Vozes do Artesanato – CONCEIÇÃO DOS BUGRES

LIVRO – Vozes do Artesanato – FCMS/2011

CONCEIÇÃO DOS BUGRES

Conceição Freitas da Silva

8/12/1914 – Santiago, RS

13/12/1984 – Campo Grande, MS

por Rodrigo Teixeira *

Conceição viajou para a fronteira do ainda Mato Grosso uno em uma carroça. Era 1920 e ela tinha apenas seis anos. A pequena acompanhava os irmãos e os pais – o gaúcho Antônio Freitas Barreto e a argentina Generosa Pedrosa da Silva – na longa jornada entre a sua cidade natal Santiago, no Rio Grande do Sul, até Ponta Porã, passando antes pela Argentina e Paraguai. A migração de gaúchos para Mato Grosso acontecia desde a Guerra dos Farrapos (1835-1845) e intensificou-se com o final da Guerra do Paraguai (1864-1870) e a Revolução Federalista (1893-1895), que agitou o Sul do país. O mercado de erva-mate, comandado pela Companhia Matte Larangeira, também atraía a mão de obra gaúcha e paraguaia. Os pais de Conceição, no entanto, eram roceiros.

A trajetória para Conceição Freitas da Silva se tornar Conceição dos Bugres foi longa. Passou o final da infância e a adolescência em Ponta Porã, onde se casou com Abílio Antunes, que era natural de Amambai. Em meados dos anos de 1940, Conceição teve os filhos Wilson e Ilton. Até então, ela se dedicava basicamente aos afazeres de casa. Em 1957, com 43 anos, mudou-se para Campo Grande com o marido. Conceição era de família espírita. Desde os 15 anos – quando teve um problema em sua perna, foi levada pelo pai a um Centro Espírita e curada – praticou a religião. Foi com seu pai também que Conceição aprendeu a fazer remédios com as mais variadas raízes e ervas. Ela também era benzedeira e dava “passes”. Se gabava de até os 60 anos jamais ter ido ao médico. Dona de uma saúde de ferro e uma espiritualidade desenvolvida, a verdade é que Conceição deixou a sua terra natal para criar o principal artefato da iconografia de Mato Grosso do Sul: o bugre.

Imagem

Foto: ROBERTO HIGA

Antes de ela se tornar uma escultora, seu filho Ilton Silva – nascido em 1943 – se transformaria em um dos primeiros destaques das artes plásticas do Sul de Mato Grosso. Ele começa a se interessar por pintura aos 14 anos. Autodidata, deixa Ponta Porã e se transfere para Campo Grande em 1966. Sua obra já é tão convincente que um ano depois, em 1967, ganha a primeira exposição individual na promoção de estreia da Associação Matogrossense de Artes (AMA). Conceição começa, nesse mesmo período, a produzir os imagéticos “bugrinhos”. Os “descobridores” e primeiros divulgadores de Conceição são justamente o artista plástico Humberto Espíndola e a escritora, crítica de arte e produtora cultural, Aline Figueiredo, fundadores da AMA. Foram eles que deram palpites estéticos e práticos para que Conceição aprimorasse seus bugres. Tanto que as três primeiras exposições da escultora, entre 1970 e 1971, foram organizadas pela AMA.

O modo com que surgiu o bugre da Conceição é envolto em misticismo. Assim como a própria história do desenvolvimento do artefato. No entanto, no livro “Artes Plásticas no Centro-Oeste”, de Aline Figueiredo, publicado em 1979, a escultora dá a sua própria versão em uma rara entrevista realizada pela autora no ano de 1974. “Um dia, me pus sentada embaixo de uma árvore. Perto de mim tinha uma cepa de mandioca. A cepa de mandioca tinha cara de gente. Pensei em fazer uma pessoa e fiz. Aí a mandioca foi secando e foi ficando parecida com uma cara de velha. Gostei muito, depois eu passei para a madeira.”

Imagem

Bugrinho!

