DO FUNDO DO BAÚ • Bezerra da Silva: ‘No Rio só tem malandro para dar rasteira’

foto de Luiza Dantas

Bezerra pergunta: ‘Esta camisa não é de mané?’

SÉRIE DO FUNDO DO BAÚ • Nº 05 • Bezerra da Silva

Já foram transcritas nesta sessão, as entrevistas com Nélson Gonçalves, Carlos Lyra, Paulo Coelho e Renato Teixeira. Tiro do Fundo do Baú agora a matéria que fiz com Bezerra da Silva. Era agosto de 1997 e foi a primeira de muitas que tive a sorte de realizar para a Cult Press, caderno cultural da agência carioca Carta Z Notícias que trabalhei por sete anos. Esta vai com texto de abertura e tudo mais.

Na época da entrevista, Bezerra ainda não havia caído nas graças da MTV e estava começando a experimentar o gostinho de ser tocado pelas gerações mais novas. Conversar com Bezerra foi uma experiência. Eu morava na Santa Clara, rua paralela a do escritório dele, na Figueiredo de Magalhães, próximo ao Bairro Peixoto, no coração de Copacabana.

Embaixador do Samba

No seu escritório na Zona Sul do Rio, com as paredes repletas de quadros com capas de seus LPs, Bezerra da Silva não reclama de posar para várias fotos. Afinal é para divulgar o 23º disco de sua carreira: Bezerra da Silva Provando e Comprovando Sua Versatilidade. O cantor está de gravadora nova – deixou a RGE e assinou com a Rhythm’n Blues – e desfez a parceria de 19 anos com o arranjador e maestro Zé Menezes. O que não muda é o jeito irreverente e polêmico: ‘Lanço este disco mas já tenho as músicas para fazer o de 98‘, avisa, apontando para o armário recheado de fitas cassetes de novos compositores.

Desconfiado, aos poucos Bezerra se sente à vontade para criticar o que ele chama de ‘elite selvagem‘. Não economiza nas gírias nem palavrões para definir os donos das gravadoras e o esquema de direito autoral no Brasil. Os modismos musicais e rótulos criados pela imprensa também são alvo do humor ácido do sambista. ‘Quem fala rock brasileiro só pode ser um analfabeto musical‘, debocha Bezerra com sua voz anasalada.

Enquanto mostra com orgulho o diploma da Ordem dos Músicos emitido em 30 de setembro de 1962, no qual é classificado como cantor e compositor popular, Bezerra reclama do título de embaixador da favela que recebe da imprensa. ‘No morro tem vítimas de uma sociedade famigerada‘, sentencia o ex-morador do Morro do Cantagalo, no Rio.

Apresentador do programa QG do Samba, que vai ao ar aos domingos na rádio 94 FM do Rio, Bezerra conversa com fluência sobre qualquer assunto. Só se nega a falar sobre Os Três Malandros, projeto que realizou ano passado junto com Dicró e Moreira da Silva. ‘Foi um erro, mas sem comentários porque posso ferir alguém‘, escapa.

Contrariado com a insistência da mulher, Regina do Bezerra – eleita por ele ‘a primeira dama do samba‘ – para que trocasse de camisa para a sessão de fotos, Bezerra não vacila. ‘Mas esta camisa não é de otário?‘, questiona com uma camisa estampada de gosto duvidoso na mão.

Batuque Malandro • Além de provar que está com a voz afiadíssima nas 14 faixas de Bezerra da Silva Provando e Comprovando Sua Versatilidade, Bezerra da Silva aproveita para comprovar seu passado musical nordestino. Na embolada Só Via a Faca Voar, o sambista toca com competência zabumba, triângulo, reco-reco e agogô, com Sivuca no acordeão. ‘É o estilo que mais sei fazer‘, confessa o cantor. Mas é Tantos Anos, samba-enredo oferecido à sua mulher, que Bezerra alcança o ponto alto do CD, com o trombonista Roberto Marques marcando presença na faixa.

