DO FUNDO DO BAÚ – Paulo Coelho: ‘Encaro as críticas como uma grande ajuda’

Passados nove anos desta entrevista, Paulo Coelho está entre os 20 escritores vivos mais lidos do mundo, ao lado de monstros como Gabriel Garcia Márquez e Umberto Eco. Ao todo, seus livros já venderam mais de 65 milhões em 150 países.

Mesmo longe de chegar perto de Sidney Sheldon, que vendeu mais de 300 milhões de livros, celebridades como Bill Clinton, Madonna e Sharon Stone se declaram leitores assíduos do Mago brasileiro. O gancho da entrevista foi o livro Monte Cinco, que estava sendo lançado em várias partes do mundo em 1997. Mas o papo acabou descambando para outros assuntos.

Como jornalista não tive do que me queixar. Foi razoavelmente fácil marcar a entrevista, bastou falar com o escritório, enviar o pedido da entrevista por fax (na época a Cult Press escrevia para uns 20 jornais espalhados pelo Brasil) e pimba lá estava eu e o fotógrafo Jorge Rodrigues Jorge entrando no Dom Camillo, na Avenida Atlântica, para encontrar o ex-parceiro de Raul Seixas. Sentamos em uma mesa para não atrapalhar o final de uma entrevista que Paulo estava dando para uma televisão alemã!

Acabada a entrevista, nos cumprimentamos rapidamente e já estamos dentro do carro do cara, com chofer! Andamos umas quatro quadras e paramos no edíficio na própria Atlântica. Jorge faz as fotos rapidamente e cai fora. Lá tô eu com o escritor mais lido e ‘malhado’ do Brasil.

Permaneci umas 3 horas com o Guru das Letras em seu elegante apartamento em Copa. A vista do mar de sua janela é fenomenal. Paulo me pareceu seguro e sincero em seu discurso. Ressabiado quando o assunto era Raul Seixas, mas sem deixar de ser franco. Interrompeu várias vezes a conversa para falar com sua agente européia, pedia para eu acender cigarros para ele enquanto falava e não deixava de me tranquilizar: ‘a gente recompensa o tempo depois!’. Eu confesso! Li Paulo Coelho. Diário de Um Mago foi unânime quando saiu. Todo mundo leu. Eu continuei em Alquimista, insisti em Brida e depois em As Valquírias e nunca mais consegui ler nada de Paulo. Quebrou o feitiço… heheeee

Nesta entrevista, o que chama a atenção é que o parceiro do Raul afirmou que a Academia Brasileira de Letras não era o seu clube. Em 2002 lá estava ele discursando para ocupar a cadeira 21 (no lugar de Roberto Campos) na associação fundada por Machado de Assis em 20 de julho de 1897 no Rio de Janeiro (só para constar Mário Quintana, Carlos Drummond de Andrade, João do Rio, Lima Barreto… estes sim, nunca perteceram ao clube da ABL). De todo o papo com Paulo Coelho, tirei o ensinamento de não mais falar do que ainda não fiz.

Passado um ou dois anos da entrevista, encontrei mais uma única vez Paulo. Foi no lançamento da novela Brida, no ainda funcionando prédio da emissora Manchete, que faliu totalmente tempos depois. Lembro que estava com meu amigo e jornalista Leandro Calixto. Todos pararam para ver Paulo Coelho e Walter Avancini (os dois poderosos baixinhos… hehehhe) entrando no recinto. Alguns meses depois a novela foi a primeira em todos os tempos de dramaturgia a não ter um final de verdade: as imagens dos personagens congeladas no vídeo e uma voz em off informando o destino de cada um.

Vamos a entrevista…

MAGO DAS LETRAS?

Entrevista Paulo Coelho
por Rodrigo Teixeira

RODRIGO TEIXEIRA – VOCÊ ESTÁ PRESTES A ATINGIR A MARCA DE 18 MILHÕES DE LIVROS VENDIDOS. COMO ADMINISTRAR UMA MEGACARREIRA?
PAULO COELHO – É uma loucura. Trabalho como todas as pessoas e muito graças à Deus. Não vou ficar vivendo de louros e glórias. Se ganho dinheiro é porque trabalho. Os dias são agitados mas as noites tranquilas, que é quando escrevo. Podia ser muito mais agitado se não tivesse a agente Mônica Antunes e a agência ICM – Internacional Criative Managger. Além do meu Instituto. Tenho poucos problemas, porque não sinto dificuldades em delegar poderes.

RT – PROBLEMAS COMO O QUE ESTÁ ENFRENTANDO NOS ESTADOS UNIDOS COM A REEDIÇÃO DE ?O ALQUIMISTA? ILUSTRADO POR MOEBIUS, O MAGO DOS QUADRINHOS FRANCESES?
PC – Exatamente. Está dando problemas porque a minha editora francesa não gostou do novo projeto dos americanos. Não me meto porque é um momento que estes dois mundos se chocam e aí complica um pouco. É administrar.