O certo é que os bugres da Conceição são todos parecidos, mas nenhum idêntico. Apesar da mesma posição de sentido, da cabeça reta e a pintura preta imitando os cabelos, os bugrinhos sempre cultivaram a diferença. Outro fato marcante foi a maneira que a cera de mel de abelha acabou sendo incorporada ao modo de Conceição fazer o bugre. “Uma vez sonhei que o Abílio (seu marido) foi ao mato e trouxe bastante mel. Logo pensei em tirar cera. Espremi ligeiro e pus no fogo a ferver. A cera ficou bonita, amarelinha e então eu peguei um pincel e comecei a passar cera nos bugres. No dia seguinte, mandei o Ilton (seu filho) comprar cera. Eu já sabia do efeito através do sonho, já havia gostado. Achei que ficou igual ao sonho e não deixei mais de usar. A cera não deixa a madeira trincar com o vento. E para mim a cera representa a roupa. Antes o bugre andava nu, agora anda vestido”, descreveu Conceição na mesma entrevista a Aline Figueiredo.

Quem acompanhou de perto o dia a dia de Conceição foi seu neto Mariano, filho de Wilson e Sotera. Seu pai, falecido em 1987, trabalhou como motorista e mecânico e só depois da mãe se tornar “famosa” começou a entalhar madeira. A sua mãe, em 1980, inicia a produção dos famosos totens com carrancas – influenciada por Conceição – e se torna destaque da escultura sul-mato-grossense. Aos sete anos, Mariano começa a ajudar a avó e fica responsável por cortar as madeiras, dar retoques e encerar os bugres. Ele afirma que Conceição nunca aceitou mudar seu modo de trabalhar, usava basicamente a machadinha e era tranquila para fazer os bugrinhos, por isso nunca chegou a se machucar seriamente. Ela acordava geralmente às cinco da manhã, fazia seu chá de mate e o bolinho frito muito apreciado na família. Seu ritmo para produzir os bugres só não era mais rápido porque ela tinha que se dedicar aos afazeres domésticos.

Conceição produziu centenas de bugres e nas décadas de 1970 e 1980 tinha uma demanda grande de pedidos. Apesar de vender praticamente tudo que produzia, a escultora nunca conseguiu deixar de levar uma vida modesta. O dinheiro que ganhava com a venda dos bugres ficava todo na família mesmo, com os filhos e o marido. Por muitos anos residiu em uma casa modesta no Bairro Universitário, em Campo Grande. Jamais imaginaria que seus bugres seriam utilizados em publicidades, estampas e recriados das mais diversas maneiras, uma espécie de domínio público sobre a obra. Antes de Conceição falecer em 1984, seu marido Abílio começou a fazer também os “próprios” bugres. Na verdade, Abílio já fazia com a ajuda dos filhos mesas de madeira de três pernas e banquinhos redondos sem encosto. Segundo Sotera, a sogra reclamava do interesse do marido e dizia que o único que poderia fazer os bugres era o neto Mariano. Mesmo assim, Abílio seguiu fazendo os bugres até a sua morte em 1995. Desde então, Mariano Neto dá prosseguimento à produção com peças bem mais estilizadas e padronizadas. Por enquanto, é único da família que mantém a tradição da feitura dos bugres.

Imagem

Foto: RODRIGO TEIXEIRA

A morte de Conceição veio de forma inesperada. De uma hora para outra começou a passar mal. Depois de alguns dias internada, recebeu alta, mas voltou a ficar debilitada. O diagnóstico foi câncer. Internada novamente no Hospital Universitário (HU), não resistiu e faleceu antes mesmo de ser operada, apesar de no dia anterior estar lúcida e conversando. Foi enterrada no Cemitério Santo Amaro, onde iria ser sepultado também seu marido Abílio. O reconhecimento, após quase três décadas de sua morte, não chegou de forma convincente, apesar de sua obra ter se tornado popular e elogiada pelos mais importantes críticos do país.

Os bugres originais de Conceição, no entanto, estão esgotados. A própria Sotera e Mariano já não possuem nenhuma peça da escultora. Os últimos cinco bugres pequenos que restavam foram vendidos por R$ 3 mil. Na casa da família, existe apenas uma fotografia grande da matriarca e um dos vestidos usados por Conceição. Aliás, os registros da escultora são raros. Além da pequena entrevista de Aline Figueiredo – a escritora possui um vasto arquivo fotográfico também –, no livro “Artes Plásticas do Centro-Oeste”, Conceição foi clicada por Roberto Higa em uma sessão histórica e documentada no curta homônimo de Cândido Alberto da Fonseca, com dez minutos de duração. O filme, premiado pela Fundação Nacional de Artes (Funarte) em 1979, é um dos únicos registros audiovisuais da artista e necessita há anos de restauração. A matriz em 35 mm está na cinemateca do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro e a cópia em 16 mm, doada pela Funarte ao Museu da Imagem e do Som (MIS-MS), está deteriorada.

