A Música de MS: Histórias de Vida – Rodrigo Teixeira

A GRANDE AVENTURA DA MÚSICA

Sentir tudo de todas as maneiras / 

Viver tudo de todos os lados / 

Ser a mesma coisa de todos os modos possíveis ao mesmo tempo

(Álvaro de Campos)

 

por Maria da Glória Sá Rosa

Poeta, compositor, produtor musical, crítico de arte, fotógrafo, Rodrigo Teixeira vive sob o signo da inquietação. Uma forma de vida apenas não lhe é suficiente: quer todas. Nenhuma cidade sossega o andarilho, que já morou em várias delas, reinventadas nos labirintos do inconsciente, de onde ressurgem em forma de metáforas sonoras para dar vida a composições repletas de versos alusivos à natureza (tanto brilho na beira do mar) aos desatinos do amor (já suguei o seu sangue/tô de perna bamba) à aceitação dos resultados da sorte (perder nem sempre é o pior). Na música, interfere para criar diferentes linguagens, injetar nas notas musicais o sopro determinador da vitalidade. Ao incorporar os ritmos tradicionais da guarânia, do chamamé, da polca à turbulência do rock definiu a polca-rock como canal diferenciador da música de MS, onde tudo pode estar por um segundo, conforme afirma na canção Mal Melhor, sua primeira polca-rock.

No CD Polck, lançado em 2004, no qual figura um elenco de compositores dos mais expressivos de MS, como Paulo Simões, Geraldo Roca, Jerry Espíndola e outros, a originalidade começa nos desenhos da capa (criados por sua filha Gabriela) e estende-se aos sons da banda (dirigida por Antônio Porto) composta de guitarras, teclados, instrumentos de percussão, que instalam a magia de um clima nascido do talento, somado à sensibilidade criativa.

O recente CD Mandioca Loca amplia a força do CD Polck com guitarras pesadas e baterias, incorporando-se às labaredas que atingem até a calçada da fama e o coração de papel que está pegando fogo. Todos os sons são bem-vindos nesse disco que fala de sertão, de tereré, na simbiose entre o antigo e o novo, elementos com que Rodrigo escreve a história de uma música onde cabem todos os ritmos e emoções. Divulgador dos trabalhos dos colegas no site Overmundo da Internet, onde registrou depoimentos antológicos de Geraldo Roca e Tetê Espíndola, Rodrigo Teixeira cultiva a aventura de viver tudo, de todos os modos possíveis, como uma sina a que não consegue escapar.

História de Vida – Envolvimento com a música

Meu nome é Rodrigo Teixeira Gonçalves. Nasci em Lavras do Sul, cidade fronteiriça do Rio Grande do Sul, em 11/04/69. Vivi em várias cidades do país: Porto Alegre (RS), Santa Maria (RS), Cambará do Sul (PR), Lapa (PR), Ivaiporã (PR), Caçapava do Sul (RS), Dourados (MS), Campo Grande (MS), Canoas (RS), Mogi das Cruzes (SP), Suzano (SP), São Paulo (SP), Porto Velho (RO), Rio de Janeiro (RJ)…

Tenho dentro de mim o traço fronteiriço do gaúcho. Ouvia desde pequeno os encontros musicais nas fazendas com violão e bandoneon e muita milonga. Lembro também das “trovas” que são comuns no Sul. O cheiro de música fronteiriça que aparece na minha obra já vem desta época.

Com dez anos, depois de ter passado pelo Paraná e voltado ao Rio Grande do Sul, vim morar em Dourados onde meu pai foi trabalhar como engenheiro agrônomo. Um ano depois, em 1980, cheguei a Campo Grande. Até então a música era uma coisa passageira. Aos 14 anos, comecei a estudar violão. Aos 16, tive aulas com Carlos Colman e Orlando Brito, que, entre outras canções, ensinavam a tocar composições dos músicos de MS. Com isso, passei a ter contato realmente com a produção dos compositores do Estado.