Apesar de continuar retratando a realidade dos morros, é justamente quando se aventura por outros temas – polítca, candomblé, paixão… – que Bezerra surpreende. E o passado de ritmista de Bezerra da Silva também aparece com clareza. Com os instrumentos de cordas em segundo plano, a percussão é o forte do CD. Mas é na hora de cantar que Bezerra prova a sua originalidade. Passeia com facilidade tanto por melodias refinadas, com em Era da Nova Tecnologia, e pelas que necessitam de maior técnica vocal, caso de A Carta, onde musicou a carta testamento de Getúlio Vargas. ‘Foi um grande presidente‘, empolga-se.

Sucesso Marcado • Aos 15 anos, Bezerra da Silva desembarcou só com a roupa do corpo no Rio de Janeiro. Fugindo da miséria que o cercava em Recife, o cantor chegou a trabalhar na construção civil como peão de obra. Quando melhorou um pouco de vida foi morar no Morro do Cantagalo. ‘Cheguei sozinho no morro, fugindo da fome do Nordeste‘, lembra-se Bezerra, que cansou de ser revistado pela polícia. O destino mudou quando conheceu Alcides Fernandes, o Doca, compositor da música General da Banda. Doca gostou de ouvir Bezerra tocando tamborim no bloco Unidos do Cantagalo e o levou para trabalhar na Rádio Clube do Brasil, em 1950. ‘Fiquei 35 anos na rádio‘, orgulha-se.

Durante este período passou pelas orquestras da Copacabana Discos, em São Paulo, em 1967 e 1968, e depois pela da Rede Globo, onde tocava violão, entre 1977 e 1985. Começou a carreira de cantor pela Copacabana, em 1969, gravando samba de partido alto. Depois, Bezerra de auto-intitulou o Rei do Coco e lançou dois discos pela Tapecar. Mas o sucesso só chegou em 1979, com o samba Pega Eu Que Eu Sou Ladrão, na gravadora CID. Impulsionado por esta música, Bezerra foi contratado pela BMG Ariola, onde acumulou discos de ouro, platina e platina dupla em 1985 com Alô Malandragem, Maloca o Flagrante. Antes de chegar na Rhythm’n Blues, lançou ainda dois Cds pela RGE. ‘Ganhei dez discos de ouro, um de platina e outro de platina dupla‘, gaba-se Bezerra sempre que tem chance.

