Cult Press 06 • O samba dobrado de Guilherme Vergueiro e Mike Stoller

Disco

Samba Dobrado

por Rodrigo Teixeira

Um inesperado encontro entre Mike Stoller – compositor de hits como Stand By Me, Jailhouse Rock e Is That AH There Is? – e o pianista brasileiro Guilherme Ver­gueiro concretiza sumariamente a tão em moda globalização. O ál­bum Amazon Moon, lançado pelo selo Windham Hill, uma divisão da BMG, é uma perfeita combinação da mais pura escola brasileira do samba com a tradicional e sofisti­cada harmonia do jazz.

A peculia­ridade, no entanto, é que as 10 fai­xas do CD são compostas pelo americano Stoller, a maioria em parceria com Jerry Leiber. E é visí­vel a influência de músicos brasi­leiros como Hermeto Pascoal, Tom Jobim e Egberto Gismonti. Não foi à toa que, ao assistir um concerto de Guilherme Vergueiro em Los Angeles, o compositor dos Esta­dos Unidos tenha decidido convi­dar o pianista brazuca para dirigir o projeto que resultou no disco.

Na verdade, os arranjos e a direção de Guilherme foram os res­ponsáveis para imunizar Amazon Moon da síndrome de samba de japonês, que acontece sempre que americanos e europeus se metem a tocar o mais conhecido dos rit­mos brasileiros. Com um gosto refinado para escrever os arranjos, Guilherme teve a capacidade tam­bém de arregimentar uma banda de alto gabarito para gravar o ál­bum.

E a grande sacada do pianis­ta – que foi viver em Los Angeles já na década de 70 – é que ele cha­mou brasileiros e latinos para tocar os instrumentos rítmicos, corno o excelente percussionista Bira Show e baterista Pablo Silva e Lima, e americanos para a sessão de sopros, como o virtuoso trom-bonista Bill Raichenbach.

O paulista Guilherme Verguei­ro mostra em diversos solos do CD, como em Samba Beach, por­que já excursionou com artistas do naipe de Agostinho dos Santos, Leny Andrade, Djavan e Chico Buarque.

Com um ritmo contagi-ante em suas bases no piano, Gui­lherme consegue criar solos chei­os de melodias sofisticadas e que já chamaram a atenção de mons­tros do jazz. Ron Cárter, Wayne Shorter e Wallace Rooney, por exemplo, já gravaram em cinco CDs e foram convidados especi­ais em shows de Guilherme.

Os arranjos para The Sea Horse, Amazon Moon e Constant Surprise lembram as fusões pro­porcionadas por Sérgio Mendes, Airto Moreira e Flora Purim na década de 70 – e que até hoje in­fluenciam bandas brasileiras ins­trumentais como Cama de Gato e Pau Brasil. A diferença, no entan­to, fica para a ótima performance de Ary Piassarollo no cavaquinho que, com o som peculiar do instru­mento, puxa o clima mais para o samba do que para o jazz.

Mas quem rouba a cena é o flautista e saxofonista brasileiro Teco Cardo­so, do Pau Brasil. Ele dá uma aula de criatividade e improvisação aos músicos ultratécnicos da terra do Tio Sam.

Agradável novidade

A cantora amazonense Eliana Printes lança pela gravadora Indie Records o terceiro álbum solo e prova que tem um grande poten­cial. Com um belo timbre e poten­cial de voz, Eliana também mostra nas 11 faixas do CD O Próximo Beijo que, além de excelente intér­prete, também é boa compositora. Indicada no primeiro trabalho An­dando em Silêncio para o Prémio Sharp na categoria MPB Revela­ção, agora a cantora reforça a ten­dência de investir na mistura de ritmos brasileiros com um sotaque bastante pop.

O maior exemplo disto é a releitura dance para o clássico da bossa nova Você e Eu, de Carlos Lyra e Vinícius de Mo­raes, que ganhou harmonia sofis­ticada e um arranjo que beira o funk. Amparada por uma banda que conta com instrumentistas gabaritados como Milton Guedes, Marcelo Costa, Jamil Joanes, Cesinha e Ricardo Silveira, Eliana Printes consegue se destacar como letrista nas baladas Amar Você e Em Seus Olhos.

Fórmula batida

A banda Ultra é apenas mais um daqueles conjuntos que saem aos montes do Reino Unido. O quarteto formado pêlos boniti-nhos James Hearn, Michael Harwood, Nick Keynes e Jon O’Mahony parece uma cópia de grupos como Boyzone e Louise com originalidade abaixo de zero. O disco homónimo do conjunto traz fotos em excesso dos garotões e música de menos. As 10 faixas do CD soam extremamente pareci­das, com levadas idênticas de ba­teria, melodias batidas e uma per­formance vocal de amargar. O Ultra está mais para um grupo de mode­los fotográficos do que músicos propriamente ditos. O único pon­to positivo da banda é que os in­tegrantes compõem, embora por enquanto, sem nenhuma criativi­dade.

Bate Estaca

Brothers Gonna Work It Out, da dupla de DJs ingleses Tom Rowlands e Ed Simons, é o típico CD com destino certo: abastecer festas em clubes e boates enfuma­çadas. Com mais de l milhão de cópias vendidas em todo o mun­do, Tom e Ed chegam ao segundo CD lançando o próprio selo Freestyle Dust, distribuído pela Virgin. O álbum traz 23 faixas que reúnem vários efeitos sampleados, levadas surpreendentes de bate­ria eletrônica e longos climas psi-codélicos embaladas por violinos. Destaque para On The House.

Revival

Lançado nos Estados Unidos no final de 98, a trilha sonora do filme 54 – baseado na famosa boa­te nova-iorquina Studio 54 – che­ga só agora no Brasil, pois o lon­ga não tem nem data prevista para estrear no país. As 16 faixas do CD são uma verdadeira viagem para a década de 70, impregnada de funk e que praticamente abriu o cami­nho para a dance music atual. Re­cheada de hits, a trilha traz can­ções como The Boss, de Diana Ross, Please Don’t Let Me Be Mi-sunderstood, do grupo Santa Es­meralda, Take Your Time (Do It Right), da S.O.S Band, e Come To Me, de France Jali. Ainda sem grandes efeitos eletrônicos, a tri­lha sonora remete para um tempo em que música para se dançar não era sinónimo de pouca melodia ou mesmice harmónica. Destaque para You Make Me Feel, de Syl-vester, uma aula de balanço e ar­ranjo.

* Publicado pela Cult Press em 16/02/99

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