Cult Press 02 • O bamba Walter Alfaiate

Um bamba sob medida

De chapéu de palha branca na cabeça, em frente à máquina Singer negra, Walter Alfaiate bate com grande categoria no tamborim. Também conhecedor dos segredos do corte e costura, o cantor de voz gravíssima e compositor já gravado por Paulinho da Viola, Elza Soares e João Nogueira jamais perde a elegância e o humor genuinamente carioca. No pequeno quarto e sala que mora em Copacabana, no Rio, em meio a carretéis, linhas e quadros do escrete do Botafogo de Nílton Santos e Garrincha, Walter faz questão de aumentar o volume do aparelho de som para escutar Olha Aí, primeiro CD em mais de cinco décadas de carreira.

Adoro todas as faixas, pois gravei o que gostava de cantar. Além disso, o time de músicos é uma seleção e em um mês o CD estava pronto“, orgulha-se o bamba de 68 anos.

Com a ajuda de feras como o pianista Cristóvão Bastos, Alceu Maia no cavaquinho, o baixista Jamil Joanes, e o baterista Wilson das Neves, Walter prova nas 14 faixas do CD que é seguidor legítimo da escola dos maliciosos Cyro Monteiro e Roberto Silva. O álbum lançado pela Alma Produções, que tem Aldir Blanc como um dos diretores, serve para comprovar que Walter tem a voz do porte de sambistas como Jamelão e Zé Kéti.

Ou mesmo evocar cantores díspares como Nelson Gonçalves, Vicente Celestino e Jackson do Pandeiro. “Meu tipo de samba é o sincopado, mas canto de tudo: de seresta a valsa“, gaba-se sobre a bancada que o apoia há 25 anos em sua alfaiataria. Separado há seis anos da terceira mulher, ele também usa o local de trabalho como moradia para não ter de pagar aluguel extra. “Talvez com o CD, consiga fazer um pé-de-meia“, torce o sambista, que é pai de três filhos oficiais “fora as denúncias“, como gosta de dizer.

Entre as músicas que escolheu para o álbum, Olha Aí, que batiza e abre o CD, já tinha lugar garantido. É que há 30 anos, Walter fez a promessa aos amigos e compositores Mical e Miúdo – este falecido no ano passado -, que iria gravá-la em seu primeiro disco. “O Mical veio pegar o CD uns dias atrás e chorou bastante“, conta emocionado o Magnata Supremo da Elegância Moderna, modo que se autodefine em seu cartão de visitas.

Em algumas interpretações, Walter aproveita as letras para revelar o período da vida pelo qual passa. “Adoro Menina da Liberdade pela idade que tenho“, destaca. O refrão da canção de Sereno e Nei Lopes justifica a preferência: “tu me enches de vontade e depois muda de conversa. Tenha dó, por caridade, que eu já tenho idade à beça“.

Além da clássica Sacode Carola, gravada por Cyro Monteiro, Wilson não desperdiçou a oportunidade de gravar a primeira parceria entre Paulinho da Viola e Aldir Blanc. Botafogo, Chão de Estrelas é resultado de várias horas de conversa de Walter com Aldir Blanc, que transformou o bate-papo em letra e recebeu uma melodia estilo samba-enredo de Paulinho.

A composição descreve o bairro carioca de Botafogo de décadas passadas e cita os compositores do local, como Mauro Duarte, Zorba Devagar – parceiros de Walter -, e Jair Cubano. “Era um celeiro de sambistas internacionais. Tristeza, de Niltinho Tristeza, nasceu em Botafogo“, lembra o fundador de blocos como Foliões de Botafogo, Gaviões, Sem Rival e a hoje escola de samba São Clemente.

Walter Nunes de Abreu, batizado nos anos 70 como Walter Alfaiate por Sérgio Cabral e Paulinho da Viola, tira o chapéu para a produção e a direção musical de Rildo Hora para o seu CD. E com o lançamento do álbum previsto para o próximo dia 15, no Teatro Clara Nunes, no Rio, Walter começa a vislumbrar a possibilidade de abandonar o ofício que aprendeu aos 14 anos e se dedicar à carreira de cantor. Para o sambista, a profissão de alfaiate está em extinção, já que ele procura um ajudante há meses e não encontra.

Hoje as pessoas vão a casamento de jeans“, conclui Walter, que cobra em média R$ 350 para fazer um terno. O que ele tem certeza que nunca vai acabar é o samba. “O samba agoniza mas não morre“, cita a frase do amigo Nelson Sargento, que participa do CD. Já começando a acreditar nos bambas que sempre disseram que ele tinha futuro na música, Walter se prepara agora para superar o medo de avião, caso tenha de realizar shows em cidades distantes do Rio. “Dizem que vou adorar. Tomara“, torce o sambista.

Por Rodrigo Teixeira
Cult Press02/03/99

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