” de MS também foram entrevistados para o livro, ambos em suas respectivas casas. Primeiramente o radialista Chero, conhecido pelo programa “Na Sombra do Pé de Cedro”. Ele é tio de Evânio, o Guarany da dupla Tostão e Guarany. Foi muito amigo de Zacarias Mourão –o nome do programa é uma homenagem ao compositor de Pé de Cedro–, trabalhou em várias produções artísticas da época e acompanhou de perto toda a cena comandada por Délio e Delinha. A entrevista também foi em sua residência.

O segundo radialista entrevistado foi Juca Ganso, o Carlos Achucarro, o mais importante locutor de rádio do sul de Mato Grosso. Faleceu em 9 de julho de 2013. Ele foi o último a conceder entrevista para o livro. Juca conviveu com vários dos músicos, recebendo eles em seus programas. O radialista relembrou com detalhes a morte do acordeonista Zé Corrêa. A entrevista foi na casa dele vou guardar para sempre seu jeito doce, simpático e brincalhão. Com certeza, a cena musical da geração de Délio e Delinha foi muito fomentada e conhecida com a ajuda de Juca Ganso e sua grande audiência. Ele ganhou fama ao comandar o programa “A Hora do Fazendeiro” e seu bordão ‘Se ouvir, favor avisar!’ caiu na boca do povo.

O critério para a escolha dos artistas enfocados no livro partiu de algumas premissas. Um deles foi popularidade. Os mais famosos nos anos 1950 e 1960 em Campo Grande. No entanto, enfoquei principalmente quem construiu uma obra baseada em composições próprias e também aqueles que conseguiram gravar discos e participar do mercado fonográfico em São Paulo, como Délio e Delinha, Zé Corrêa, Amambay e Amambaí, Dino Rocha… No caso de alguns artistas, esta experiência aconteceu em Assunção, no Paraguai, como Victor Hugo de La Sierra e Ado e Adail. Foram os primeiros compositores do sul de Mato Grosso a registrarem suas composições em gravadoras, a cantarem ao vivo em programas de rádio e com a experiência de gravar em estúdios. Por isso, o título “Os Pioneiros”.

Como grande parte destes pioneiros estava na ativa e vivendo em Campo Grande entre 2008 e 2009, decidi que o livro seria baseado nas declarações destes artistas colhidas por meio de entrevistas em profundidade. Neste sentido, a pesquisa para o livro foi qualitativa, com questões semi-estruturadas, com um roteiro como modelo, a abordagem em profundidade e as respostas indeterminadas. Na verdade, segui o modus operandi que desenvolvo desde que me formei em jornalismo, em 1993. Conduzo a entrevista a partir de perguntas bases, conforme as respostas e a reação do entrevistado. Todas as entrevistas foram captadas em um gravador digital e depois transcritas na íntegra e literalmente (ipsis litteris).

Esta pauta base que utilizei para entrevistar os pioneiros tinha perguntas que fiz para todos os músicos. Questionei a todos sobre temas comuns, como as apresentações nos circos, as participações em programas de rádio, a experiência nas gravadoras em São Paulo, a reação dos artistas e do público dos grandes centros aos ritmos fronteiriços, a vivência em estúdios paulistanos, o fato de vários deles falarem e cantarem em três línguas (português, espanhol e guarani) e a influência da música do Paraguai nas suas composições. Tudo isso estava entre as perguntas que faziam parte da pauta base para a entrevista com todos os artistas.

Pareceu-me natural reunir o que os entrevistados diziam sobre os mesmos assuntos. Isto me fez optar por cruzar os depoimentos na parte 2 do livro e não publicar as entrevistas separadas por artistas. O objetivo foi cruzar as opiniões, fazendo com que um depoimento complementasse o outro, construindo a narrativa a partir de várias perspectivas e utilizando ainda matérias de jornais, colunas em revistas, fotografias, cartazes, letras de músicas, cartões, etc. Este formato foi influenciado pela estrutura do livro que havia acabado de ler: “Please Kill Me”, de Larry ‘Legs’ McNeil e Gilliam McCain. O livro –a minha edição tinha capa alaranjada– foi lançado em 2004 no Brasil pela editora L&PM e conta a história do punk rock embaralhando os depoimentos de protagonistas do movimento.

Assim como “Please Kill Me”, outros vários livros serviram de inspiração e fonte de consulta. Comecei a formatar o projeto de “Os Pioneiros” em 2007 e o período de pesquisa e escrita, após ser contemplado pelo FIC-MS em 2008, durou até meados de 2009, para em seguida concluir no final do mesmo ano as etapas de arte visual, diagramação, revisão e impressão. O lançamento foi no dia 19 de janeiro de 2010 no Marco (Museu de Arte Contemporânea) de Campo Grande (MS).

