MS em 16mm

O fotógrafo Tião guarda em sua casa parte da História de MS

Existe um pequeno tesouro escondido na rua Tenente Tinoco, 108, no bairro Taveirópolis, em Campo Grande. Neste endereço mora o fotógrafo Sebastião Nascimento Guimarães, o Tião. Em um armário no fundo de sua casa ele guarda aproximadamente 60 latas de filmes em 16mm com registros relacionados as décadas de 70 e 80 em Campo Grande e Mato Grosso do Sul. A posse de Harry Amorim sendo efetivado como o primeiro governador de Mato Grosso do Sul em solenidade no teatro Glauce Rocha em 1977 é uma das imagens raras do tesouro de Tião. No dia em que o estado completa três décadas de existência, a batalha do fotógrafo para que seu acervo seja comprado pelo Estado ou obtenha um patrocínio de uma empresa para passá-lo a alguma instituição se torna ainda mais dramática.

Estou pedindo R$ 70 mil por este acervo. Este valor é praticamente o que iriam gastar com negativos novos para produzir o volume de imagens que tenho. Mas se formos pensar no valor histórico, aí este material valeria muito mais. Porque é único‘, explica Tião.

Para entender melhor esta história temos que voltar no tempo. Nascido em Carangola, em Minas Gerais, Tião estava trabalhando em Aparecida do Norte, em São Paulo, quando veio a Campo Grande em 1972 e fez algumas fotos da família do então deputado estadual Levi Dias. Em 1973, a convite de Levi, que havia acabado de ser eleito como prefeito campo-grandense, Tião mudou-se para Campo Grande para trabalhar como fotógrafo da prefeitura. Começou então a registrar os acontecimentos da cidade e estado. O problema é que naquela época, um produtora de Goiânia era contratada para fazer os filmes institucionais para serem exibidos na televisão.

O pessoal da prefeitura queria começar a fazer os filmes aqui mesmo e por isso contratei uma pessoa de Goiânia para filmar e comprei equipamento. Montei então a produtora Jurema Filmes e comecei a registrar tudo em 16 mm‘, conta Tião.

O resultado disso é que 30 anos depois ele acabou guardando um acervo que provavelmente nem as televisões instaladas em Campo Grande possuem em seus arquivos. ‘Eu nunca vi, por exemplo, imagens em movimento do primeiro governador Harry Amorim exibidas por nossas emissoras’, provoca Tião.

Este ‘tesouro‘ tem aproximadamente 10 horas de filmagens. São várias relíquias. A primeira campanha de vacinação contra poliomelite feita no Brasil aconteceu aqui em MS. ‘Tenho filmado a aplicação das primeiras doses da vacina com a equipe no Pantanal, andando de carroça e chegando aos lugares de canoa‘ puxa na memória.

No material também imagens do desenvolvimento de Campo Grande, como a aberturas de ruas, como a Av. Bandeirantes, as apresentações do Projeto Pixinguinha na década de 80, o encontro do então governador Pedro Pedrossian com o ex-presidente e ditador paraguaio Alfredo Stroessner na exposição agropecuária de Campo Grande, as festividades do primeiro aniversário de Mato Grosso do Sul em 1978, a cantora Simone no Moreninho, a chegada de Harry Amorim em Campo Grande, a inauguração do busto de Antônio Pereira, a posse de Marcelo Miranda após cair Harry Amorim…

Tião procurou o ex-secretário de Cultura, Silvio de Nucci, para tentar chegar a um consenso e acertar o repasse do material para o Museu da Imagem e do Som (MIS) ainda no governo do Zeca do PT. As negociações não evoluíram. Agora tenta um patrocínio de alguma estatal, como a Petrobrás.

Tião tem medo que o material se perca, embora tenha cuidado no trato dos filmes, que estão em bom estado de conservação, mesmo não sendo mantido em local ideal em termos de temperatura e umidade. Na verdade, o fotógrafo de 67 anos não sabe mais o tamanho de seu ‘tesouro’, pois muitas latas estão sem identificação. ‘Tomo o máximo de cuidado. Mas mesmo assim é difícil manter tudo em ordem‘, pondera.

Tião possui ainda cerca 8 mil slides fotográficos que ele pretende negociar com a prefeitura da Capital. ‘Hoje em dia o que tenho tem um certo valor histórico. Mas daqui há 30 anos este material vai valer mais ainda. É a história de Campo Grande virando Capital e Mato Grosso do Sul nascendo como estado. Isso aqui é, antes de tudo, uma fonte de pesquisa para a juventude e cada dia que passa tem mais valor‘, assegura o fotógrafo.

* Publicado no jornal O Estado de MS em 11/10/2007.

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