As aulas de violão teceram laços de amizade entre mim e a moçada que também freqüentava o curso, como Maria Alice e Márcio de Camillo. O Guilherme Cruz, do duo Filho dos Livres, era um gurizinho que perturbava a gente na aula. Depois de um ano, Carlinhos me chamou para tocar na banda dele no show Na Corda Bamba, que aconteceu no circo que era montado no Horto Florestal. Foi meu primeiro show profissional, com direito a cachezinho. Era Carlinhos Colman e a banda Olho de Gato. O ano: 1986. Antes disso, já tinha montado algumas bandas, como a Kadwave, e participado do grupo de jovens da igreja Nossa Senhora de Fátima, onde aconteceram as primeiras apresentações em público.

Participação nos Festivais

Comecei a tocar nos festivais que aconteciam em Campo Grande. Ganhei o primeiro lugar no da Nossa Senhora de Fátima junto com Sérgio Brasil, que foi depois para o grupo Tradição. Participei dos festivais do Curso Objetivo, ao lado do jornalista Paulo Renato Coelho Netto, que na época tocava gaita e violão. Era algo lúdico. Na ocasião, acontecia o Projeto Pixinguinha, que me permitiu contato com shows e elementos da MPB.

Lembro-me de um deles em especial. Foi quando o Geraldo Espíndola fez a abertura para a Elza Soares. Geraldo tocava sozinho e, no final, a banda da Elza entrava com ele na música Vida Cigana. Recordo a figura do Geraldo, de capa, cabeça inclinada para trás na cadeira, viajando durante vários minutos durante o solo de saxofone. Me marcou com certeza. O Projeto Pixinguinha era importante como formador de cabeças. Era a oportunidade de assistir ao pessoal de fora em um tempo em que quase não havia shows em MS.

Então, em 1988, fui para Mogi das Cruzes fazer jornalismo na Universidade UMC. Mas antes morei em Canoas, onde convivi com o compositor Flávio Adonis e a atriz Silvia Medeiros, minha tia, que de certa forma influenciaram em minha formação. Naquela ocasião, o pessoal de Porto Alegre já tinha o nativismo, o rock e a música urbana na mesma bacia. Em Mogi das Cruzes, depois do primeiro semestre, comecei a tocar em um barzinho chamado Pedágio e a cantar Música Popular Brasileira, repertório de bar e a geração do Rock BR. Até então, eu quase não cantava, era instrumentista, tocando baixo. Foi em Mogi das Cruzes que eu realmente descobri e tive coragem de cantar. Até porque a cidade era cheia de repúblicas e chácaras comunitárias. O que mais rolava era roda de violão.

Entrada na banda Olho de Gato

Em um dia de 1989, caminhando pela Universidade, encontrei o Naufal, guitarrista da banda Olho de Gato, vendendo livros de Odontologia. De cara me informou que a Olho de Gato, banda de rock de Dourados, formada em 1985, estava sendo reativada. O baterista Fernando Bola tinha ido para São Paulo a convite de Antônio Porto para eles montarem uma banda com o Rodrigo Sater. Só que o Bola chegou em São Paulo no dia em que o Toninho estava embarcando para a Europa de mala e cuia, onde ficou por 10 anos. Eram tempos de doideira e não tinha e-mail para se comunicar. Era orelhão mesmo. O Naufal e Bolão decidiram então montar a banda novamente, já que havia terminado no ano anterior. Acabei me aproximando do pessoal, pois estava todo mundo em São Paulo e eu no segundo ano de jornalismo queria mais era “cair na vida”.

Eu descobri a Olho de Gato em 1986. Estava defendendo uma música do Carlos Colman no último FESSUL, que foi realizado no Cine Alhambra. A banda que acompanhava os concorrentes do festival era a Olho de Gato. Imediatamente me liguei nos caras. Lembro do Naufal na guitarra, o Bola na bateria e o Lúcio Val no baixo. Era a primeira banda de música pop de MS, tocava reggae, afoxé, numa proposta ‘elétrica’ bem diferente dos músicos Prata da Casa que utilizavam mais o violão e o conceito acústico. Não se ligavam tanto a temas regionais e de certa forma se assemelhavam aos Paralamas do Sucesso. Todo mundo queria tocar com eles. E o Naufal (falecido) tocava uma guitarra Fender anos 70 sem distorção, misturava suingue, notas dissonantes e riffes econômicos. Me influenciou com certeza. Era uma linguagem mais moderna (pop) do que se via normalmente por aqui. Eu tinha 17 anos, mas os mais ‘velhos’ também se ligaram na banda. Tanto que o Carlinhos Colman fez teste com eles, depois entrou o Pedro Ortale e o Antônio Porto. O Claudinho Prates também chegou a tocar com a banda. Este trio era considerado os ‘músicos feras’ da cidade na época.