Entrevista Bezerra da Silva
por Rodrigo Teixeira

RODRIGO TEIXEIRA – ALÉM DA GRAVADORA E DO ARRANJADOR NOVO, QUAIS AS OUTRAS NOVIDADES DO CD BEZERRA DA SILVA PROVANDO E COMPROVANDO SUA VERSATILIDADE?
Bezerra da Silva – Basicamente para mim é sempre a mesma coisa. Isto porque continuo Bezerra da Silva que grava compositores que moram na periferia, na Baixada Fluminense ou no morro.
RT – VOCÊ CHEGA A TER CONTATO COM ESTES COMPOSITORES?
BS – É claro, pois tem dia até que tenho de comprar uma sardinha, um pedaço de pão para o cara comer ou pagar uma passagem… São compositores de verdade, sem caô.
RT – COMO VOCÊ ESCOLHEU O REPERTÓRIO DO CD?
BS – Os autores vêm aqui e entregam uma fita. O que servir, eu gravo. O resto, eu devolvo. Não existe compositores exclusivos. Eu não escolho nome, nem nada. O que vale é a música.
RT – POR QUE VOCÊ RESOLVEU GRAVAR UM FORRÓ?
BS – É o problema do rótulo no Brasil. Eu não sou carioca, sou de Pernambuco. Na realidade, estou gravando a música do meu estado, que não é nem forró, é embolada. Este negócio de forró é até pejorativo. A música Só Via a Faca Voar é na realidade uma embolada.
RT – COMO SURGIU A IDÉIA DE CONVIDAR O SIVUCA PARA GRAVAR A MÚSICA?
BS – A participação do Sivuca foi a pedido do dono da gravadora. O Sivuca é humilde e nós o admiramos. É um gênio. Mas este negócio de forró não existe. Estudei teoria e sou músico. Nas consta dentro da teoria musical o forró como gênero musical. O que existe é embolada. É como fazem com o pagode. Pagode é reunião, não tem nada a ver com dó e ré. Tudo é uma questão de andamento, rápido ou lento.
RT – POR QUE VOCÊ TROCOU DE GRAVADORA?
BS – Porque eu vou ter um tratamento mais sério na gravadora Rhythm’n Blues. A verdade é que, durante os 14 anos na BMG Ariola, eu não lancei CD em lugar nenhum. Era tudo uma bagunça. Agora a coisa vai mudar porque vamos lançar no Brasil todo. É uma questão da gravadora e do artista quererem trabalhar. Só está difícil tocar no Rio…
RT – POR QUÊ?
BS – Apesar de ter sido consagrado no Rio como sambista, não toco mais nesta cidade. No Rio só tem malandro para dar rasteira e não tem ninguém para cair. Não sou otário e mané é mané.
RT – COMO VOCÊ ENCARA ESTES MODISMOS MUSICAIS? ATRAPALHA ALGUMA COISA ESTA CONCORRÊNCIA?
BS – Não afeta nada. O samba é uma coisa e o sambista outra. O samba ninguém atropela. Ninguém atrapalha ninguém se realmente você é de verdade. Faço sucesso há 20 anos e vou fazer enquanto estiver vivo. Sou Bezerra provando e comprovando minha versatilidade…
RT – FOI PARA PROVAR SUA VERSATILIDADE QUE VOCÊ RESOLVEU ESTUDAR OUTROS INSTRUMENTOS?
BS – Senti a necessidade, já que eu era analfabeto musical. Já tocava vários instrumentos, mas fui para a escola estudar violão e agora trompete. Mas tudo isto eu sempre guardei na retaguarda. Tem muita gente que não sabe disto. Nunca estudei para dizer que nera mais que os outros. O meu negócio é que sempre estudei com medo da fome. Ás vezes, não aceito determinadas coisas. Então, estudo justamente para se acontecer algum desentendimento com os músicos, eu digo até logo e tudo bem.
RT – FOI ISTO QUE ACONTECEU COM O MAESTRO ZÉ MENEZES? POR QUÊ VOCÊ MUDOU DE ARRANJADOR?
BS – É uma questão de gosto. Pode ser qualquer um, é tudo samba. Aqui comigo não muda nada, porque todos os arranjadores são competentes. O Zé Menezes é bom e o Ivan Paulo idem.
RT – POR FALAR NISTO, VOCÊ GOSTOU DOS ARRANJOS DO BARÃO VERMELHO E DO PLANET HEMP PARA MALANDRAGEM DÁ UM TEMPO?
BS – É tudo música. Acharam bonito e mudaram a divisão. O compositor se deu bem. É a mesma coisa de eu pegar um rock deste aí e gravar. Não tem problema.
RT – AS SUAS MÚSICAS QUASE SEMPRE FALAM DE DROGAS E VIOLÊNCIA. VOCÊ JÁ TEVE PROBLEMAS COM A JUSTIÇA POR INCENTIVO AO USO DE DROGAS?
BS – Só quando implicaram com o nome do disco Cocada Boa. Mas tudo acabou bem. Se for levar para o terreno proibido, tem muita coisa no Brasil que é mais importante. A política, por exemplo. Tem este negócio de maconha, mas precisam procurar saber de onde é que vem, que é que traz. Para mim, isto é uma palhaçada. Querem aparecer em cima do artista.