RT – EM COMPENSAÇÃO O ?MONTE CINCO? TEVE UMA TIRAGEM DE 70 MIL EXEMPLARES NA PRIMEIRA SEMANA NOS ESTADOS UNIDOS…
PC – Minha agente Heather Schroder me ligou falando que são ótimas as perspectivas de aceitação. Estes 70 mil são apenas as encomendas das livrarias. É excelente, já que lá esta marca já é considerada um best-seller.

RT – QUAL A EXPECTATIVA DE LANÇAR O ?MONTE CINCO? NA FRANÇA E EM 38 PAÍSES SIMULTANEAMENTE DAQUI A DUAS SEMANAS?
PC – Vai ser uma maratona de eventos. Acabei de dar uma entrevista de quatro páginas para a revista Paris Match e seis para a Elle francesa. A expectativa é grande para o jantar na pirâmide do Louvre e também para o debate com Jorge Amado. Vou enfrentar entrevistas em televisões de vários países como Inglaterra, Grécia e Israel, além da França. Isto porque em 1997 resolvi não lançar livro. Era um ano sabático. Não deixei de trabalhar, mas fiz coisas diferentes.

RT – COMO SER BARMAN NA POLÔNIA E FUNCIONÁRIO DE UMA FÁBRICA DE PRESUNTOS. QUAL O PROVEITO DISTO?
PC – Não perder o contato com as pessoas. Só conhecia na Polônia minha editora. Ela brincou falando se queria ser barman do restaurante que estávamos. Trabalhei por dez dias. Depois fui para o Sul da França trabalhar numa usina de presunto. Mas o dono era amigo. Agora voltei a carga total.

RT – POR QUE SÓ DEPOIS DE SETE ANOS DE TER A IDÉIA COM O ROTEIRISTA DOC COMPARATO VOCÊ FECHOU COM A GLOBO PARA O ‘DIÁRIO DE UM MAGO’ VIRAR MINISSÉRIE?
PC – Porque não se pode ter pressa. Tomo como exemplo a minha negociação do ‘O Alquimista’, em 1993, com a Warner. Tive pressa e quebrei a cara. Não tem nada a ver com o preço (250 mil dólares).

RT – VOCÊ CONSEGUIU UM PREÇO MAIS ALTO NA GLOBO?
PC – Não falo sobre isso. O problema é que a Warner há cinco anos tenta um bom roteiro e não consegue. A verdade é que caiu nas mãos das pessoas que não deveria ter caído.

RT – POR ISSO VOCÊ ESTIPULOU COM A GLOBO E COM A MANCHETE, PARA ?BRIDA?, UM TEMPO DETERMINADO PARA A PRODUÇÃO?
PC – Aprendi com a Warner que é necessário colocar um limite. ‘Brida’, por exemplo, precisa ser filmado em um ano. O prazo para ‘O Diário de Um Mago’ é de cinco anos. A minissérie também deverá ser filmada no Caminho de Santiago. Senão tenho os direitos de volta. ‘O Alquimista’ não. Vendi para a Warner por tempo indeterminado.

RT – ALGUNS DESTES PROJETOS VOCÊ VAI ACOMPANHAR DE PERTO?
PC – Nenhum. Recebi vários convites de Holywood para escrever o roteiro de ‘O Alquimista’ e a ‘As Valkírias’, que está vendido para Sony-Hollywood, da Fox. Mas já descartei totalmente esta possibilidade. Não é a minha praia. O que gosto é de escrever livros. Quero ver pronto. Talvez ir na estréia ou mesmo pagar a entrada, assistir e gostar. Ou não.

RT – ESTA SENSAÇÃO DE VER NA TELA O QUE VOCÊ ESCREVEU GERA UMA EXPECTATIVA?
PC – Nenhuma. É o caminho natural de um livro ampliar seu público. Tenho meus livros para escrever e preciso estar presente nos países. O problema é muito maior para o adaptador. Se for bom, ótimo. Mas se for ruim o problema é dele. Os livros são bons.

RT – A SUA TRANSFERÊNCIA DE EDITORAS EM 1996, ONDE EMBOLSOU MAIS DE UM MILHÃO DE DÓLARES, AJUDOU A PROFISSIONALIZAR O MERCADO EDITORIAL BRASILEIRO?
PC – Realmente em vez de inflacionar, como falaram na época, profissionalizou. O mercado ficou adulto e as editoras não fazem favor em publicar. Somos trabalhadores e temos de ser tratados como profissionais. A minha negociação revelou que o mercado brasileiro já era profissional para os editores e amador para os escritores. Agora as pessoas estão se dando conta que seus trabalhos têm valor.

RT – É MAIS DIFÍCIL IMPOR SUA OPINIÃO COM EDITORAS ESTRANGEIRAS?
PC – Sem dúvida. Não podemos deixar nos tratar de qualquer jeito. Mas não quero julgar os escritores. Quero julgar o fato de que realmente eu e minha agente sempre tivemos uma noção do que queríamos. Sou o único escritor agenciado por ela, ela não tem tempo para nada, trabalha 24 horas por dia. Tem duas secretárias e não dá conta do recado. Por que têm mil coisinhas. Um edição pirata. Um editor que não paga. Coisas normais do ofício. Mas nunca chego com complexo de Terceiro Mundo. Nunca peço favores. Se quiser me editar ótimo, senão paciência. Têm países que não me quiseram. A Alemanha demorou cinco anos, até que agora taí a tevê alemã me filmando para o principal programa de literatura.