Assim que soube que a banda iria recomeçar fiquei enlouquecido em Mogi das Cruzes. Acabei largando a faculdade no terceiro semestre, fiquei entre Mogi e São Paulo até ir morar com os caras no Bexiga. A maneira com que eu virei cantor do Olho de Gato foi engraçada. Já estava tudo acertado para eu ser o baixista da banda. De repente toca a campainha e era o Pedro Ortale, de baixo em punho. Ele entrou dizendo que não ia mais tocar violão na banda do Almir Sater e que estava voltando para o Olho de Gato. Onde ele tocava baixo. Resultado: virei cantor da banda.

O apartamento no Bexiga era do Naufal. Eu, o Pedro e o Bola ficávamos na sala. Foi uma época de penúria de grana, mas de muita música. Estudei teoria musical, comecei a compor mais, numa época difícil em que passamos fome literalmente.

Com a Olho de Gato tocamos em vários lugares e projetos em São Paulo, em Campinas, na Unicamp… Para sobreviver, a gente atacava nos bares principalmente. Mas chegamos a fazer festa de révellion e formamos banda de cover para um parque de diversões no Guarujá. Foi quando eu conheci uma grande figura chamada Cláudio Bone, músico, trombonista, guitarrista e vocalista. Um grande amigo, que foi morto em um assalto em São Caetano do Sul, a sua cidade. Ele que tempos depois iria me apresentar a Habib Takla, o Tio Há, que tinha a banda de rock experimental chamada Os Fenícios que tocava muito rock dos anos 50, 60, no gênero Chuck Berry. Com essa banda, fiz toda a noite paulistana, abrimos show dos Titãs, tocamos no Aeroanta, no Vitória Pub, no Colúmbia. Esta época, entre os anos de 1990 e 1994, foi a mais “doida” da minha vida.

A gente enfrentava altas roubadas com o Olho de Gato. Uma delas foi quando fomos contratados para acompanhar um sósia do Raul Seixas em um bar da zona leste de Sampa. Quando o cara começou a cantar “Nós não vamos pagar nada…” a rapaziada iniciou um quebra-quebra arrasador. Era tipo um salão enorme. Vários camburões chegaram e tivemos que sair correndo pelos fundos. Fizemos muita festa nos barzinhos de Mogi das Cruzes também.

Eu tinha que me virar sozinho. Lembro que na época o normal em Sampa era receber por entrada de 40 minutos. Você cantava o tempo da entrada e ia para outro bar. Descobri que com poucas músicas dava para tocar a noite inteira neste sistema de entradas. Foi quando realmente eu tive de me virar com a música e encarar a cidade grande. Passei momentos bem difíceis, mas segurei o quanto pude.

Na época não tinha alternativa a não ser ficar em São Paulo para tentar a sorte. Jerry Espíndola, Márcio de Camillo, Antônio Porto, Rodrigo Sater, Caio Ignácio, Fernando Bola, Pedro Ortale, Gisele Sater, Tetê Espíndola, Almir Sater, Alzira, Guga Borba… todos estavam na virada de 80 para 90 em São Paulo buscando uma gravadora, o que era caminho natural para o sucesso.