RT – NA MÚSICA COBRA MANDADA, VOCÊ FALA QUE CONDENAM SEU SAMBA E QUE COLOCARAM UMA SERPENTE NO SEU CALCANHAR. VOCÊ SE SENTE INJUSTIÇADO PELA IMPRENSA?
BS – Eu sou muito criticado. Mas respondo aos inimigos com o sucesso. A imprensa não se cansa de falar que sou cantor de bandido, embaixador da favela, amigo do Escadinha… Pintaram o diabo comigo só porque eu canto uma realidade. Se eu sou embaixador da favela, então eu sou embaixador do que não presta. Não é istooo? (climãooo!) Tenho de rir, porque na minha folha penal é ‘nada consta’ e eles é que são direitinho…
RT – VOCÊ PARECE RENEGAR O TÍTULO DE MALANDRO. QUAL O SIGNIFICADO DESTA PALAVRA PARA VOCÊ?
BS – Malandragem é sinônimo de inteligência no dito popular. É um negócio até pejorativo, porque os supra-sumos da inteligência não podem ser pobres. Falam que o Bezerra é malandro. Muito inteligente é seu fulano. Mas a palavra malandragem não tem nada a ver com marginalização. Deturparam esta palavra.
RT – ENTÃO O QUE É SER MALANDRO NA ATUALIDADE?
BS – Malandro hoje em dia é o cara que é cheio de privilégio. Para ele, não existe punição e é tudo grupo. Se você analisar bem, onde é que está este malandro? Está morando aonde? É mais uma demagogia. Falam que sou malandro do morro. Pô, se tiver algum malandro morando no morro é porque é burro. No morro tem é vítimas de uma sociedade famigerada e é justamente isso que eu canto. Falam que eu sou cantor de bandido, mas não adianta porque eu vendo disco no Brasil de Norte a Sul. Então vão ter de me engolir e vão ter de engolir mais este CD.
RT – COMO VOCÊ CONSEGUE VENDER DISCO SEM TOCAR MUITO NAS RÁDIOS?
BS – O problema das FMs não tocarem é conversa. Se botar dinheiro, tocam qualquer coisa. A realidade é essa. É dinheiro. Tem FM onde até é proibido tocar samba. Tudo bem, não tem problema nenhum. Eu faço sucesso há 20 anos sem dinheiro. As gravadoras nunca compraram um programa. O próprio Manolo, que era presidente da RCA, me disse: ‘Bezerra, você é um fenômeno porque vende sem tocar’. No meu primeiro samba de sucesso, Pega Eu Que Eu Sou Ladrão, em 1979, vendi mais de 400 mil cópias sem tocar na rádio, com tudo controlado pelas multinacionais. Como vou explicar isto?
RT – EXISTEM NÚCLEOS NA MÚSICA SERTANEJA, BAIANA…. VOCÊ NÃO É ENTURMADO COM NINGUÉM?
BS – Não faço parte deste imenso batalhão. Fico de camarote observando. Não faço parte de grupo nenhum. Não tenho concorrente, talvez seja minha felicidade.
RT – VOCÊ NÃO TEM CONCORRENTE?
BS – O que eu canto é somente eu e acabou. Não cantam porque não querem, não é por falta de capacidade. E o Bezerra parece com ele mesmo. Mesmo que já tenha sido roubado no direito autoral e sobre a vendagem de discos.
RT – QUEM ROUBOU?
BS – No Brasil a área de direito autoral é balela, conversa fiada, é grupo. Já falei várias vezes, já disse no meu programa. Ficam calados porque são todos ladrões mesmo. Mas não tem como provar… Como vou provar que vendi mais de dois milhões do disco Alô Malandragem, Maloca o Flagrante, em 1985, e me deram só o correspondente a 500 mil?
RT – VOCÊ TEM FAMA DE TER UM GÊNIO EXPLOSIVO.
BS – Sou meio esquisito. Já mandei a RCA às favas. Mandei uma fita de vídeo para o presidente da gravadora chamando ele de safado, pilantra… Não me interessa porque é ladrão. A poderosa BMG eu mandei à merda. A PolyGram também mandei às favas. Pedi para eles me respeitarem.
RT – COMO ASSIM?
BS – Me imploraram para fazer o CD A Casa do Samba. Queriam que eu gravasse uma música do Billy Blanco. Fiquei só esperando para dar o xeque-mate. Estou muito velho para aceitar isso.
RT – QUAL A SUA IDADE?
BS – 70 anos. Uns dizem que é muito, outros que é menos. Se entrar nesta história, porque eu sei que não é isto, vão dizer que eu estou apelando.
RT – VOCÊ NÃO SABE A SUA IDADE?
BS – Existe uma dúvida, mas o ano de 1927, que está na minha certidão, é o que vale.

Bezerra morreu na manhã de uma segunda do dia 17 de janeiro de 2005, aos 77 anos, após sofrer uma parada cardíaca. Adeus ‘elite selvagem‘.

2 pensamentos sobre “DO FUNDO DO BAÚ • Bezerra da Silva: ‘No Rio só tem malandro para dar rasteira’

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