Cult Press 08 – A baqueta livre de Tutty Moreno

Tutty Moreno jamais toca duas vezes uma música da mesma maneira. O baterista baiano, que já gravou em álbuns de artistas como Hermeto Pascoal, Milton Nascimento, Caetano Veloso e Chico Buarque, entre outros, é fiel à ideologia original do jazz: improvisar a cada compasso. A teoria está aplicada no segundo disco de Tutty – Forças D’Alma. O novo CD inaugura o projeto da Secretaria de Cultura da Bahia de lançar instrumentistas baianos com tendências jazzísticas e traz dez faixas. Todas gravadas no Teatro da ACBEU, em Salvador, como se fosse um show sem platéia.

Foram três sessões de gravações com apenas dois dias de ensaio“, revela Tutty, que viveu na capital baiana até os 21 anos e depois foi morar no exterior. “Troquei experiências com músicos de Londres, Los Angeles e Nova Iorque antes de parar definitivamente no Rio“, lembra o baterista, integrante do Quarteto Livre.

Nas sessões de gravação ao vivo, o baterista fez questão de não ficar preso a arranjos escritos em partituras e deixar os instrumentistas livres para criar. “Já nos ensaios as canções recebiam versões diferentes. E uma concepção contrária à da música atual, toda padronizada“, compara Tutty. O baterista testou várias formas de tocar. Como o projeto previa, Tutty formou uma orquestra de cordas com sete instrumentistas baianos. O músico também contou com a participação da mulher, a cantora Joyce, em duas faixas. “Já tinha o título e pedi para ela compor Forças D’AIma“, afirma o baterista, que também gravou com a mulher o baião Baracumbara.

Mas a espinha dorsal do repertório do CD é construída com canções de Dorival Caymmi, já que o projeto previa que a maioria das faixas do disco teria de ser de compositores da Bahia. “Era para só ter músicas do Caymmi. Mas houve problemas com as editoras e algumas tiveram de sair“, lamenta Tutty. Além das quatro faixas de Caymmi – A Lenda do Abaete, Só Louco, João Valentão e A Vizinha do Lado -, o baterista incluiu duas de Luiz Eça – Alegria de Viver e Imagem, parceria com Aloísio de Oliveira -, outra de Egberto Gismonti – Sanfona -, e a excelente Samba Novo, de Durval Ferreira e Newton Chaves. “Para fazer este disco, precisava de músicos que além tocar bem, tivessem a mesma concepção musical que eu“, observa Tutty.

Para os sopros, resolveu chamar Nailor Proveta, indicado em 97 para o Grammy na qualidade de líder da big band paulista Mantiqueira. Como queria um baixista com afinidade e, ao mesmo tempo, independência para não ficar o tempo todo ligado na levada da bateria, convocou Rodolfo Stroeter, que conhece há 20 anos. Quem já estava com vaga garantida era o pianista e arranjador André Mehmari, que Tutty conheceu em 97 no projeto Arranjadores, em São Paulo, onde o músico o impressionou com uma versão para Insensatez, de Tom Jobim. “Enlouqueci quando ouvi o André. Foi o primeiro que chamei“, confessa o baterista, que incumbiu o pianista de 20 anos dos arranjos de cordas e regência.

Ao escutar “Forças D’Alma” – que vai ser lançado pelo Pau Brasil e também pelo selo londrino Far Out Records -, é evidente as influências de jazzistas como Charles Mingus e da bossa nova carioca dos anos 60. Aliás, foram bateristas como Edson Machado, Dom Um Romão, Airton Moreira e Milton Banana que mais fascinavam Tutty. “Mas eles tiveram de sair do Brasil para ter algum reconhecimento e hoje ninguém os conhece. A música instrumental brasileira foi esmagada por modismos“, desabafa Tutty.

Além de seguir a meta de “desconstruir para reconstruir“, compartilhada por mestres como o baixista Charles Mingus, Tutty fez questão de subverter a harmonia das músicas e não cair no lugar-comum de arranjar as canções no estilo padrão, alternando o tema com improvisos. “Padrão qualquer um no mundo faz“, provoca o baterista.

* Publicado por Cult Press/Carta Z Noticias em 24/11/98

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