Presença de Caio Ignácio no lance da Polca-Rock

Conheci o Caio em 1987, na época do Bar Nagibão, na Rua Maracajú, em Campo Grande. O Nagibão era uma espécie de templo cultural, onde aconteciam as manifestações artísticas da cidade. Nas conversas com o Caio Ignácio a gente refletia sobre um jeito de fazer com que a música daqui tivesse uma pegada mais forte, uma linguagem mais roqueira, com menos violão, mais guitarra e percussão. O termo afro-polca fazia parte do repertório do Caio, que sempre leu e escutou muita coisa. Antes disso houve o Poranguetê, grupo de Lenilde Ramos, Pedro Ortale, Geraldo Ribeiro, Antônio Porto e Cacá na bateria, que fazia um som que eles batizavam de Rock de Botina.

Aí chegamos à pergunta do nome. Quem inventou a polca-rock? Na verdade, ela vem desde a geração de Geraldo Roca com a composição Polca Outra Vez e mesmo com o disco Tetê e o Lírio Selvagem com Na Catarata. Só que não denominavam o que faziam de polca-rock, enquanto com o Caio Ignácio foi uma coisa pensada, discutida em nossas conversas na frente do Rádio Clube, nas quais insistíamos na incorporação de ingredientes mais ousados e uma sonoridade mais pesada para a música de MS.

Colisão, de Jerry Espíndola e Ciro Pinheiro, que Caio Ignácio tinha em seu repertório, pode figurar como a primeira polca-rock tocada como tal. No final da década de 80 e início de 90 eu acompanhei o Caio como guitarrista e, por isso, toquei bastante Colisão já com a intenção de fazer polca-rock. Estes são dados históricos, que fogem a interpretações.

O que é preciso entender é que a polca-rock mais que uma música, representava uma postura perante as coisas da época. Estávamos do outro lado do muro do Prata da Casa, querendo mudar, contestar o fato de as mesmas pessoas permanecerem no comando desde a década de 70. Nossa atitude tinha algo da rebeldia da juventude. Queríamos ir de encontro àquele som da geração Prata da Casa, que o Alex Fraga denominou Jacarelândia. Na época, brigava-se por um espaço maior para a música urbana. A polca-rock também era uma postura política.

Naquele final de anos 80 havia uma escassez de bandas e a polca-rock veio com a vontade de regionalizar, de envenenar a polca paraguaia e ser portadora da mensagem: olha estamos aqui, somos uma nova geração de músicos, não existem apenas o pessoal da Jacarelândia. A influência desta Geração Prata da Casa era muito forte na época e muita gente se revoltava. Em nossa ignorância juvenil, queríamos também um espaço. Havia uma postura política na polca-rock. Hoje eu reconheço como eles me influenciam e influenciaram de forma definitiva. Mas na época era diferente.

Não sei se o Jerry e o Ciro quando fizeram Colisão estavam ou não pensando em polca-rock. Só perguntando para eles. Também não posso confirmar se Caio Ignácio é o inventor ou não do nome. Até porque isso não tem tanta importância. É lógico que em Assunção ou nos países latino-americanos possa ter havido alguém que usasse esse termo polca-rock muito antes da década de 80. Mas aqui em MS a primeira pessoa que ouvi falando esta terminologia, polca-rock, foi o Caio. De onde tirou, só perguntando a ele.

Haviam de 4 a 5 bandas de rock na cidade. Hoje são mais de cem. As bandas de rock da época eram a Alta Tensão, do Bosco, do Edinho, guitarrista que agora está morando nos Estados Unidos, e do finado Alex Batata, meu grande amigo e companheiro. A Alta Tensão era praticamente a única banda de rock heavy metal, coisa pura de rock n’ roll que rompia fronteiras (gravou em Assunção), sem nada de regional, nada de polca-rock, era rock’n’roll. A Olho de Gato também era pop, não tinha nada de polca-rock. A primeira banda de rock autoral do Estado foi a Euphoria, do Bosco e do Zé Pretinho, nos anos 70.

Em 1988, fiz minha primeira polca-rock chamada Mal Melhor. Quando compus essa música, achei-a estranha. Com ‘acidentes’ na harmonia, sem rima, com acordes dissonantes. Lembro-me de ter chamado o Paulo Simões para ir ao ensaio e, ao ouvi-la, ele saiu dizendo: “Isso não é polca nada, vocês estão confundindo tudo.” Eu pensei: “Pô, se incomodou, está excelente. É o caminho”. A música Mal Melhor foi gravada no primeiro disco do Rodrigo Sater e depois gravei no disco Polck.

