FOGO NA ROUPA – CAP 1

FOGO NA ROUPA
Sexo, drogas e rock’n roll

Ele abriu os olhos às 11h11. Sentia os sintomas por ter virado mais uma noite. A boca tinha gosto de guarda-chuva e a cabeça pesava. O estômago clamava por algo. Aos poucos, começou a se mexer na gigantesca cama. Não queria sair dali. Esticou a mão até o cinzeiro de cristal de murano e pegou a ponta sobrevivente da balada do dia anterior. Antes, deu um gole no frasco marrom para acalmar a gastrite. Virou-se para o grande espelho atrás da cama e acendeu a baga. A fumaça foi se espalhando no amplo quarto e o gosto da canabis aqueceu o gelado que o remédio leitoso deixara na língua. Olhando os feixes de luz que escapavam das frestas da janela, percebeu suas roupas jogadas na luxuosa cadeira avermelhada. O anel de prata em cima da carteira fina. As botas estavam caídas ao lado de dois copos com restos de blood mary. Se esforçou para lembrar como havia tirado as pesadas botas e com quem não teve tempo de matar seu drinque preferido. Além da rebordosa, já era comum a amnésia após as baladas.
Caminhou pelado até o banheiro da suíte. Feriado, não escutava os carros na rua. Nada de buzinas, apitos, freadas. Silêncio. Viajou no barulho do chuveiro e no rastro que as gotas d’água deixavam no vidro fumê. Permaneceu em transe durante demorados segundos. Ponto-morto. Não pensava em nada. Vislumbrava. Aos poucos, as imagens dos campos a perder de vista formaram-se na sua cabeça. Um mar verde de terra que engolia o mundo e que transformava gente, em grão. Via um filme. Um sol prata. Uma lua dourada. Um açude marrom. Tentou ouvir alguma movimentação, mas tudo parecia na santa paz. Quebrou a ponta de dois frascos de vitamina A e jogou o líquido oleoso no cabelo. Carequice, definitivamente, não combinava com rock’n roll. Ficou por um tempo sentindo o cheiro do shampoo de algas com o nariz encostado na ponta do pote aberto. Estava exausto e com sede.
Resolveu raspar a barba já crescida. Ao pegar os apetrechos, encontrou uma folha do bloco de recados em cima da portentosa pia branca de mármore. A boca de batom impressa no papel assinava o pequeno texto de caligrafia exemplar: ” Não pude esperar. Valeu a balada. Me liga”. A noitada passou na sua mente. Deu um sorriso e jogou fora o papel. Havia, finalmente, acordado. Pegou a toalha branca enorme e saiu para atender o maldito ramal interno do telefone. Molhou o carpete macio.
Atendeu.
– Oi.
– Acordou?
– Ahan.
– Então sobe. Quero te mostrar uma coisa muito, muito, muito… hum… você vai ver.
Cacá levantou a cortina e o quarto se iluminou. Do décimo-primeiro andar, apreciou o visual. O azulão do céu de brigadeiro contrastando com o esmeralda das copas das árvores na rua. Pôs o rosto para fora e viu uma das meninas da noite anterior saindo rapidamente pela portaria do prédio e embarcando em um táxi. Encostou a porta sem pressa e ouviu o interfone tocando no quarto ao lado. Seguiu pelo pequeno corredor, entrou na sala e foi para a cozinha. Bebeu três copos de água e aqueceu no microondas o leite para misturar ao café. Era o máximo que conseguia ingerir logo após acordar.
Foi até a mesa redonda da sala e sentou em uma das seis cadeiras. Colocou um biscoito de polvilho na boca antes do café com leite. Percebeu que alguém havia deitado há pouco no sofá de couro e remexido as almofadas. Aproveitou para tomar uma aspirina americana que estava há dias no bolso da camisa. A última coisa que queria era uma dor de cabeça. Foi até a cozinha, deixou a caneca na pia e subiu a pequena escada de degraus pretos que levava ao andar de cima.
– Oiiii. Ei, heyyyy!!.
Debruçou-se na mesa de sinuca e não viu ninguém por ali. A sua palheta estava presa nas cordas já gastas da Gibson Lês Paul preta. Modelo 76. A flanela laranja envolvia o braço da guitarra. As persianas da sala imensa do segundo piso continuavam cerradas, como de costume, apesar do sol de inverno lá fora. A televisão de muitas polegadas exibia imagens sem som. O ventilador de teto imóvel. Foi para o confortável sofá em L que ficava no mezanino e aí a surpresa.
