DO FUNDO DO BAÚ • Renato Teixeira: ‘Existe a música continental sul-americana’

A foto mostra Renato Teixeira e sua banda em ação no Festival América do Sul 2005, sete anos após esta entrevista! Tocando violão ao lado, seu filho Chico Teixeira. Para mim, a obra de Renato precisa ser reconhecida pela dita elite cultural brasileira, porque o povão já a celebra!

A sessão DO FUNDO DO BAÚ voltou…

Nós não somos irmãos. Talvez parentes distantes. Mas, sem dúvida, guardamos algumas semelhanças. Crescemos no interior e, mesmo em locais diferentes, acabamos de alguma maneira ligados ao Mato Grosso (do Sul).

Encontrei Renato Teixeira no Hotel Glória, no Rio de Janeiro, um lugar realmente garboso. Com seus cabelos enormes despenteados e os olhos vermelhos e de japonês, o compositor de Romaria, Frete, Amora, Sentimental Eu Fico, Cavalo Bravo… é sem dúvida um autor que praticamente fundou o que se poderia chamar de Música Popular Caipira.

Pela primeira vez Renato estava realizando um show grande no Rio de Janeiro. A apresentação foi registrada num CD para comemorar os 30 anos de carreira. Já havia cruzado com Renato na época que morava em São Paulo e ele próprio se “assustou” ao me ver. Isso foi em 1998 e eu estava afundado até o pescoço com jornalismo.

Para os músicos de MS, Renato Teixeira é uma espécie de padrinho. Sua obra é muito admirada e influenciou muita gente. O Renato é meio que o ‘Caetano’ da música caipira. Vamos ao falatório!

Entrevista Renato Teixeira
por Rodrigo Teixeira

RODRIGO TEIXEIRA  – POR QUE VOCÊ DECIDIU COMEMORAR OS 30 ANOS DE CARREIRA COM UM DISCO AO VIVO, GRAVADO NO CANECÃO?
Renato Teixeira – Pela primeira vez estou vindo ao Rio. Já fiz show aqui, mas nada profissional. Agora é no Canecão, a casa de shows de maior prestígio da história do Brasil. Mas foi uma idéia que tive com o pessoal da Kuarupe, que fez o “Ao Vivo em Tatuí”, com Pena Branca e Xavantinho. E pintou a idéia. Surgiu das circunstâncias.

POR QUE É TÃO DIFÍCIL O ARTISTA CAIPIRA TOCAR NO RIO DE JANEIRO?
O que acontece é que tem um padrão de produto que encaixa na filosofia da mídia carioca. Até repercute bem mais do que em São Paulo. O que a gente tem de fazer é facilitar as coisas porque as pessoas, assistindo, gostam. Mesmo porque este show, por exemplo, está mastigado. Toco ele há um ano e meio. E a reação é sempre muito boa. Aqui não foi diferente. O Rio é um mercado interessante para se fazer ainda. Se a gente fizer uma pressão vai abrir para todo mundo. E é uma cidade que tradicionalmente gosta de coisas vinculadas à cultura brasileira. A história desta cidade é isto.

A MÚSICA MAIS VINCULADA À FRONTEIRA DO PARAGUAI, LIGADA A GUARÂNIA E POLCA, TEM UM ESPAÇO A PERCORRER EM TERMOS DE MÍDIA NOS GRANDES CENTROS…
Mesmo quando toco “O Rio de Piracicaba”, toco porque descobri que no pagode de Tião Carreiro tem uma coisa africana forte que se aproxima muito do samba e da parte rítmica e da pulsação da música latino-americana. Isto é uma coisa nova. Existe uma música continental, se você for pensar. Acho que vai mais por aí. E vai haver uma grande fusão musical na América Latina toda. O tango é muito forte, a influência da guarânea na música brasileira, da música paraguaia na formação destas duplas, até da música mexicana… Isto é uma tendência. Não sou eu que to dizendo. Já existe. E quando comecei a compor, uma influência muito forte que tive foi, no final dos anos 60, quando conheci Mercedes Sosa. A partir daí comecei a fazer “Frete” e “Cavalo Bravo”, com influencia do samba argentino. Sinto que este ciclo é viável. Mas o samba vai ser sempre o samba e o tango sempre o tango. Mas acho que quando isso aqui for um lugar só, estas coisas vão ter muito mais facilidades. No sistema geopolítico que a gente vive aí, imagina quando vier esta integração.