Nos anos 80/90, a questão da polca-rock era apenas uma parte do processo, não um todo, como veio a acontecer depois. A gente conseguia pensar mas, pela inexperiência, não conseguia concretizar muito bem a idéia. Ficava mais no campo teórico. Eu tocava reggae, funk, rock e polca-rock também. Mas não havia um repertório apenas de polca-rock. Era mais uma coisa germinativa e de postura. Se soa estranho ainda hoje, naquela época era mais ainda, pois além do som pesado havia a mistura com o regional. Fomos eu e o Caio na década de 90 para São Paulo, enquanto com o Jerry aconteceu o movimento inverso: foi pra São Paulo na década de 80, ficou lá e em 94 voltou para MS.

Tempos difíceis

Em 1990, eu, Bola e Pedro Ortale voltamos a morar aqui. Na ocasião, estava rolando de tudo, na atmosfera pesada de sexo, drogas e rock’n roll. Peguei a fase de terror da Aids, de 88 a 90, quando não se sabia bem o que estava acontecendo. Foi um tempo bem complicado. Ao voltar, comecei meu trabalho solo, montei o Rodrigo Teixeira e Banda Assalto, que era o Pedro Ortale, Fernando Bola, Caio Ignácio e o finado Luís Bulhões. Dei início aos projetos da época na Fundação de Cultura: Quinta Musical Antônio Mário, no Aracy, e outros. Na ida a Corumbá, atravessávamos o rio Paraguai de balsa e por lá as apresentações eram no chão batido mesmo. A falta de estrutura era marcante nos anos 90. Comecei a tocar com o cantor e trombonista Zeca do Trombone, um expert em jazz Standard e clássicos de blues. Foi uma influência importante em minha vida. Eu tocava contrabaixo e o Bola bateria. Havia também o Celsinho, um gaúcho que andava por aqui. A gente fez muito som.

Fui morar com meu pai em Porto Velho em 1992. Rodei o interior de Rondônia, fui para a Bolívia, continuando a sina de cigano, que me acompanha desde criança. Neste ano voltei para Mogi das Cruzes para acabar a faculdade de Jornalismo. Foi quando mergulhei no universo roqueiro de Sampa com a banda Os Fenícios. O Habib tinha um estúdio em Moema, o Oásis, onde muitos grupos ensaiavam e freqüentavam. Foi onde o Arnaldo Antunes anunciou a sua saída do Titãs e onde cruzei muitos músicos de São Paulo.

Em 1994, comecei a trabalhar no Diário de Suzano, como repórter e depois como editor de esportes. Acabei voltando a morar em Mogi das Cruzes e saí da banda Os Fenícios. Fiquei dois anos tocando em barzinhos apenas e fazendo música em casa. Em 1996, ganhei o prêmio de melhor cobertura entre os jornais diários de São Paulo pelo Diário de Suzano e fui para Nova Iorque. Assisti ao Stéphane Grappelli no Blue Note em uma experiência inesquecível para mim.

Acabei indo morar em 1997 no Rio de Janeiro, onde tive minha primeira filha (Gabriela) do primeiro casamento. Comecei a trabalhar na Carta Z Notícias. Tive contacto com a nata artística do Brasil, com os atores da Globo e as estrelas da música. Fiquei sete anos na TV Press, um ano como repórter, depois virei chefe de reportagem. Peguei todo o processo das gravadoras, dos superencontros que faziam, dos lançamentos, em que tive o prazer de entrevistar muitos mestres da cultura brasileira.

Em 1998, entrei para fazer meu primeiro disco no Estúdio 45 em um processo de tentar voltar à música pra não deixar a chama se apagar. Sambone é uma saladona com balada, guarânia, rock, samba, A capa sou eu em Bonito, no rio da Prata, com um peixe meio assim, me dando um ‘beijo’. Comecei a cruzar o Paulo Simões no Rio e começamos a fazer por lá uns showzinhos. Nossa primeira apresentação foi no Vinícius Bar. Foi quando comecei a ser reintroduzido na música de MS. Nesta época conheci o Anderson Rocha, que acabou vindo morar em MS tempos depois. Fiquei sete anos no Rio, morando na rua Santa Clara.