Na verdade, neste período, livros que enfocavam exclusivamente a música de Mato Grosso do Sul eram apenas dois. Ambos lançados em 1982 pela editora da UFMS (Universidade Federal de MS): “Festivais de Música em Mato Grosso do Sul/Projeto Universidade 81” e “A Moderna Música Popular Urbana de Mato Grosso do Sul”. O primeiro surge a partir de uma monografia escrita por Cândido Alberto da Fonseca e Paulo Simões chamada “Os Festivais de Música no Sul de Mato Grosso”, dissecando o período de 1967 e 1981. O livro traz entrevistas raras com os organizadores dos primeiros festivais estudantis campo-grandenses e do Fessul e Festão –festivais produzidos pela TV Morena no final dos 1970 até meados dos 1980–, além de depoimentos de artistas que participaram destas produções.

O segundo é do pesquisador José Octávio Guizzo. O título da obra já indica que o autor incentiva a visão de que a geração de músicos que começou naqueles festivais estudantis do final dos anos 1960 e que no início dos 1980, pós-criação do estado de MS, era detentora da “moderna música popular urbana” de Mato Grosso do Sul. Entre eles, Almir Sater, Paulo Simões, Geraldo Espíndola, Carlos Colman e Geraldo Roca. Ambos os livros tiveram a sua segunda edição em 2012, novamente pela editora da UFMS, e fui responsável pela revisão e a produção de notas de roda-pé para as duas publicações.

Estes dois livros serviram de fonte, mas nenhum deles enfocava diretamente os músicos reunidos em “Os Pioneiros”. Em maio de 2009, as pesquisadoras Maria da Glória Sá Rosa e Idara Duncan lançaram “Música de Mato Grosso do Sul/Histórias de Vida”. Dos 34 artistas entrevistados, nove deles faz parte do grupo de músicos englobado no livro “Os Pioneiros”. Em agosto de 2010 –sete meses depois de já ter lançado “Os Pioneiros”–, mais uma publicação aumentou a pequena bibliografia sobre a música sul-mato-grossense. “Polca, Paraguaia, Guarânia e Chamamé/Estudos Sobre Três Gêneros Musicais em Campo Grande (MS)”, do pesquisador e músico Evandro Higa. Os livros de Glorinha/Idara e Evandro foram lançados praticamente junto com “Os Pioneiros”.

Diante da falta de livros que enfocassem a geração de Délio e Delinha, a opção foi buscar as informações em jornais da época, nas discografias e nos arquivos dos artistas. Também utilizei autores sul-mato-grossenses diversos, como Acyr Vaz Guimarães, Aline Figueiredo, Ângelo Arruda, Eurípedes Barsanulfo Pereira, Paulo Renato Coelho Netto, Valério de Almeida, Valmir Batista Corrêa e Zilda Alves de Moura. Ayrton Mugnaini Jr., Darcy Ribeiro e Rosa Nepomuceno também serviram de fonte e de muita valia foi ter em mãos o livro em espanhol do autor José Fernando Talavera, emprestado pelo querido Elinho do Bandoneon, sobre a vida do maestro paraguaio Hermínio Giménez.

Alguns amigos que leram o livro deram sugestões para a segunda edição. Elas foram atendidas. Uma delas foi incluir algumas letras das músicas citadas. Também me foi sugerido que colocasse mapas referentes à Campo Grande e Mato Grosso do Sul, para uma melhor compreensão das localidades e da distância da cidade e estado de outros lugares.

Ter reunido alguns dos representantes desta geração de pioneiros da música de Mato Grosso do Sul em livro, foi uma forma de também organizar as informações sobre estes artistas, para que sirvam de fonte de pesquisa para outros trabalhos e ajude a aumentar a bibliografia dedicada a estudar e contar a trajetória da música sul-mato-grossense.

Rodrigo Teixeira (Campo Grande, 13 de julho de 2013)

4 pensamentos sobre “Livro ‘Os Pioneiros – A origem da música sertaneja de MS’ ganha segunda edição

  1. Olá Rodrigo. Li e já folheei inúmeras vezes depois de lido. É referência e fonte de consulta sobre a música do MS. Inclusive, preparei uma resenha que vou postar em breve no meu blog. E preciso adquirir o meu exemplar, pois o que tenho em mãoes é emprestado do meu professor. Tem as informações de local de venda e o custo, para eu adquirir e linkar aqui no seu blog pro pessoal saber mais sobre o livro?

    Muito bom saber a metodologia que você usou para fazer o livro, e principalmente os detalhes das entrevistas. Parabéns, novamente, pelo belo trabalho!

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