Cult Press 07 • Simplesmente música de Jards Macalé

Jards Macalé carrega a fama de maldito desde que apareceu de vestido e batom, em 1969, para defender a esquisita Gotham City no Festival Internacional da Canção, no Rio. Mas o cantor e compositor de 55 anos rechaça com veemência esta definição. Jards prefere balizar seu estilo como nomeou o seu sexto álbum, recém-lançado pela Atração Fonográfica. ‘O que eu faço é música‘, garante o compositor, sem deixar de lembrar que a frase é do amigo e polémico artista plástico Hélio Oiticica. ‘Era desta forma que ele definia seu trabalho e tem tudo a ver comigo. Achei um bom nome para o CD, de uma ironia propicia para o momento cultural que passamos’, explica Jards.

Há dez anos afastado dos estúdios e mais de duas décadas sem apresentar trabalhos com canções inéditas, o carioca criado na Tijuca, Zona Norte do Rio, reúne letras de amigos já falecidos e antigos sucessos para compor as 16 faixas do novo disco. Além de transformar antigas letras de Glauber Rocha e Torquato Neto nas inéditas Rei de Janeiro, Destino c Dente no Dente, Jards grava pela primeira vez Vapor Barato – parceria com Wally Salomão que ficou famosa na voz de Gal Costa, em 71, e ganhou recente versão do grupo Rappa e da própria Gal com Zeca Baleiro no disco Acústico pura a MTV – e faz um novo arranjo para Movimento dos Barcos, parceria com Capinam que o cantor já havia registrado no seu primeiro LP de 72.

O compositor também relembra uma parceria com Vinícius de Moraes, O Mais-Que-Perfeito, que Clara Nunes lançou em 74, e Poema da Rosa, poesia de Bertolt Brecht com tradução de Augusto Boal que Nara Leão gra vou em 69 e que Macalé incluiu no genial Contrastes, de 77. ‘Fiz questão de lembrar o centenário da morte de Brech’, frisa Jards.

O músico também decidiu que era a hora de musicar as letras de Torquato Neto e Glauber Rocha – falecidos respectivamente em 72 e 81 – que guardava há mais de duas décadas. O pequeno discurso de Glauber – ‘Idolatrada mãe a quem recorro, toda vez ameaçado pranto, paraíso São Sebastião, Rei de Janeiro’ – é transformado num mantra com levada lenta de samba e as de Torquato em sambas-canção.

Jards recebeu de Torquato as letras dois dias antes dele se suicidar. “Fiquei com as letras queimando nas mãos”, lembra o compositor. Já o instrumentista aflora nas faixas Mais Um Abraço no Nosso Amigo Radamés e Um Abraço no Oliveira. ‘Antes não conseguia soltar a voz e queria ser violonista’, afirma o cantor.

Mas é o lado de intérprete de Jards que surpreende em O Que Eu Faço é Música. Favela, de Padeirinho e Jorginho, traz uma letra que fala do surgimento dos conglomerados urbanos nos morros com um arranjo que mescla coro de vozes tradicional de sambas enredo, guitarra distorcida e tiros de metralhadora sampleados.

Só não é mais original que a versão para Blue Suede Shoes, clássico de Cari Perkins, em que Jards mostra grande criatividade no violão aliando rock com samba, além de subverter a melodia. “Esta faixa é uma loucura”, branda o músico, enquanto escuta a faixa de olhos fechados. Jards também dá uma nova abordagem para Cidade Lagoa, um samba-de-breque do repertório de Moreira da Silva. “Quis transformá-la numa gafieira moderna”, explica.

Com passagens por grandes gravadoras, como a PolyGram e a Som Livre, o músico frisa que teve total liberdade para fazer o que bem entendesse no novo CD, bem diferente da pressão que sentia nas multinacionais. ‘A Atração é pequena, mas muito profissional. Não ouvi nenhum não durante todo o trabalho’, agradece Jards, sem deixar de apontar o diretor artístico Wilson Souto Jr. – que na virada dos anos 70 para os 80 era dono do Teatro Lira Paulista, em São Paulo, onde se revelaram Itamar Assumpção e Arrigo Barnabé – como o responsável por armar um esquema ideal de trabalho.

Além de chamar para a banda-base os excelentes Jurim Moreira na bateria, João Helder no baixo, João Lyra no violão e Cristóvão Bastos no piano, Jards convocou o velho parceiro Lanny Gordin para tocar guitarra e violão em duas faixas. “Meu objetivo com estes músi¬cos era recuperar a levada do samba carioca”, teoriza o cantor.

* Publicado pela Cult Press em 01/12/98

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s