Renascimento da polca-rock

Em 2001, o Jerry me ligou, comunicando sua ida ao Rio onde iria lançar o disco Pop Pantanal. Jerry chegou no Rio, foi na casa do Paulinho Moska e depois foi para a minha. Tocou a campainha e entrou borocochô. Perguntei-lhe o que tinha acontecido, já que estava com um disco novo na mão. ‘Bicho fui na casa do Paulinho Moska, ele me falou que tudo que tem no meu disco já não é mais novo. A única coisa de que ele gostou foi Colisão porque é uma coisa diferente. Ele disse que todo mundo já faz música pop’.

O que o Paulinho Moska disse a ele foi justamente o que o Caio e eu ressaltávamos na década de 80. A polca-rock é um diferencial que pode ser utilizado de maneira mais contundente. E é algo que é natural nosso. ‘Não adianta repetir o que todo mundo faz’. Foi como se o Paulinho Moska dissesse ao Jerry: ‘Você tem uma coisa pura nas mãos, algo que só você sabe fazer e precisa potencializar.’ O Jerry não colocava fé nessa questão ainda. O Paulinho Moska foi quem abriu os olhos dele. Quando aconteceu isso no apto da Santa Clara a chama da polca-rock subiu. Aquele braseiro que estava quase apagando cresceu e fechamos ali o pensamento de fazer algo centrado na polca-rock.

A partir daí eu e ele puxamos de novo os fios da polca-rock. O Jerry trabalha o Pop Pantanal, começa a articular o disco dele com a Croa e eu vou bolando o meu ‘Polck’, nome que bolei para realmente ser um diminutivo polca + rock. Decidimos que os discos teriam caráter radical, só música em três por quatro, que é o ritmo da fronteira. Aí o Jerry trouxe os meninos do Croa, que foram fundamentais porque na época eu estava sem banda. O Bola e o Pedro Ortale, que formam a cozinha original da polca-rock, estavam em MS. Os três – Sandro Moreno, Adriano Magoo e Marcelinho Ribeiro – acabaram sendo o batalhão de frente da polca-rock. Eles forneceram a estrutura para que eu e o Jerry conseguíssemos fazer tudo de novo.

Em meu caso, chamei o Antônio Porto para assumir a direção musical e os arranjos do ‘Polck’. Este disco tem muito de Antônio Porto e a sua maneira de encarar o ritmo ternário. O repertório tem desde baladas, como Ouro e Diamantes, até coisas experimentais, como Corda Bamba. O Antônio toca praticamente todos os instrumentos. Eu banquei o disco do meu bolso com muito sacrifício e ele resolveu tudo rapidamente. O Sandro Moreno tocou bateria e o Adriano Magoo os teclados. É um disco conceitual realmente. Feito dentro do estúdio.

O disco traz como última faixa ‘Mais Respeito’ gravada praticamente ao vivo no estúdio com o Croa. É uma homenagem a Geraldo Roca. O verdadeiro pioneiro e pensador desta história da fusão dos ritmos fronteiriços. Eu fiz esta versão para este funk do Roca em 1990.

Nós começamos gravando as bases no estúdio Muziart, do Jarbas, em Campo Grande. Depois terminamos no Estúdio 45, do Anderson Rocha, no Rio. Com a grana que consegui no FIC eu prensei o disco, que já está esgotado.

Com o meu disco e, principalmente, o CD do Jerry&Croa a polca-rock ressurgiu. O que aconteceu é que o Jerry e o Croa começam a criar um repertório de polca-rock. A divulgação que eles conseguiram é histórica para todo a trajetória da polca-rock. O show Violas Turbinadas, que Jerry&Croa participou em Brasília, foi citado na revista Bravo como um dos 100 mais importantes que aconteceram no Brasil nos últimos anos.

