Cult Press 05 • Tetê e Alzíra Espíndola em Anahí

Dueto pantaneiro

A memória foi a grande aliada das irmãs Tetê e Alzira Espíndola para lançar o CD Anahí. Desde pequenas as duas ouviam a mãe Alba – falecida há pouco menos de um ano – cantar polcas, guarânias e valsas nos encontros familiares em Campo Grande, capital do Mato Grosso do Sul. Ao lado dos seis irmãos, Tetê e Alzira também ficavam fascinadas com os trios paraguaios que frequentavam as festas na casa dos Espíndola, família tradicionalmente musical. Além de tocarem instrumentos exóticos, como a harpa, os grupos do Paraguai faziam vocais característicos, lembrando as duplas sertanejas do Brasil.

A intenção foi resgatar nossa raiz musical. Desde pequenas escutamos em serenatas várias canções que es­tão no CD e que nunca esquecemos“, conta Tetê, que ganhou destaque nacional em 1985 ao ser eleita a melhor intérprete do Festi­val MPB/Shell da Globo com Es­crito nas Estrelas, de Carlos Rennó e Arnaldo Blach.

O novo álbum foi gravado ao vivo em São Paulo e marca o reen­contro de Tetê e Alzira após 21 anos. Desde 1978, quando elas se lançaram com o LP Tetê e o Lírio Selvagem – Lírio Selvagem era o trio composto por Alzira com os irmãos Geraldo e Celito -, que elas não faziam juntas um disco inteiro. “Há três anos começamos a tocar este repertório de brincadeira nos shows. Como o público reagiu bem, resolvemos gravar“, afirma Alzira.

As 12 faixas do CD são uma seleção de clássicos da música da fronteira do Brasil com o Paraguai, como Pé de Cedro, de Zacarias Mourão, Chalana, de Arlindo Pinto e Mário Zan, e Seriema, de Nhô Pai e Mário Zan. As duas também fizeram questão de cantar em espanhol a clássica Mercedita, de Samos Sixto Rios, e apresentar versões para as populares índia, Galopera e a faixa-título Anahí.

Optamos pelo estilo mais puro. Infelizmente, o sertanejo que está na mídia é brega e não fala do campo como o repertório antigo. A música do interior foi deturpa­da e o público aceitou“, lamenta Tetê.

A dupla sul-mato-grossense também resgatou canções tradici­onais dos folclores paulista e mineiro. Com arranjos baseados em seus próprios instrumentos – Alzira no violão de náilon e Tetê com a peculiar craviola -, as duas atin­gem o momento mais brilhante do CD como intérpretes nas faixas Serra da Boa Esperança e Mágoas de Caboclo. Esta primeira é tocada como uma guarânia e destaca a letra do genial Lamartine Babo, que além de escrever clássicos sertanejos como Rancho Fundo, também ficou conhecido como o autor de hinos de clubes de futebol como Flamengo, Vasco, Fluminense, Botafogo e América.

Com Tetê se destacando na música de Lamartine com um vo­cal de arrepiar, em Mágoas de Caboclo é Alzira que subverte a com­posição de Leonel Azevedo e J. Cascata – famosa na voz de Nelson Gonçalves – e a transforma num blues. “E a única música que mudamos radicalmente o arranjo. Foi uma forma de mostrar nosso lado mais pop“, acredita Alzira. Mas é o potencial vocal da dupla que fica evidente no disco.

Alzira explora mais os tons graves e Tetê prova que nunca esteve em tão boa forma. Como o disco é ao vivo, não existem meios de se maquiar erros e a extensão vocal de Tetê. Atualmente a cantora atinge impressionantes quatro oitavas – o normal são três -, dificilmente alcançadas por cantoras conhecidas como Gal Costa, Zizi Possi e Marisa Monte. “Quero melhorar as notas graves. Mas minha voz e a da Alzira se completam perfeitamente“, garante Tetê, que leva o público ao delírio ao demonstrar técnica para segurar o refrão de Galopera demoradamente.

Tetê e Alzira assinam a produção de Anahí e resolveram lançar o CD pelo selo Dabliú, dirigido pelo empresário Costa Neto e pelo cantor Belchior. Há mais de duas décadas no mercado independente, a dupla já conhece a dificuldade em distribuir discos no Brasil sem uma grande gravadora. Por isso, deixou a distribuição ao cargo da Eldorado.

Mas a divulgação de Anahí vai ganhar reforço no segundo semestre, quando a dupla busca realizar um vídeo baseado nas letras das músicas do CD. “Vamos fazer um documentário sobre o povo do Centro-Oeste e montar um show multimídia“, avisa Alzira.

Rodrigo Teixeira
Cult Press – 23/02/99

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