Cult Press 01 • Hieróglifos baianos de Gil

Ensaio Geral traz nada menos do que 142 faixas que revelam os dez primeiros anos – 66 a 77 – da carreira de Gilberto Gil. O conteúdo substancial do material lançado pela Universal é o mergulho mais profundo que uma gravadora já realizou em torno de um artista brasileiro. São 11 CDs, na qual encontram-se os seis álbuns oficiais renovados com faixas extras, quatro discos inéditos – dois solos – e ainda um CD single bônus. Ensaio Geral vai ter 10 mil cópias a um preço de R$ 290. “A caixa é um sítio arqueológico bem delimitado“, define o baiano de 56 anos.

O material preparado pelo jornalista Marcelo Fróes levou quatro anos para ser finalizado e é um misto de registros de shows, res­tos de gravações para discos ofi­ciais e trabalhos que o cantor baiano fez no período do exílio lon­drino. Entre as raridades estão a versão original de Sarará Miolo, com Nara Leão, e a inédita Brand New Dream, que faria parte do álbum inglês que Gil abandonou ao voltar do exílio em 72. “A caixa representa a minha história, os rumos que quis tomar e o que rejeitei“, acredita o ganhador do Grammy com Quanta Gente Veio Ver, eleito o melhor CD de word music de 98.

Ainda tratando de um pólipo, conhecido como calo, nas cordas vocais, Gil vibra com a possibilidade de reavaliar as etapas de seu desenvolvimento como músico. No inédito Satisfação, por exemplo, Gil reconhece que nunca es­teve tão perto de se tornar um ro­queiro, influenciado pelas sessões que ele participava em Londres. “Toquei com David Guilmor, do Pink Floyd, entre outros. Eu fi­cava pelas ruas viajando de LSD“, confessa o cantor.

Rodrigo – Ao ouvir o material da caixa, você tem vontade de voltar no tem­po e mudar algo?
Gil – Não, porque Ensaio Geral me dá a idéia do artista em formação. E uma sensação que não vou me aperfeiçoar nunca e nem superar alguns limites. Encaro esta caixa como lâminas de microscópio. E aí vêm as questões do envelheci­mento e da espontaneidade. Especialmente com os objetos recusados por não terem obtidos, já na­quela época, padrões mínimos de qualidade. E esta “desqualidade” é muito reveladora por mostrar o que se podia obter na época. A caixa representa a minha história, os rumos que quis tomar, o que re­jeitei. O tipo de visão que eu tinha sobre o significado de lançar um disco. A caixa é um sítio arqueológico.

A caixa recupera o CD inédito Cidade do Salvador. Por que você não concluiu este projeto?
Porque o substituí pelo Ao Vivo, gravado no mesmo ano de 74. A faixa Essa é Pra Tocar no Rádio, que estava no Cidade do Salvador, foi a única remanescente que gravei no Refazenda, já na WEA. Não lembro mais porque lar­guei. Talvez porque o Cidade do Salvador estivesse muito experimental. Os músicos do disco, o Rubão Sabino e o Aloysio Milanez, adoravam o estilo livre de tocar.

No exílio, na virada dos anos 60, você chegou a pensar em enveredar pelo rock, como já mostrava o CD Satisfação revelado agora pela caixa?
Acho que sim, mas virei um in­terlocutor entre o rock e a MPB. Toquei em sessões com o David Guilmor, do Pink Floyd, com o Mud Blues e o Jim Capaldi, bate­rista do Traffic. Era uma turma que freqüentava bares importantes, se­minais do rock, que eram a King Club, a Revolution, a Speak Easy e a Rolling Scotts. Tinham outras, como a ICU, onde vi na véspera de Natal de 71, o show da Yoko e do John Lennon com a Plastic Ono Band. Se ficasse mais, é possível que esta turma me arrastasse para o rock, porque não era capacitado musicalmente a me tornar um jazzista.

Fica nítido em algumas faixas, como em A Última Valsa, que você teve experiências com drogas. No exílio, você entrou mais fundo nesta questão?
Sem dúvida. Em Londres, eu ficava pelos lugares, perdido nas viagens de LSD. Mas a minha pri­meira experiência com ácido foi aqui no Brasil, antes de ir para Lon­dres, com o falecido bailarino Leny Dale. A droga era apenas um in­grediente daquela cultura. Quem queria passar por dentro dos tú­neis de seu tempo, tinha de sair do estado comum de consciência para os estados transformados. Já a macrobiótica fazia a negação das drogas. E eu tomava ácido e fazia macrobiótica. Comecei a largar as drogas quando elas faziam muito mais ruído no meu corpo do que silêncio na minha mente.

Sobrou algum material inédi­to do material pesquisado?
Uma música que não descobri­mos o autor: Rato Miúdo. Foi gra­vada com a banda do Caetano para a trilha da novela infantil do Sítio do Pica Pau, em 76.

Entre os 11 discos da caixa tem algum que seja mais revelador para você?
Louvação. Porque ele é muito simbólico. No dia que teve o incên­dio na tevê Record, no ano de 66, a rádio da emissora estava trans­mitindo Louvação. Os dois estúdios ficavam no mesmo lugar. Nos dias seguintes, a música virou sím­bolo da resistência da Record. No programa Fino da Bossa, apresen­tado por Elis Regina, todos queriam saber quem era o compositor. Louvação foi a música que me tornou conhecido.

Você gosta mais dos CDs ao vivo. A premiação do Grammy re­forçou esta preferência?
E lógico. O Grammy para o Quanta Gente Veio Ver premia o disco feito de verdade, com os músicos quebrando tudo. Fiquei sabendo que o troféu vai chegar para mim só daqui a um mês. O que aparece na festa é um protótipo. Só depois vai para a fábrica. Mas não tenho pressa nenhuma. Um menino de rua perguntou onde que iria ficar o caneco. O troféu vai ficar lá em casa ou em outro lugar. Os meus cinco discos de ouro e o único de platina, por exemplo, estão no banheiro do meu escritório.

Rodrigo Teixeira
Cult Press – 09/03/99

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