ENTREVISTA BOSCO • Encharcado de rock

O baterista João Bosco esconde a idade como manda o manual roqueiro; mas é com certeza um dos músicos mais emblemáticos do Mato Grosso do Sul

O garoto João Bosco já provocava com sua postura roqueira a cidade de Coxim. Aos 9 anos, se apropriava dos enormes cintos coloridos de sua mãe e amarrava o acessório na cabeça. Ele próprio incrementava as suas roupas. Rasgava e sujava de barro suas calças Lee. Tudo inspirado nas capas dos LPs que artistas do rock, como o guitarrista Jimi Hendrix. Desde cedo, já estava escrito: seria um roqueiro.

Mais de cinco décadas depois, aquele garoto rodou milhas na estrada do rock e se transformou em um verdadeiro símbolo da música urbana de MS. Unanimidade, respeitado por novos e velhos, João Bosco influencia e é influenciado por instrumentistas da nova geração sul-mato-grossense. Numa auto-definição de bate-pronto Bosco não vacila. ‘Não sou purista. Eu sou um batera encharcado de rock’n roll’, ressalta com seu jeito cadenciado de falar e ainda com o rosto inchado de quem acabou de acordar já perto da hora do almoço.

Escrever sobre Bosco é o destrinchar a história do próprio rock do MS. Lá pelos idos de 1975, após ser influenciado pela geração de Paulo Simões e Geraldo Espíndola nos festivais musicais da cidade no final da década de 60, aceitou o convite do ‘professor’ Miguelito para entrar para o Zutrik, na época a principal banda de baile do Estado.

Em 1976, fundou o Euforia, uma das primeiras bandas da Capital com atitude roqueira e com repertório autoral. Na seqüência, foi chamado para integrar (entre 1984 e 1991) o grupo de heavy metal Alta Tensão, que se tornou um dos ícones do rock regional. Entre 1992 e 1994 foi oficialmente baterista do Made in Brazil, a banda paulistana-brasileira com maior número de formações e uma verdadeira dinossauro-band brazuca já escrita na história da música do país.

Em 1995, em um show na ‘Festa do Peixe’, na velha conhecida Coxim, Bosco plantava a semente do que veio a se transformar em O Bando do Velho Jack. Com cinco discos lançados e façanhas como ganhar o Skol Rock em 1999, o grupo superou o assassinato do vocalista Alex Batata, em 1997, e atualmente é um dos grupos de maior prestígio da cena independente de MS.

Bosco ainda toca como músico convidado do Chalana de Prata e já acompanhou boa parte dos compositores do Estado. Colecionador inveterado de LPs, comanda desde os anos 80 a ‘Rock Show’, única loja especializada em artigos roqueiros do MS. Encharcado de rock até o último fio de cabelo, o campo-grandense Bosco recebeu ‘O Estado’ para a entrevista que está transcrita abaixo.

Desde pequeno você já tinha atitudes roqueiras evidentes. O que vem na sua lembrança em relação ao começo do seu flerte com o rock?
Lembro que eu passava férias em Coxim e fuçava o guarda roupa da minha mãe. Ela tinha uns cintos grandões e colororidos e eu amarrava eles na cabeça inspirado nas capas dos discos da época, como do Jimi Hendrix. Eu fazia as minhas roupas, passava barro e rasgava as minhas calças Lee. Eu tinha 9 anos e saía pelas ruas de Coxim vestido deste jeito. Alguns me chamavam de ‘bicha’ e eu enfrentava o preconceito que por incrível que pareça existe até hoje, embora tenha melhorado um pouco.

Mas os roqueiros mudaram muito também e atualmente a maioria toma danoninho…
Pois é. Um exemplo é o Marquinhos (baixista de O Bando) que chega para ensaiar com pasta, óculos e calça social. Mas é que muitas vezes o músico precisa se moldar à realidade porque a música não dá a estrutura necessária para seguir o sue dom natural. Aí tem que encarar empregos fora da música.

Atualmente o cenário da música está em que nível de qualidade?
Se formos pensar na década de 70, era um deslumbre total. A gente estava começando tudo. E a repressão militar Vera mais branda por aqui do que nas outras Capitais do país. Então, por exemplo, com o Euforia a gente mantinha um repertório com músicas de Milton Nascimento, Caetano e Gil, Jorge Bem, Guilherme Arantes, Tutti-frutti, casa das Máquinas, Secos e Molhados e dá para acreditar que o grupo fazia baile por todo o MS com estas músicas. É uma coisa inacreditável de falar agora. A gente tocava ‘Fé Cega e Faca Amolada’, do Milton, no baile em Rio Verde para um salão lotado com todos aplaudindo. Então fico refletindo que a gente fez um caminho inverso da valorização da cultura musical. Era uma estrada maravilhosa pela frente e os movimentos da música mundial eram muitos sentidos por aqui, com os Beatles recém-saídos de cena, os Rolling Stones e Bob Dylan em plena forma e ainda por cima com os nossos ídolos Geraldo Espíndola, Geraldo Roca e Paulo Simões fazendo uma sonzeira e com muita vontade. Fomos caminhando e mudamos deste som que falei para a banda Calypso e outros derivados desta prateleira musical. Ou seja, caiu bem o nível de lá para cá.

