Cult Press 03 • A Força Que Nunca Seca de Maria Bethânia

Disco

Reciclagem eterna

O tempo parece não fazer efeito sobre Maria Bethânia. Ou seja: no álbum A Força Que Nunca Seca, recém-Iançado pela BMG, ela repete a fórmula de seguir uma linha bem definida. Mesmo que não seja lá uma grande linha. O estilo conceitual e o romântico, já usado nos bons As Canções que Você Fez Para Mim, de 96, e Âmbar, de 97, continua no novo CD. Mas desta vez a cantora baiana cai no lugar-comum ao tentar imprimir um tom interiorano as 14 faixas de A Força Que Nunca Seca. Maria Bethânia mostra um repertório irregular, cheio de obviedades e, o pior, com regravações que perdem de longe para as versões originais.

Trenzinho Caipira, composta em 1930 por Heitor Villa-Lobos, com letra de Ferreira Gullar, e Luar do Sertão, de Catulo da Paixão Cearense, não causam impacto. Com a primeira mesclada a versos de Ascenso Ferreira – que diz “vou danado pra Catende” – e a segunda acoplada ao poema Azulão, de Manuel Bandeira, Bethânia mais uma vez prova que sabe declamar como ninguém. Embora não deixe de copiar vários artistas – como Ney Matogrosso no CD O Cair da Tarde -, com o recurso onomatopéico. Usar o texto de Ascenso para imitar o som do trem já é mais do que batido e desnecessário, pois não acrescenta nada à canção.

Em mais quatro canções Maria Bethânia não mostra força criativa. É o caso de Espere por Mim Morena, do falecido Gonzaguinha, e Gema, de Caetano Veloso. Na música do irmão – que foi escrita por Caetano depois que Bethânia relatou a ele uma visão de uma bola de luz em cima da mata -, a cantora deixa clara a opção em seguir a tendência sono­ra explorada por Caetano desde Livro, de 1997, em que ele une o estilo de percussão baiana com elementos da música pop.

Já em As Flores do Jardim da Nossa Casa, de Roberto e Erasmo Carlos, Bethânia deixa escapar toda o clima soul que envolvia a composição da dupla para tornar a faixa um pastiche romântico. Em uma das únicas incursões pelo repertório já grava­do por Elis Regina, Bethânia ten­ta emprestar um ar litúrgico à clássica Romaria, de Renato Teixeira. Nem os vocais de dois monges verdadeiros chegam a ofuscar a versão de Elis.

Mas nem tudo é desacerto no CD. Incrivelmente, É o Amor, do brega Zezé Di Camargo, ganha força na voz da cantora e até se transforma numa canção interessante. Apesar de ser prejudicada – como todo o disco -, por um ar­ranjo de cordas sem criatividade do americano Graham Preskett. Na verdade, o melhor do CD são as inéditas. Não Tenha Medo, de Miltinho Edilberto, Eu Queria que Você Viesse, de Marisa Monte e Carlinhos Brown, e a faixa-título A Força que Nunca Seca, de Chico César e Vanessa da Mata, são um verdadeiro oásis no deserto sonoro do novo disco de Bethânia.

Notas

Mestres do tambor

Festejando mais de duas décadas de existência, o Ilê Ailê lança pela Natasha Records o novo álbum 25 anos. Ao contrário da maioria dos blocos baianos que se aproximam cada vez mais da música pop, o Ilê Ailê mantém-se fiel à tradição da cultura africana, tanto que até hoje não permite que brancos desfilem com o bloco no Carnaval. Com produção de Arto Lindsay e participações de Daúde e Milton Nascimento, o disco do Ilê Ailê traz 14 faixas embaladas apenas por vozes e percussão. Esta, por sinal, conduzida com maestria por Marinalvo Paim e Band’Aiyê. A percussão do bloco é uma verdadeira escola de samba, com direito a paradinhas geniais extremamente difíceis de se realizar. As vozes dos cantores Guiguio, Graça, Reizinho, Cristiano, Altair e Adelson também são uma prova da originalidade do bloco. Responsável pela fagulha que abriu o caminho para a hoje institucionalizada axé-music, o bloco Ilê Ailê é, sem dúvida, imensamente superior ao banal som produzido pêlos inúmeros grupos que invadiram a mídia brasileira nos últimos anos. Destaque para O Mais Belo dos Belos, uma verdadeira aula de melodia e ritmo.

Som batido

Ao escutar as 12 faixas do disco Honey to the B é difícil engolir que o álbum da inglesinha Billie “é um dos mais completos discos pop de 99”, como insiste em classificar a gravadora Virgin. Tudo bem que a menina tem um rostinho bonito e uma voz afina­da. Mas os atributos – os bons, pelo menos – param por aí. O disco é parecido com inúmeros lançamentos de bandas pop que deságuam no mercado inglês e americano e, definitivamente, não traz nenhuma novidade a cena pop atual.

Dose dupla

Gian e Giovani lançam disco duplo, com inúmeras 19 faixas, gravadas ao vivo para 60 mil pessoas em Franca, cidade paulista onde a dupla iniciou na profissão. Balizado com o nome da dupla – o verdadeiro é Aparecido e Marcelo -, o CD traz sucessos dos cantores como Nem Dormindo Consigo Te Esquecer e Me Dá um Beijo. Afinadinhos, os dois conseguem um disco bem-produzido, com um som de boa qualidade e uma banda bem ensaiada. Mas nem isso consegue salvar a dupla de parecer clones de Zezé di Camargo e Luciano. A versão para Codinome Beija-flor, de Cazuza, é correta, mas sem o menor carisma. O CD pode agradar os fãs, mas dificilmente vai conquistar novos admiradores.

Volta triunfal

Só a possibilidade de ouvir a voz da louríssima Debbie Harry em ação novamente já vale o novo disco do Blondie. No Exit, lançado pela BMG, é o sétimo álbum do grupo fundado, em 1974, nos Estados Unidos. Uma das primeiras bandas que fez a mistura do rock com o ska, já rotulada de new wave na década de 80, o Blondie apresenta 13 faixas inéditas e uma regravação. Após 16 anos sem nenhum lançamento, a banda prova que continua a mesma e não se deixou influenciar por ritmos que ganharam força nos anos 90, como o hip hop e a dance music. Com os quatro integrantes da formação original – Debbie Harry, Chris Stein, Jimmy Destri e Ciem Burke -, o Blondie investe em levadas pesadas de bateria, teclados com timbres siderais e melodias contagiantes. Criador de sucessos como Call Me, da trilha de Gigolô Americano, e Sunday GirI, o grupo também deixa transparecer a importância da vocalista na liderança. Debbie, ex-coelhinha da Playboy e ex-garçonete do Max’s Kansas City, está com uma interpretação mais sensual, provocante e ainda inconfundível. Destaque para a ramoneana Nothing is Real But the GirI e a balada Night Wind Sent.

Rodrigo Teixeira
Cult Press – 02/03/99

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