A SUA MÚSICA TEM MAIS A VER COM A CULTURA DA AMÉRICA LATINA DO QUE COM O SAMBA EM SI.
A minha música e a música do pessoal do Almir Sater tem uma grande influência da música caipira. E a música caipira e o caipira são a primeira definição sociológica deste país, que é o caiçara e o caipira. Em tupi-guarani, caiçara é o de baixo e caipira é o de cima. Caipira em tupi-guarani quer dizer mais acima… Pessoal do lado de lá da serra. Aqui a influência da música européia é quase nada. Ao contrário da música nordestina… Os repentistas citam maravilhosamente bem aquelas coisas dos gregos e romanos… É uma música que assimilou muita coisa de outros povos. O caipira não e o caiçara não. O lado mais comercial do caipira é aquelas coisas dos mariachis, a música paraguaia com as harpas. Assimilamos e tiramos o que tinha de melhor. O samba e a música caipira com certeza são as duas manifestações culturais musicais mais representativas da raça brasileira.

VOCÊ JÁ PASSOU POR GRAVADORAS GRANDES E PEQUENAS. COMO VOCÊ ANALISA O SURGINDO DE TANTOS SELOS INDEPENDENTES?
As gravadoras grandes cada dia mais vão trabalhar com os megas e aquela coisa comercial. Existe um mercado que precisa ser absorvido. Está havendo uma grande quantidade de gravadoras para abastecer este mercado, porque nós temos muitos artistas e pouca mídia. Na verdade, não é todo artista que cabe na mídia. Porque acho que não cabe mais. Achar um espaço dentro da mídia é difícil, porque ela está usada, congestionada. A bola é maior que o cesto. É um país que se manifesta musicalmente com muita energia. Em todos os cantos você vê bons músicos, compositores, cantores… Cada cidade do Brasil hoje tem três ou quatro estúdios que dá para gravar um disco com padrão internacional. É bem mais fácil. A música ganha com isso e os esquemas perdem. A mídia vai se ver obrigada a ampliar o seu espaço cada vez mais. E é o que está acontecendo. Estamos no início de uma grande revolução que favorece muito a música, o autor, a música regional, porque possibilita que todo mundo se expresse. Estou vendo uma coisa muito boa pela frente.

VOCÊ VÊ A MESMA POSSIBILIDADE DE EVOLUÇÃO PARA O DIREITO AUTORAL?
O problema do direito autoral, como a própria palavra diz, direito, tem a ver com cidadania. Um dos direitos do cidadão é o direito autoral, quando ele produz alguma coisa. Como a cidadania no Brasil hoje é de quinta categoria, isso repercute no direito autoral também. Vem evoluindo como evolui a cidadania.

MAS NEM “ROMARIA” TE DÁ UM BOM RETORNO?
Não me dá. É um direito autoral de quinta categoria.

COMO A MÚSICA CAIPIRA CHEGOU PARA VOCÊ?
Eu nasci em Santos, passei a minha infância em Ubatuba e com 11 anos fui para Taubaté. Mas ainda em Ubatuba, eu sou de uma família de músicos amadores, e todo mundo tocava na porta de casa, violão, flauta… E ouvia a Rádio Nacional do Rio de Janeiro, mas nunca tinha visto e ouvido música ao vivo. E um dia teve um circo em Ubatuba, devia ter sete anos, e ia ter um show com um trio caipira. Então tinha lá? Luis, Teodoro e Creuza, Os Três Turunas. Eles cantavam músicas do Anacleto Rosa Júnior, que é um compositor de Taubaté, e que para mim é o maior compositor caipira que existe no Brasil. Foi inesquecível ver os artistas cantarem no microfone… Tanto que a primeira música que eles tocaram era “Mestiça” e nunca mais esqueci. “Se você for para o Mato Grosso não deixe de me avisar…“. E esta canção produziu em mim uma imagem do Mato Grosso. Me apaixonei pelo estado, um ubatubano e um lugar que nunca imaginava que poderia ir um dia. Era criança. Aí quando mudei para Taubaté, fui trabalhar na rádio e um dos discotecários era um dos cantores deste Os Três Turunas. E dali eles começaram a me apresentar à música caipira, através de Anacleto, que é um taubateano que fazia não só “Mestiça”, como fez uma porrada de música para o Mato Grosso. E me envolvi ainda mais, pois fui encontrar com o cara da primeira música. E sempre cantei a música. Aí quando queria fazer uma música com influências rurais, já tinha um pouco desta coisa de “Mestiça”.