Influência latino-americana

Em 2004 voltei a Campo Grande para trabalhar na Fundação de Cultura de Mato Grosso do Sul (FCMS). Acabei participando da elaboração e da concretização do Festival América do Sul, em Corumbá. Na primeira edição fui coordenador de jornalismo e nas duas seguintes coordenei a área da música. Foi uma experiência muito forte que reforçou ainda mais meu pensamento em relação a polca-rock. O contacto intenso com a cultura sul-americana acabou mexendo com toda a herança que trazia desde a infância na fronteira.

No Festival, conheci Willy Suchar, um músico argentino que mora em Assunção. Ele é o dono da Kamikaze Records, a primeira gravadora de rock do Paraguai. Ele estava no festival como empresário e produtor da banda Paiko, na época do casting da Kamikaze. Lembro-me de ter dado 20 CDs ao Willy dizendo-lhe: “Quero ir para o Paraguai. Quero fazer polca-rock em Assunção”. O Paraguai sempre apareceu para mim como uma espécie de Meca para a polca-rock.

Em dezembro de 2004, o Willy me chamou para tocar no Festival Gira Palermo em Assunção. O festival era de rock no estacionamento de um shopping. Tinha umas três mil pessoas. Chegando, notei que as bandas estavam tocando rock norte-americano tipo heavy metal, enquanto a gente tocava polca-rock. Parecíamos mais paraguaios do que os próprios paraguaios. Isto revolucionou minha cabeça. O público paraguaio entendeu o recado. O que me levou a comentar na época que queria morar em Assunção porque em Campo Grande ninguém nos entendia. Vendi vários discos depois dos dois shows que fizemos – além do festival, tocamos na casa La Trova. Também visitamos várias rádios.

Quando entramos no palco em Assunção, o pessoal começa a chamar a gente de ‘mandioca loca’, que é uma gíria de lá. Depois do show, os jornalistas não entenderam direito, pensaram que a banda chamava-se de fato Mandioca Loca. Foi o jornalista e poeta Douglas Diegues que na entrevista para a TVE Regional nos batizou assim. Sem querer acabou nos transformou no Mandioca Loca.

Além de mim, o Mandioca Loca tem na formação original Fernando Bola na bateria, Anderson Rocha na guitarra e Pedro Ortale no baixo. Depois entraram o Alex Cavalheri, o Fralda, nos teclados e o Alex Mesquita no baixo. Retomamos a polca-rock com força total. Em outubro de 2008 lançamos nosso primeiro disco. É a nossa versão de polca-rock de fato e um registro do som que eu, Bola e Pedro já fazíamos desde final dos anos 80. Registramos neste disco o que estávamos tentando fazer naquela época. O mais importante é a coerência no discurso. O disco Mandioca Loca é um prosseguimento do Polck, tem um link.

Algo que me marcou também foi o contato com o paraguaio Rolando Chaparro. Hoje é um dos principais músicos do Paraguai. Combateu a Ditadura de Strossner e sempre foi um cara engajado. Ele é um grande violonista e guitarrista que desde a década de 80 já misturava o rock com a polca. Ele chama de afro-polca e já lançou dois discos com este título. Era ele no Paraguai e nós aqui em MS fazendo a mesma coisa sem se conhecer. Fiquei pensando: a gente faz parte de outra história. Nossa rota não é pelo eixo Rio/São Paulo. O caminho é Campo Grande, Assunção, Corrientes, Montevidéu, o rio da Prata… Nesse sentido, o Festival América do Sul pirou minha cabeça em questão a latinidade. Escutei uma palavra da boca do Lenine que adorei e fez refletir: latinofonia.

Novas perspectivas de trabalho/Surge o Mandioca Loca

Saí da Fundação de Cultura e fiquei dois anos dirigindo o programa Toda Prosa na TV Campo Grande. Aí surgiu o Overmundo, que revolucionou de vez a minha cabeça ao mesmo tempo em que o Festival da América do Sul. O Overmundo é um coletivo virtual bolado pelo antropólogo Hermano Vianna para divulgar a cultura fora do eixo Rio/São Paulo. O Hermano reuniu um jornalista de cada estado na equipe fundadora do site, da qual tive a honra de participar. No segundo semestre de 2008 ocupei o cargo de Conselheiro do Centro-Oeste do Instituto Overmundo.