O Bando acaba de lançar um disco e sei que não foi fácil arranjar apoio. Você acredita antes era menos complicado conseguir patrocínio?
Era mais fácil antes sim. O Alta Tensão, por exemplo, na década de 80 teve o apoio da Coca-cola para gravar e lançar o segundo disco. E este ano ficamos duas vezes na mão com a operadora TIM, por exemplo, que na última hora não fechou o patrocínio. O show que fizemos anteontem para o lançamento do disco ‘Bicho do Mato’ teve muito poucos operadores. Na verdade o mercado do rock hoje em dia é no esquema faça você mesmo. A não ser que você grave um disco e seja comprado por milhares de pessoas e é claro que uma gravadora vai se interessar. Mas hoje o sistema é artesanal mesmo.

Até 2005 o grupo de vocês fez muitos shows e estava bombando. Qual foi o ponto mais alto na sua opinião que O Bando atingiu?
Com certeza foi quando ganhamos o Skol Rock. Mas creio que a questão é que uma cena não anda quando uma cidade parece grande, mas tem o coração pequeno como é o caso da nossa querida Campo Grande. Muito elogiada pela qualidade de vida, mas não consegue dar expressão para trabalhos musicais. Um show montado por uma banda aqui não se desenvolve. Se o ideal é fazer o mesmo show umas 30 vezes por aqui se faz três shows com muito sacrifício. Esta é a dificuldade e a realidade atual.

Campo Grande tem muitos músicos, compositores e cantores de alta qualidade. Falta a figura de produtor para ajudar a impulsionar a cena em Campo Grande?
Com certeza. Até agora quem mais batalhou foi o Waguinho. Ele até hoje investe, mas com muita dificuldade. Em Cuiabá, por exemplo, tem o Pablo Capilé e muito por causa dele a cena de lá está fazendo muito barulho. (Entra o filho do Bosco, o baterista Jean e dá a sua opinião sobre a cena de música de Cuiabá e o produtor Pablo Capilé: ‘A banda Vanguart de lá está estourando e é um fenômeno nacional e não apenas cuiabano. O principal responsável é o Pablo que tem uma articulação política muito forte. Foi ele, por exemplo, que conseguiu que a Fundação de Cultura de Cuiabá bancasse passagem para o Vanguart rodar os festivais do país por um ano. No primeiro ano deles, em 2002, o Pablo conseguiu apoio para fretar um ônibus e levar o Vanguart e mais um a banda para o Bananada em Goiânia e no mesmo ônibus levou mais 45 pessoas. Ou seja, levou o público das bandas junto pro festival. È uma bela sacada…) Atualmente nós estamos bem esquecidos aqui em Campo Grande em termos de apoio cultural. Está destinado para os artistas o que sobrar e como isso é muito pequeno ninguém vai a lugar algum. Do lado do governo o apoio é pequeno e do lado empresarial é zero. Nenhum. Caiu bem o nível de lá para cá.

Você é um dos que tocam esta fusão da polca com rock desde sempre. Muita gente do rock de Campo Grande torce o nariz quando escuta falar em polca-rock. Qual a sua opinião sobre o assunto?
Eu gosto. Desde criança em Coxim já escutava Zacarias Mourão, Dino Rocha e depois maior começa a ouvir Stones, Led e naturalmente esta fusão acontece quando vai tocar. Para mim Chalana de Prata é polca-rock. Eu não sou um baterista purista. Estou encharcado de rock’n roll. Mas acho que polca-rock não é de agora. A bandeira foi levantada pelo Caio, Jerry… mas já acontecia no passado. Só que não chamavam como polca-rock.

O que vem a sua cabeça quando pensa no Alex Batata?
Muita saudade. Ele pegou uma época dourada do rock aqui em MS nos anos 90. Havia um combustível que levava adiante, como nos anos 70, e que fazia a gente acreditar que lá na frente estava o paraíso. Então quando penso no Batata sempre vem esta imagem de um momento maravilhoso que passamos. E hoje O Bando está totalmente resolvido nesta questão.

Qual o caminho de um disco novo no momento atual?
Ninguém mais sabe. É engraçado. Em Campo Grande você encontra as portas abertas em todas as televisões e jornais da cidade. Mas as rádios estão trancadas para o trabalho dos músicos locais. E a rádio foi criada justamente em cima do artista, para divulgar a música, mas tomou um rumo diferente. Só duas rádios ajudam um pouco, como a Uniderp e a Regional, mas as outras nem tomam conhecimento. Deveria ser criada uma lei na câmara dos deputados que estabelecesse um espaço fixo para a música regional. Porque isto será revertido para o comércio local. O artista daqui recebe e gasta aqui mesmo. Já o de fora leva a grana para gastar no Rio, São Paulo e Bahia. Uma cena é criada também através dos meios de comunicação. Fico pensando no que meu pai sempre me falou: ‘Meu filho, se você não encontrar apoio em casa, você vai encontrar aonde?’.

* ESTA MATÉRIA FOI PUBLICADA PELO JORNAL ‘O ESTADO DE MS‘ EM 22/09/2007

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