JORGE DREXLER – ‘Cantar em português é uma alegria’

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Drexler é atração do Festival América do Sul 2013

Jorge Drexler fala bem o português. É a primeira impressão logo no início da conversa com o músico sul-americano de maior prestígio da última década. Por telefone, de sua casa em Madri, onde mora há muitos anos, o compositor uruguaio conversa com a reportagem de O Estado sobre a sua vinda ao Festival América do Sul, que será realizado do dia 1° a 5 de maio, em Corumbá. Ele toca no dia 3 e é a principal atração sul-americana do evento.

Drexler se mostra informado sobre a região. Destaca a importância ecológica do Pantanal e aponta que o Estado é conhecido por desenvolver uma música ternária. O médico e autor de “Al Otro Lado Del Río” – música que rendeu para ele, em 2005, o primeiro Oscar da história da música da América Latina no prêmio que é considerado o maior da indústria cinematográfica – vem acompanhado de dois músicos direto do México para Corumbá. Na Cidade Branca, Drexler inicia uma série de apresentações que realizará em várias cidades do Brasil e já rodou mais de 10 países.

Rodrigo Teixeira – É a primeira vez que toca em Mato Grosso do Sul?
Jorge Drexler – Sim, é a primeira vez. Estou com uma curiosidade enorme.

Quais as informações que você tem do Pantanal, aqui da nossa terra? O que você já ouviu falar?
Chegou uma informação sobre a importância de Corumbá como porto fluvial, e a importância da região pelo seu monumental valor ecológico. Mas nunca tinha ido, estou indo com uma grande vontade de aprender.

Você tocou no Paraguai, em Assunção, em 2011. Foi a primeira vez que você tocou lá também?
Sim, também toquei perto de Mato Grosso do Sul, em Santa Cruz de La Sierra.

Nessa sua última turnê você fez show em dez países, ou mais. Como é tocar na América do Sul? Você acha que esse circuito tem que ser feito? É mais fácil pra você tocar na Europa do que na América do Sul? Como você vê isso?
A América do Sul é meu circuito favorito agora, América do Sul e Central. E na verdade eu toco na Europa, mas onde mais toquei foi na Espanha. A língua espanhola é muito determinante onde eu toco, para onde vou. A língua é muito importante para o meu trabalho, e as letras são muito importantes nas minhas canções então isso tem muito a ver com onde o público compreende a língua e pode entender o que a canção está dizendo. Daí eu toco em todos os países “espano falantes”, eu toco também no Brasil que não é “espano falante”, mas é “espano ouvinte”. E na Espanha muito e nos Estados Unidos também muito, e no resto da Europa às vezes. Agora também com a crise européia tudo é mais difícil.

Você ainda continua morando em Madri ou não?
Sim, adoro Madri.

Você vai tocar no Festival América do Sul, que é um festival que fala muito em integração sul-americana, principalmente do ponto de vista do Brasil, do Brasil falar português e o restante falar espanhol. Como você analisa hoje em dia essa integração da música sul-americana com o Brasil? Você já faz isso com Paulo Moska, com o Lenine, o Vitor Ramil lá de Porto Alegre também, de Pelotas. Na década de 1970 o Chico Buarque, o Caetano Veloso, fizeram muito essa integração com Mercedes Sosa. Hoje em dia você analisa como essa integração?
É complicado, eu analiso dentro do contexto. Eu penso que está acontecendo, eu senti isso muito claramente na primeira década do século, senti o Brasil se abrindo, mas agora acho que a própria exuberância econômica, agora que tem no Brasil esse desenvolvimento econômico bem rápido, tende a fechar o Brasil, mas na primeira década eu vi claramente isso acontecendo. Temos muito interesse no espanhol, e também tinha uma coisa que é difícil de perceber e que parece contraditória, mas, o Brasil tem muita identidade, muita vontade de ter identificação com a América Latina. Agora tem muita concordância política, tem uma sincronia política na América. Mas também tem outra coisa muito importante. O Brasil tem uma grande referência, os Estados Unidos, que é um país grande, forte, feito da miscigenação de cultura, muito dinâmico. E o Festival está sendo conquistado desde dentro na América Latina, então essa é outra via de chegada da língua espanhola para o Brasil. Hoje em dia brasileiro que mora nos Estados Unidos fala espanhol, porque ele tem uma via de conexão muito rápida e tem uma chegada paradoxal de integração latino-americana através dos Estados Unidos.

Você sente isso?
Eu sinto isso claramente. Você vai para Estados Unidos, para Chicago, para Miami e para Los Angeles, e lá os brasileiros falam espanhol. Eles aprendem porque entendem rapidamente o poder da língua espanhola nos Estados Unidos. E o Brasil tem um referente importantíssimo nos Estados Unidos, se guia muito pelos Estados Unidos. E aí eu penso que tem várias guias de conexão conosco aqui na América, mas às vezes a via direita não é a primordial.

