Cult Press 04 • O reggae de Maxi Priest

Disco

Camaleão britânico

Maxi Priest a melhor tradução do reggae contemporâneo. O ritmo mais popular da Jamaica foi fundamentado na virada da década de 60 pelos geniais Bob Marley e Peter Tosh, mas ganha fôlego e novo rumo na voz do cantor britânico. O álbum The Best of Maxi Priest, recém-lançado pela Virgin, prova que é possível reprocessar os velhos elementos do reggae com a moderna música eletrônica. E o mais importante: sem perder a chama básica do suingue. Maxi Priest reúne nas 14 faixas do disco vários estilos musicais que serviram de base para o reggae emergir. Em seu caldeirão sonoro, o cantor de 37 anos, natural da pequena cidade de Max Elliote, subúrbio de Londres, mistura com muito bom gosto ritmos como ska, rithym’ n’blues, funk e balada. Intérprete dos bons e arranjador inventivo, ainda consegue acrescentar com criatividade a dance music ao reggae e chegar a um estilo inconfundível.

É o que percebe-se logo nos primeiros acordes das faixas Waiting In Vain e Get Up Stand Up, ambas sucessos de Bob Marley. Com a participação do guitarrista Lee Ritenour, que praticamente reproduz o arranjo original, o cantor diminui o andamento da primeira faixa e cria uma versão dançante e com um carimbo pessoal de arrepiar. O outro hit de Bob Marley ganha efeitos de teclados e conta com o vocal rasgado do astro jamaicano.

Shabba Ranks é do talentoso Rayvon. O resultado é eletrizante. Com uma letra bastante política, o trio cria uma miscelânea de estilos vocais, unindo a linha melódica tradicional e o moderno hip hop com dezenas de palavras por minuto.

Shabba também atua na faixa As You Walked Away. Com cordas ao fundo e um piano afiado, a canção é certeira para pistas de dança e traz um refrão que cola no ouvido. Além do grupo inglês Brand New Morning, na ótima faixa I Can See Clearly Now, Maxi Priest solta o vozeirão em Set The Night To Music ao lado de Roberta Flack, um dos pilares da música negra da década de 70. O único inglês a liderar as paradas jamaicanas com o reggae My God My King, em 1984, mostra em Set The Night To Music que também sabe fazer canções de apelo comercial mas mantendo a substância.

Mas é ouvindo a faixa Once Again It’s Summertime que pode-se entender porque o ainda marceneiro Maxi Priest – criado no distrito londrino de Lewisham junto com nove irmãos -, ganhou na adolescência a vaga de vocalista no Saxon após fazer algumas caixas acústicas para a banda de Londres. Numa interpretação primorosa, Maxi remete o ouvinte a traços característicos da tríade básica do reggae formada por Bob Marley, Peter Tosh e Jimmy Cliff. Graves e agudos definitivamente não são problemas para ele. Maxi Priest é britânico, mas tem alma jamaicana.

NOTAS

Memória disco

As pistas de dança nem sempre foram dominadas por ritmos eletrônicos pouco criativos como techno ou drum’ n’ bass. A era antecessora, a disco, marcou a década de 70 pela qualidade e trouxe a público alguns artistas que nunca mais seriam esquecidos. É o caso de Donna Summer, uma das rainhas daquela geração, que até hoje é reverenciada pela voz marcante e músicas inesquecíveis. O CD Greatest Hits resgata do fundo do baú as melhores canções de Donna Summer com um importante mérito: a acertada escolha do repertório. Estão lá músicas que fizeram a galera das meias soquete dançar até a exaustão como Last Dance, Hot Stuff, Bad Girls e I Feel Love. Ou a belíssima On The Radio, que até hoje provoca sorrisos furtivos em antigos apaixonados. Da década de 80, o álbum traz o libelo feminista She Works Hard For The Money, música bastante adequada à época que foi lançada, e, do início dos anos 90, This Time I Know It’s For Real – esta já mostrando uma forte influência das características eletrônicas do estilo dance que imperou nas pistas nos últimos anos. Mas, ainda assim, infinitamente superior à maioria absoluta do que se apresenta até hoje. Imperdível.

Boa desculpa

O sucesso alcançado pela ótima trilha sonora do filme Full Monty – Ou Tudo ou Nada serviu como desculpa para se lançar um segundo disco, batizado, de More Monty. Ainda bem. O CD traz músicas que marcaram os anos 70 e 80, como More More More, de Andrea True Conection, Shame, de Evelyn King, e a atemporal Can’t Take My Eyes Off Of You, do Boys Town Gang. Curiosamente, More Monty é lançado na mesma época que as coletâneas de Gloria Gaynor e Donna Summer, divas da mesma era disco. Três trabalhos que mostram aos jovens que é possível se fazer música eletrônica de qualidade.

Erro mínimo

A dançarina Carla Perez resolveu seguir um novo caminho: além do cinema e da televisão, a ex-dançarina está agora se lançando como cantora. Surpreendentemente, o disco de estréia, Carla Perez Apresenta Lamba-eróbica do Brasil, traz um grande acerto: são apenas duas as faixas que mostram a verve cantora de Carla Perez. As outras trazem grupos consagrados do axé music ou de pagode, como Terra Samba com Carrinho de Mão ou a Banda Eva com Arerê. Para quem gosta do estilo, o disco é até bom, mas as músicas com Carla, Rap das Crianças e Fantasia são absolutamente dispensáveis.

GLS

Gloria Gaynor é a rainha da turma GLS – gays, lésbicas e simpatizantes -, a quem faz requebrar há mais de 20 anos, desde que lançou a libertadora I Will Survive. Ainda na ativa, Gloria esteve recentemente no Brasil e fez shows em boates freqüentadas por grupos GLS. Mas a coleção de sucessos da cantora vai além das tribos. Desde a era disco, quando abalou as pistas de dança com versões para músicas como Never Can Say Goodbye, originalmente cantada pela também ótima Thelma Houston, I’ve Got You Under My Skin, eternizada na voz de Frank Sinatra, e Walk On By, dos prolíficos Burt Bacharah e Hal David. Com ótimo repertório e Gloria Gaynor em grande forma, The Anthology só peca mesmo por ser extenso. São 25 faixas distribuídas em dois discos. À primeira vista, pode parecer ótimo. Mas não chega a ser um mérito ter a canção-título repetida duas vezes, sendo uma delas numa remixagem pouco interessante. Além disso, muitas das outras canções estão unidas em medleys, o que descaracteriza o CD como resgate de obra de um artista para torná-lo pretensamente adequado às pistas de dança. Mas apesar disso, Gloria vai sobreviver.

Rodrigo Teixeira
Cult Press – 23/02/99

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