Imagem

Um dos seus maiores incentivadores, Humberto Espíndola, ressalta a importância dos bugres de Conceição. “Reconhecida internacionalmente, ainda em vida, Conceição criou, inconscientemente, uma obra que reata, no tempo e no espaço, a confecção de bonecos de madeira que Guido Boggiani constatou como tradição artesanal entre os índios da família Mbayá-guaicuru que habitavam nossa região e o Chaco Paraguaio, interrompida no início do século passado. Essa retomada, iniciada pela nossa Conceição, parece-nos hoje um fato definitivo, quando observamos que mesmo depois de sua morte, os ‘bugres’ continuam vivos e procriando-se”, escreveu o artista plástico no fôlder da exposição “Conceição e Sua Gente”, realizada no Museu de Arte Contemporânea de Mato Grosso do Sul, em 2004, em Campo Grande, MS.

A força mágica, aliás, do totem criado por Conceição, é comprovada em uma história que se tornou lendária na família Espíndola. O próprio Humberto conta a passagem. A saudosa Dona Alba, a matriarca dos Espíndola, sempre foi uma pessoa espirituosa e cativante. Em certa ocasião, um circo instalou-se perto da casa da família em Campo Grande e Dona Alba acaba se apegando ao macaco e inusitadamente pede para o pessoal levar o animal para fazer uma visita a sua casa. Dona Alba prepara um “lanche” de verdade para o macaco e o encontro vira aquela farra, com o animal se comportando com uma educação exemplar e encantando a todos. Até que a certa altura, o macaco se depara com um bugrinho da Conceição e toda a sua “civilidade” acaba por ali. Ele se ajoelha e reverencia a imagem do bugre como um totem sagrado.

EXPOSIÇÕES

1970

• Panorama das Artes Plásticas em Campo Grande (obteve referência especial) Associação Matogrossense de Artes (AMA) – Campo Grande (MS)

• 3a Exposição Nacional de Arte do Brasil – Curitiba (PR)

1971

• 5 Artistas de Mato Grosso (Brasil Via Mato Grosso) AMA – Galeria IBEU – Rio de Janeiro (RJ)

• Ilton e Conceição AMA – Galeria do Hotel Campo Grande – Campo Grande (MS)

1972

• Arte Brasil/Hoje: 50 Anos Depois – Galeria Collectio – São Paulo (SP)

1974

• Mostra de Artes das Olimpíadas do Exército (medalha de ouro) – Brasília (DF)

• Bienal Nacional – São Paulo (SP)

• Mostra Inaugural do Museu de Arte e de Cultura Popular da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) – Cuiabá (MT)

• Mostra Estadual de Artes Plásticas – Cuiabá (MT)

• Exposição Individual no Museu de Arte e de Cultura Popular da UFMT – Cuiabá (MT)

1975

• Panorama de Artes Plásticas em Mato Grosso do Museu de Arte e de Cultura Popular da UFMT – Cuiabá (MT)

1978

• Exposição Artistas de Mato Grosso do Sul – FCMG – Corumbá (MS)

1997

• Exposição In Memoriam – Centro Cultural José Octávio Guizzo – Campo Grande (MS)

2004

• Exposição Conceição e Sua Gente – Museu de Arte Contemporânea de Mato Grosso do Sul – Campo Grande (MS)

BIBLIOGRAFIA

• FIGUEIREDO, Aline. Artes plásticas no Centro-Oeste. Cuiabá: UFMT/MACP, 1979.

• FIGUEIREDO, Aline; ESPÍNDOLA, Humberto. Animação cultural e inventário do acervo do Museu de Arte e de Cultura Popular da UFMT. Cuiabá (MT): Entrelinhas, 2010.

• GLÓRIA SÁ ROSA, Maria; DUNCAN, Idara; PENTEADO, Yara. Artes plásticas em Mato Grosso do Sul. Campo Grande, MS: FIC-MS, 2007.

* Rodrigo Teixeira é jornalista, músico e autor do livro “Os Pioneiros – A Origem da Música Sertaneja de MS”.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s