Ela estava sentada no chão, só de calcinha e camiseta branca. Tinha as pernas grossas e os seios estufavam o algodão. Parecia domada. Detalhe, o braço direito algemado ao pé do sofá em L. A moça levantou a cabeça com um cigarro na boca. A cara estava mais para uma noite de bebedeira e cheiração do que sexo bem feito. Arfava.
– Tem fogo gato?
– Só lá no quarto.
– Vai pegar para mim. Por favor.
O desaparecido surgiu na sala.
– Ahann… achou a surpresa hein?!? É o que falo, meu caro! As mulheres sempre sabem o que querem. Umas mais, outras menos. Mas sabem. A sua companheira foi embora logo de manhãzinha, por exemplo. Parecia feliz da vida. Já a nova sócia aqui deu um verdadeiro show depois que vocês se retiraram. Um sh-ow, meu caro.
– Dá pra algum dos dois cavalheiros acender meu cigarro?
– Uau! Não digo. As mulheres sempre sabem o que querem, meu caro. Mademosele, estou aqui para concretizar seus pedidos e fazer todas as suas vontades. Antes, porém, vou preparar para nós mais um Fode-motorista. Você não vai sair daí né?
– Pelo amor Deus, preciso acender meu cigarro. Nesta situação, é o mínimo. Você pode até ser recompensado…
Hanny respondeu rispidamente:
– Não me venha com gracinha.
Aceso o cigarro…
– Estou com uma fome danada. Vamos sair, meu caro. Chama o Nelsinho. Ele dormiu aí. Nem te digo! O cara não pode mais beber que fica bobo, babando em cima da gente. É um vexame para o nosso clube. As garotas não acreditaram. Além disto é do tipo que fica apaixonado, dá beijo na boca, já quer casar, levar para morar em casa, constituir matrimônio, colocar anel, se encoleirar. Depois, fica valente…
Chega o fiasquento.
– Vocês estão falando de mim é? Tô novinho em folha e adorei a baby de ontem. Alguém pronunciou a palavra comida quando estava subindo a escada?
Hanny se anima.
– Vamos aonde rapazes?
– Churrascaria. Com polenta frita saindo na hora. A gente podia apertar mais um para ficar com aquela fome a-ni-mal. Deixa comigo.
Cacá começa a bolar um. Nelsinho senta ao lado da moça de pernas grossas.
– Ei? Olha a mina ainda aí? Caraca, não acrediiiito…
Hanny vai pegando as chaves.
– Meus caros, vamos para a churrascaria. Na volta me entendo com a nova sócia. Ela tem umas idéias revolucionárias e adoro isso. Com tantos anos nas costas e me surpreendendo com esta juventude.
– A amiga dela não quis subir. Saiu batida. Queria até ficar, mas falei que tenho que ir para a minha área. Esta festa para comemorar o último ensaio começou há quatro dias, esqueceram? Tenho que aparecer lá no meu pedaço.
Cacá acende o fino e propõe a Nelsinho:
– Vou contigo. Na boa?
– Claro. A gente faz um som no Rica e depois sai a pampa. Vamos para a pracinha e de lá, só Deus sabe.
– Vou comer feito um rei. Vocês estão lembrando que ontem a furona da Julinha não apareceu lá no ensaio como o prometido, né. Ela já está nos devendo esta e isso é bom, porque ela vai querer pagar dobrado. A última festa na casa dela saí de gatinho.
Nelsinho se enerva.
– Passa mané que sou o Pelé. Na tabelinha porra!! Vamos nessa, vamos nessa… Aí? Libera o habeas corpus para a menina, ok? Ela é da casa da Santa né?
Nelsinho encara a garota.
– A sua amiga me falou do que você gosta! Te entregou. Quem diria com um rostinho destes, hein, adora um maltrato. Não podia ter parado em melhores mãos né tio Hanny. Me joga na parede, me chama de lagartixa…
Nelsinho ri esquisito e passa a bola para Hanny.
– O cara colhe informações clandestinamente e ainda quer liberar o alvará de soltura da tomadora de uísque. Meus caros, ela derrubou uma garrafa de Jack Daniels depois que vocês se recolheram e fez loucuras em cima desta mesa. A coreografia que ela criou para o nosso blues já virou uma lenda. Pena que só eu tenha visto.
Hanny vai colocando a jaqueta.
– Meus caros, escutei os dois ensaios milimetricamente junto com a minha companheira de copo. Está perfeito. Aliás, tenho sempre a impressão que vocês me passam pra trás. Vocês ficaram com duas gostosas e olha só o que sobrou para mim. Brincadeirinha… Um minuto… estou pronto!!! Vamos, vamos…
Nelsinho segura Hanny.
– E ela?
– Ela tem a chave, meus caros. Vocês são uns bobões mesmo. É como digo: as mulheres sabem o que querem!

* O livro Fogo na Roupa pode ser lido também no site A Fábrika!

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