No primeiro encontro, ainda na fase de organização, me vi em um hotel no Rio de Janeiro com 28 jornalistas do Brasil. Um de cada lugar. Aquilo explodiu minha cabeça. Constatei como é grande nossa diversidade e como faltam veículos para mostrar isso. A própria experiência de construir o Overmundo de modo ‘virtual’ por meio de rede de pessoas espalhadas pelo Brasil foi uma piração total. Já no primeiro ano, o Overmundo ganhou o Oscar da Internet: o troféu Golden Nica. O site foi o primeiro do Brasil a vencer o Prix Ars Electronica, na categoria comunidades digitais. Em 2004, a Wikipédia ganhou a mesma categoria. O evento reuniu mais de três mil inscritos de 63 países. O Overmundo superou 408 concorrentes em sua categoria. Ou seja, o Overmundo já é referência. Em agosto de 2007 acabei assumindo a editoria do caderno Arte & Lazer do jornal O Estado de MS.

Música de MS

A geração de Délio & Delinha e Amambay & Amambaí diferenciou-se daquela de música caipira, que estava rolando nos anos 50 e 60 no Brasil. A música sertaneja era sinônimo de Jeca Tatu e tinha aquela ‘caipirice’ no estilo Tonico e Tinoco. O pessoal daqui entrou mostrando algo diferente, como polca, guarânia, rasqueado, chamamé e cantando em espanhol e guarani. O DNA era diferente. Depois, quando os compositores da geração de Paulinho Simões, Geraldo Espíndola, Tetê, Almir Sater tomam a pedra bruta, que era a melodia em compasso ternário e acordes naturais, colocam harmonia em cima, começam a puxar as melodias de outra maneira e falar de ecologia, eles fundam uma nova ponta da MPB que até hoje não é reconhecida.

Dentro do panorama da música brasileira, o Lírio Selvagem não era coisa de Minas, não tinha nada a ver com São Paulo, Rio de Janeiro. Era uma música que falava de natureza, da questão ambiental, que colocava harmonia em cima de uma música feita só com três acordes, o que me leva a afirmar que fundaram uma coisa que está aí até hoje.

Até as décadas de 30 e 40 a catira (MG) e o cateretê (GO) era o que mais tocava em Campo Grande, segundo minhas leituras. Há também a questão gaúcha, a influência do vanerão e da própria milonga. A partir das décadas de 80 e 90 começa a surgir uma música urbana em Campo Grande.

Acho que realmente a questão da música de MS envolve esse panorama enorme em que se consegue tocar de chorinho ao blues. E considero o Bêbados Habilidosos uma grande banda de blues. O Renato Fernandes é um compositor excepcional e um cantor fenomenal. Uma composição difícil de atingir. Essa multiculturalidade de Campo Grande é o lance da música daqui.

Propostas inovadoras

Estávamos tão na frente nos anos 80 que acho que continuamos na frente até hoje, com toda a modéstia. Esta coisa da rebeldia do rock vai existir sempre. É cíclico. Neste sentido gosto da vocalista do Dimitri Pellz, Maíra Espíndola. A banda tem uma performance legal. Musicalmente acho que os meninos do Jennifer Magnética são os melhores instrumentistas da nova geração do rock. De longe. O Gabriel Sater e o Marcelo Loureiro são instrumentistas excepcionais. Eles vão fazer a diferença. São duas figuras que dão seqüência a toda nossa herança musical.

O Filho dos Livres é um exemplo do nível de profissionalismo que a gente atingiu. Falo de performance em cima do palco e qualidade sonora. Acho que essa geração pós-Prata da Casa fez mais ou menos o que o pessoal do Titãs e do Paralamas conseguiu na música popular brasileira, que foi dar um salto em termos de qualidade, em termos de show, de performance profissional, de espetáculo, de preocupação com o cenário e produto final.

* Texto publicado no livro A Música de Mato Grosso do Sul: Histórias de Vida, de Maria da Glória Sá Rosa e Idara Duncan.  Escrito em 22/11/2008!

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s