RT – POR QUE VOCÊ DECIDIU ESCREVER SOBRE LOUCURA NO SEU NOVO LIVRO?
PC – Não quero falar sobre o novo livro. Já acabei e estou fazendo a revisão. Escrevo desde 1996. É um romance baseado numa experiência de vida. Não exatamente minha. Não sei nem quando vai sair. Contratualmente não sou obrigado a nada. Prefiro falar perto dele ser publicado. Está pronto, senão nem tocava no assunto.

RT – VOCÊ É SUPERTICIOSO?
PC – Não. Mas a energia deve ser usada corretamente. Você não vai falar do que ainda não fez. Canso de ver em jornais gente falando do filme que vai fazer e do livro que vai escrever. Aí acompanho durante anos e nada acontece. Use a sua energia para fazer e não dispersar em palavras projetos que você não vai realizar.

RT – VOCÊ PENSA EM CHEGAR NA ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS?
PC – A ABL representa muito bem a cultura brasileira, mas não cabe a mim pensar nisto. São planos que no futuro se conversará.

RT – RAQUEL DE QUEIROZ E ARIANO SUASSUNA JÁ O CRITICARAM. VENDER MILHÕES INCOMODA?
PC – Encaro as críticas como uma grande ajuda. Porque mostra que, primeiro, meu trabalho não é ignorado e, segundo, que vai contra o que eles fazem. Você critica aquele que não faz parte de seu clube. E isto me deixa muito contente, porque aquele não é o meu clube.

RT – E QUAL É O SEU CLUBE?
PC – Não sei qual, mas não é aquele. Meu clube é o que fala de simplicidade e cuja sofisticação consiste justamente não ficar demonstrando experiência e inteligência. Só adianta escrever se você tem uma coisa boa para dizer. Em Davos, falando para os bam-bam-bans, constatei que a academia está mudando. Ela está na UTI do pensamento discutindo os conflitos pequenos burgueses do século passado. Mas está se abrindo para as interpretações filosóficas como a lenda pessoal, a busca da espiritualidade, o despertar do feminino. Não faço o jogo da inveja, porque seria admití-la. Meu jogo é o da discussão filosófica. A inveja não é o que me alegra nas críticas. As vezes você vê que o cara nem leu o livro. Fico feliz por não pertencer ao clube do Ivan Angelo.

RT – COMO VOCÊ ENCARA OS LIVROS DE AUTO-AJUDA?
PC – As pessoas compram livros de ficção ou não basicamente atrás de informação. Esta separação de auto-ajuda só existe no Brasil. Mas o público é muito mais sábio do que pensam. Eles percebem o oportunismo e não prestigiam. Compram uma vez e não duas. A literatura reflete a sua época.

RT – ATÉ QUE PONTO O RAUL SEIXAS INFLUENCIOU A SUA OBRA?
PC – Muito. Porque eu era o típico intelectual, onde complicar que é bom e não ser entendido é o máximo. É insegurança de não saber passar as idéias. E o Raul me abriu o mundo do grande público, das letras de músicas e das pessoas. No começo reagi como todo o pseudo-intelectual. Achava que meu trabalho não podia virar música. Ele me ajudou muito na forma e a simplificar o texto. As letras deveriam ser dentro de uma meta.

RT – VOCÊ DEIXOU DE LADO O ROCK’N ROLL TOTALMENTE?

PC – Não acompanho muito. Hoje em dia escuto tudo. De Chitãozinho e Xororó a Vagner. De Andréa Boccelli a Roberto Carlos. Mas sou um ouvinte, não um crítico. Se acontecer de voltar a fazer letras deve ser por acaso.

RT – VOCÊ TEM MEDO DE NÃO CONSEGUIR VENDER BEM E FRACASSAR?
PC – As pessoas não ganham sempre e eu também. Acontece que não falo das minhas derrotas. Lambo as feridas e vou em frente. Muitas vezes só chega ao público o verniz do sucesso. Não penso no passado e futuro. Quero ser digno do sucesso que conquistei e continuar a busca espiritual, que é o mais importante. Estou sujeito a falhas e erros, mas não me deixo paralizar. A vida é um momento presente. O importante é continuar no Bom Combate.

Livros de Paulo Coelho/ano
O Gênio e As Rosas (2004)
Onze Minutos (2003)
Histórias para pais, filhos e netos (2001)
O Demônio e a Srta. Prym (2000)
Palavras essenciais (1999)
Veronika decide morrer (1998)
Manual do Guerreiro da Luz (1997)
Cartas de Amor do Profeta (1997)
O Monte Cinco (1996)
Na margem do rio Piedra eu sentei e chorei (1994)
Maktub (1994)
As Valkírias (1992)
O Dom Supremo (1991)
Brida (1990)
O Alquimista (1988)
O Diário de um Mago (1987)

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