ESTA INFLUÊNCIA DA MÚSICA CAIPIRA PEGOU POUCOS COMPOSITORES DAQUELA ÉPOCA, COMO CAETANO E CHICO. VOCÊ ERA UM ESTRANHO NO NINHO PARA OS ARTISTAS DA DÉCADA DE 60, MAIS LIGADOS AO ROCK, AO SAMBA E A BOSSA NOVA?
Não tinha muita consciência da coisa. Mas era uma influência realmente minha. “Mestiça” é a pedra filosofal da minha poesia. Porque foi a primeira música que me bateu. E o cara cantou, escutei uma vez e nunca mais esqueci.

E COMO VOCÊ CONHECEU O ALMIR SATER?
O tempo foi passando e pela primeira vez me chamaram para tocar em Cuiabá. O estado já estava dividido, mas cheguei meio impressionado. Porra é aqui. Terra da “Mestiça”. E estava em um quarto de hotel e de repente bateram na minha porta. Era o Almir: ?Vamos tocar aqui no quarto do lado?. A gente não se conhecia, só tinha se cruzado uma vez ou outra. Mas nunca tinha a oportunidade de conversar. Tava o Almir, o Pedrinho Ortale e a Alzira Espíndola. Aí eles começaram a cantar para mim a música do Mato Grosso do Sul e pirei. Foi daí que surgiu a identidade. É por isso que quando canto a música do Mato Grosso no meu disco “Sonhos Guaranis”, canto com toda a autonomia que um artista que tem esta ligação com o estado tem que ter. E todo o conhecimento e toda moral para fazer este disco. É um disco que não admito discutir, porque é a minha visão. E a minha visão está certa da música do Mato Grosso.

TIVERAM PESSOAS QUE DISSERAM QUE ERA UMA INTROMISSÃO DE UM ARTISTA QUE NÃO MORA NO ESTADO. UM OPORTUNISMO.
Mas a música de Mato Grosso não é de ninguém. A música de Mato Grosso já é a música deste país. E junto com o maior autor sul-matogrossense, que é um dos melhores autores deste país, junto com ele e com a minha poesia, que pesquei em Ubatuba e Taubaté, esta mesma poesia influenciada por este cara que já amava o Mato Grosso e não era de lá, fiz junto com ele algumas obras que hoje já estão inseridas dentro dos clássicos brasileiros, como “Tocando Em Frente” e “Um Violeiro Toca”. E este disco do Mato Grosso do Sul corresponde ao “Fina Estampa” do Caetano. Ele mostrou à geração dele que ouvia aquele tipo de música e eu to mostrando através do “Sonhos Guaranis” a mesma coisa. Embora não fosse o meu estado, ele me influenciou de uma maneira fantástica. Me orgulho dele. E meu filho só quer ir para o Mato Grosso.

POR QUE VOCÊ ACHA QUE ESTA MÚSICA FEITA NO MATO GROSSO DO SUL ESTÁ REPRESADA E NÃO CONSEGUE REALMENTE CONQUISTAR UM ESPAÇO NA MÍDIA. O QUE ESTÁ FALTANDO?
A mídia precisa fazer uma autocrítica, porque a Globo com “O Rei do Gado”, novela que explorava a cultura contemporânea rural, o Ibope foi lá para cima. O que quê o público quer ouvir hoje em contrapartida a violência da tevê, os jornais, trânsito caótico, poluição… O povo ta desejando paz de espírito, um bom lugar para viver, um horário digno de trabalho, poder estar consigo mesmo, ser feliz… E acho que de certa forma eu, Almir, Pena Branca e Xavantinho, e todo este pessoal lá do MS, somos meio que os mensageiros deste novo sonho. De paz e felicidade. Mas não é aquele sonho babaca, feliz de boutique. Feliz consciente da nossa identidade cultural, quem nós somos. E de repente ficar pasmado com o suingue que tem e a modernidade da música caipira de hoje. Só um adendo.

O QUÊ?
Para mim o Almir Sater é um dos maiores compositores da música brasileira de todos os tempos. O Almir é um violeiro maravilhoso, impecável. E sendo o maior violeiro do Brasil é o maior do mundo. Mas acho que antes de tudo ele é um compositor e melodista fantástico. (P.S. Renato e Almir acabaram ‘unindo’ a família. A filha de Renato casou com o irmão de Almir) Na minha opinião também está no Mato Grosso do Sul o maior poeta brasileiro de hoje. Chama-se Geraldo Roca. Se falassem para mim: escolha um artista para dar de presente para o povo brasileiro. O nome desta pessoa seria Geraldo Roca. O conheço há mais de 25 anos e sempre defendo esta tese. O lance é que o Roca é louco para cacete.

Entrevista concedida e publicada pelo extinto caderno cultural Cult Press, da agência Carta Z Notícias.

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