FAS: Latinidade em xeque

Sétima edição do FAS (Festival América do Sul) em Corumbá mostra que evento mudou de foco e objetivos

Simone fazia seu show na noite de sexta – em 30 de abril de 2010 – durante a sétima edição do FAS (Festival América do Sul). Lá pelas tantas, no meio da música “Matilda”, de Gonzaguinha, a cantora evoca a plateia com um “everybody”. Neste momento, mais uma vez, o contra-senso fica evidente no evento realizado em Corumbá. Assim como Simone, só se apresentaram no Palco das Américas artistas brasileiros. Foi no Palco Brasil, menor e com estrutura inferior ao palco principal, que os poucos artistas que vieram de países da América do Sul tocaram.

Orçado em R$ 1,5 milhão, o “Festival América do Sul” mudou de perfil com o passar das edições. Até a terceira edição foi uma coisa, depois se transformou em outra. Nem pior, nem melhor. Diferente. Desde que o evento começou a ser comandado pela equipe do novo governo, o FAS enxugou a programação, diminuiu o número de dias e o perfil das atrações ganhou um enfoque mais popular, no sentido de atrair mais pessoas.

A questão é que vários problemas que já vinham acontecendo desde a primeira edição não conseguiram ser solucionados e foram surgindo outros. Entre os que não foram solucionados estão o da falta de uma mídia nacional para tornar o evento conhecido em todo o Brasil. Na verdade piorou, porque anteriormente o festival era lançado em São Paulo, Brasília e Campo Grande, e neste ano somente Corumbá teve um lançamento oficial. Outro problema é a falta de interatividade entre os próprios artistas que integram a programação. Na música, a inexistência de interação é ainda maior. A falta de jornalistas de outros Estados ou mesmo de órgãos vinculados ao governo, como a RádioBras, salta aos olhos para quem está cobrindo o festival. Simplesmente, não encontramos “coleguinhas de fora”. Este item está entre os problemas novos do evento.

Outra questão é a participação cada vez menor de artistas de renome de países sul-americanos. Neste ano, nenhum artista de peso da América do Sul esteve presente. Um dos poucos que vieram em 2010, como o Los Ojeda, do Paraguai, representa o que de mais comercial existe no país vizinho. O filho e neto do argentino Tránsito Cocomarola, inventor do chamamé, que participaram na quinta de show com Elinho do Bandoneon, passaram desapercebidos no evento. Colocar atração religiosa e realizar show em Ladário sem incluir na programação oficial também parece um equívoco.

Uma outra questão é a eliminação dos debates sobre temas ligados à América do Sul, na verdade, algo que não poderia faltar no evento. Não adianta promover o “Festival América do Sul” como a oportunidade de “unir os povos” do continente e não realizar uma reflexão sobre o tema. Na verdade, na terceira edição do FAS, já era claro que o festival teria de avançar na discussão da integração sul-americana e que já estava repetitivo o discurso de que “Corumbá se transforma em capital sul-americana das artes” e que “a América do Sul pulsa no coração do Pantanal”. Estas foram frases usadas desde a primeira edição e que são repetidas pelos organizadores e responsáveis pelo festival até hoje. São palavras bonitas de dizer, mas que precisam ser concretizadas na prática.

Uma das mais importantes ações do festival é o “Soy Loco Por Ti América”. Trata-se de um concurso entre os alunos das escolas corumbaenses em que são realizadas redações com um tema que envolve o continente sul-americano. Pois, o “Soy Loco”, que faria as crianças pensarem no assunto desde pequenos, está apagado na programação do festival.

Um evento que está na sua sétima edição já teria de ter superado alguns problemas como estes e realmente se tornar famoso em todo o país e na América do Sul. Principalmente, porque continua sendo um festival único no Brasil e, sim, em outros países do continente. Trazer artistas de outros lugares é caro e trabalhoso. Mas já era para as próprias embaixadas dos países mandarem seus artistas para se apresentar no festival. Na segunda e terceira edições já estava acontecendo isso.

Na verdade, o FAS precisa se tornar um evento de interesse sul-americano, com os governos e instituições seguindo na mesma direção. Reunir vários artistas sempre vai ser interessante, mas não basta para um festival que foi criado para fazer a diferença na América do Sul. A oitava edição do festival acontece em 2011 e o sotaque “sul-americano” precisa prevalecer concretamente.

2 pensamentos sobre “FAS: Latinidade em xeque

  1. É uma pena que isso venha acontecendo, o festival tinha tudo pra emplacar como um grande evento das Américas e infelizmente por falta de visão ele pode não vingar. Muito bom artigo!

  2. Rodrigo, como participante de 6 dos 7 festivais, quero compartilhar contigo essa análise, acrescentando que, me parece, o FAS reduziu-se a um GRANDE SHOW MUSICAL. Andei pelos demais locais do FAS, como exposições etc e vi muito pouca gente. Quero destacar o QUEBRA TORTO COM LETRAS cujo formato agrada a todos e é um ponto positivo do FAS que deveria ter mais divulgação. Esse ano, ganhamos até artigo no Estado de SP do ZUZA HOMEM DE MELO. Mas em todo o caso, esse é assunto de pauta par ao Forum Estadual de Cultura, que deveria debater e levar sugestões ao Governo mas prefere ficar com seu stand e poucos gatos pingados aparecendo.

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