Você se preocupa em cantar em português? Em que medida você acha que é importante cantar em português para também entrar no mercado do Brasil ou você acha que isso é independente da língua?
Eu acho que não é independente. No Brasil se consome 95% de música em português então evidentemente é melhor. Primeiro não me preocupo nunca em cantar em português, não é uma preocupação, é uma alegria. E depois também eu me sinto completamente sincero, eu nunca olho para os países como mercado. A grande alegria que me deu é ver o Brasil completamente integrado no seu próprio ambiente artístico, pelos seus artistas. Fico feliz em ver artistas como Maria Rita, Paulinho Moska, o Lenine. Ney Matogrosso gravou canções minhas, e essa é a minha forma predileta de entrada num país, a forma, a via através dos contatos culturais.

Nesse show novo que você vai apresentar, você toca sozinho, é só violão?
Não. Eu sou muito minimalista, fico às vezes só no violão, mas tenho outros dois músicos tocando instrumentos minimalistas, eletrônicos e acústicos.

Esse show você está fazendo desde quando, esse que você está trazendo para Corumbá?
A gente já tem feito, acho, uns 80 shows a 100 shows, acho que já faz um ano e meio.

Você vai tocar na beira do Rio Paraguai e no meio do Pantanal, a gente fala aqui que Corumbá é a capital do Pantanal. Se você pegar um navio ou um barco desce até Buenos Aires e até Montevidéu pelo Rio da Prata. E existe aqui muito essa questão dos músicos fazerem mais uma música para o resto da América do Sul do que para o Brasil. Como você vê essa música do Rio da Prata? Você vê uma unidade? Por exemplo, você usa muito a milonga também, ritmos regionais.
A música do Rio da Prata está na base da minha cultura e das minhas canções. É muito importante a milonga, o candombe, la murga, o tango. São também elementos de comunicação, o tango é uma comunicação muito forte com a Argentina, a milonga é uma comunicação muito forte com a Argentina, mas também com o Rio Grande do Sul, até o samba tem uma presença muito forte no Uruguai, o samba é escutado muito no Uruguai, muita gente toca samba lá.

A tradição da música paraguaia é mais a polca paraguaia, o chamamé. Isso não entra tanto no seu trabalho? Como que você vê mais esses ritmos, que são os ritmos mais usados aqui no Mato Grosso do Sul, como a guarânia, por exemplo?
Eu conheço pouco. Sei que em Mato Grosso do Sul é uma das poucas regiões do país que tem ritmos “ternários”. Eu já ouvi isso aí e fiquei muito interessado, e estou indo agora para conhecer. Na verdade o que acontece é simplesmente um detalhe geográfico. O Uruguai não tem fronteiras com o Paraguai. A ligação cultural com o Paraguai é muito indireta, existem fronteiras com Argentina e com o Brasil, na verdade a fronteira com o Brasil é uma fronteira completamente aberta, que não tem selva, não tem grandes rios dividindo, na maior parte da fronteira do Uruguai com o Brasil você pode colocar o pé no Brasil e um pé no Uruguai. Isso não é possível na fronteira com a Bolívia, com o Peru, com a Colômbia são fronteiras muito difíceis.

Jorge, você sabe que já tentaram trazer você para o Brasil várias vezes. Em 2006 eu estava na organização do Festival, tentamos e não deu certo, eu acredito que o pessoal já tentou outras vezes, e finalmente você está vindo tocar em Corumbá.
Fico muito feliz de saber isso, muito contente. Tem um artista de Mato Grosso do Sul que vai tocar aí com umas meninas…

Sim, é o Jerry Espíndola.
O Jerry Espíndola e eu temos aí uns dois dias de diferença, ele é de 23 de setembro e eu sou do 21. Manda um “saludo” aí para o Jerry. Já ouvi a música do Jerry, procurei no Youtube e vi a evolução dele. Ele vem de uma família de músicos, todos muito talentosos.

Como você chegou no repertório desse disco, desse show que vai fazer em Corumbá?
Na verdade o repertório vai mudar, o show vai ser mais curto no festival, então vai depender do que a gente ver na prova do som. Vai depender do que a gente perceber da ideia do público, se o público vai estar de pé, se vai estar sentado, tenho músicos muito bons em improvisar. A gente vai armar um repertório no mesmo dia. O bom de estar apresentando um disco é que você pode escolher canções de qualquer época de sua vida.

Estamos encerrando. Você vai tocar em outros lugares do Brasil, agora?
Sim, vou tocar em São Paulo, Florianópolis, Rio de Janeiro, Porto Alegre, e talvez mais algum lugar que está para sair, Brasília talvez. Mas tocamos em Corumbá primeiro.

Decupagem: Daiane Libero

Fotos: Divulgação/Warner

Entrevista publicada originalmente no jornal O Estado de MS em 27/04/2013: http://www.oestadoms.com.br/flip/27-04-2013/p24b.pdf ou http://www.oestadoms.com.br

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