Carlos Lyra (Parte II) – Do Fundo do Baú

Mister Bossa Nova (continuação)

Rodrigo Teixeira – E COMO ERA O CONTATO SEU COM ESTE PESSOAL?
Carlos Lyra – Contato direto. Em princípio por causa do CPC. A gente estava procurando para arregimentar os extras do filme de Flávio Rangel e a idéia de pegar a música de raiz brasileira para socorrer a música de classe média, que estava com muita forma, mas sem nenhum conteúdo. Estava batendo na mesma tecla. Não tinha mais saco para isso. Não agüentava mais este negócio de flor. O CPC se dedicou a cavar conteúdo e a verdade é que minha música se enriqueceu com isso. Saiu o show “Opinião” com ele.

RT – PODERÍAMOS FALAR QUE O SHOW “OPINIÃO” AFUNDOU A BOSSA NOVA E LEVANTOU A MPB?
CL – Não afundou. Deu um passo a frente, além da Bossa Nova. O show foi escrito na minha casa. A Bossa Nova era uma coisa nacionalista, queria fazer música brasileira, e a bossa aí passou a ter conteúdo. “Opinião” é Bossa Nova com conteúdo. E daí para frente à Bossa Nova não caiu, ela passou a ter conteúdo. Esta é outra viagem que o Tinhorão perdeu. Ele não percebeu que a Bossa Nova se conscientizou. Na minha música, Vinícius e de outros mais. O Tinhorão não percebe esta evolução. Ele pensa que o Chico Buarque é MPB engajada e que a Bossa Nova é uma música alienada.

RT – EM 1964, COM O GOLPE, VOCÊ DECIDIU IMPOR UM AUTO-EXÍLIO?
CL – Com o golpe ficou insuportável. Os militares prepararam o terreno e os civis safados, porque o grande golpe foi dado por civis corruptos. Ordinários que estão aí até hoje. A gente está vivendo uma ditadura civil. Ninguém notou ainda, mas continua a brincadeira. Ainda tem muita gente ruim mandando neste país. Então me exilei, porque se tivesse ficado teria sido preso. Então fui para os EUA. Nova Iorque.

RT – FOI QUANDO SURGIU PARA TOCAR COM O STAN GETZ?
CL – Desde 1962 que o Stan estava gravando com a Astrud e com o João Gilberto. Os dois não quiseram mais participar e então ele me chamou. Só disse que não iria cantar “Garota de Ipanema”, que era compositor e não iria tocar música de ninguém. Ele disse tudo bem. Aí comecei a tocar as minhas músicas com um conjunto maravilhoso atrás de mim, com Chick Corea no piano, Gary Burton de vibrafone… O Chick reclamava que o Stan Getz não deixava eles tocarem e só queria o arroz com feijão. Isso em 1965.

RT – COMO ERA O STAN?
CL – Estava o tempo todo de porre. Mas era um cara legal. Ele divulgou muito a Bossa Nova. Mas não gosto de saxofone. Para mim tem hora, me incomoda um pouco.

RT – DEPOIS VOCÊ ACABOU INDO PARA O MÉXICO.
CL – Casei com a Kate na Cidade do México. Fiquei quatro anos e voltei para o Brasil em 1971. Até 1974 quando resolvi ir para Los Angeles passar dois anos sem voltar aqui. Fui em função da Terapia do Grito Primal. É curiosa, você grita, chora, se joga na parede, com a sala toda forrada de espuma… Para mim foi fantástico, pois estava rolando tudo aquilo no Brasil, e eu fumando feito um louco, com taquicardia… Comecei a passar bem, inclusive meu colega de terapia era John Lennon. Só toquei com ele na terapia, conversamos… Isso foi em 1974. Ele falou que aquilo estava salvando a vida dele, que ele estava se sentindo ótimo.

RT – NESTA ÉPOCA VOCÊ TAMBÉM SE ENVOLVEU COM ASTROLOGIA SIDERAL. COMO FOI ISSO?
CL – Em Los Angeles eu também conheci a Astrologia Sideral, que é para corrigir os signos. Astrologia científica, astronômica. Fui à escola de astrologia sideral para saber do que se tratava, fiquei convencido e passei a ensinar lá também. Porque já conhecia astrologia. Quando voltei ao Brasil lancei um livro chamado “Seu Verdadeiro Signo”.

RT – ENTÃO ISSO É VERDADE MESMO. ÁRIES NÃO É MAIS ÁRIES…
CL – É a pura verdade.

RT – QUAL ERA O SEU SIGNO?
CL – Era touro. Agora sou Áries. O signo dos pioneiros.

RT – EU SOU ÁRIES. DEVO SER OUTRA COISA AGORA, NÉ?
CL – Que dia você nasceu?

RT – 11 DE ABRIL.
CL – Você é peixes. Não é Áries nunca. Quando você nasceu o sol estava na constelação de peixes. O que isso significa para o teu caráter, você tem de fazer o seu horóscopo pessoal para ver. Pode mudar muitas coisas. Signo não é definitivo. Mas na Idade Média era proibido falar no movimento dos astros e a Igreja congelou tudo. Por que isso vai mudar sempre. Cada Era que muda, as pessoas já nascem em signos diferentes.

RT – O QUE VOCÊ DIRIA PARA AS PESSOAS QUE FALAM QUE A BOSSA NOVA PAROU NO TEMPO?
CL – Sebastian Bach não parou no tempo. Ravel, Tom Jobim parou no tempo. O que não se pode é ficar reprisando as mesmas coisas e da mesma maneira. Eu sou o Carlos Lyra e o Menescal é o Menescal. Não dá para mudar isso. Agora eu não vou deixar de ser e fazer aquelas coisas cabalísticas, mudar o meu nome para Carlinhos da Lyra e fazer samba enredo e dizer que eu sou moderninho. Não sou babaca! Vou ser Carlos Lyra sempre, mas meus discos vão ser diferentes. O Heráclito fala que você nunca entra duas vezes no mesmo rio.

RT – A LEILA PINHEIRO CHEGOU A DIZER QUE PROCUROU MÚSICAS NOVAS DE COMPOSITORES DA BOSSA NOVA, INCLUSIVE DE CARLOS LYRA, E QUE NÃO HAVIA ACHADO, EM OUTRAS PALAVRAS, BOAS…
CL – Mas onde ela foi procurar? Assessor de imprensa quer saber a vida do Lyra e vão perguntar pro Tinhorão ou para o Zuza. Outro quer saber da vida do Menescal e vai perguntar na Globo. Porra, tem que perguntar pro cara. Se você quer uma música nova do Carlos Lyra pede a ele, não vai ver se tem na Globo, porque não tem. Tem na casa do Carlos Lyra. Se você quer saber uma coisa de mim tem de me procurar. Não vai procurar o Menescal para saber o que o Carlos Lyra pensa. O Ruy Castro cometeu este engano.

RT – QUAL?
CL – Ele quis saber do Carlos Lyra e foi procurar o Ronaldo Bôscoli. Para o livro “Chega de Saudade“. Entrevistou o Bôscoli durante dois meses e a mim entrevistou 40 minutos. Tivesse me entrevistado antes teria tido muito mais informações. Tem gente que reclama do livro e é evidente, porque a visão dele foi toda oferecida pelo Ronaldo Bôscoli. Ele pesquisou por conta dele, sobre o João Gilberto, mas muitas coisas sobre mim não foram bem assim. Porque ele não veio me entrevistar. Mas em relação à Bossa Nova em geral o Ruy contou muito bem.

RT – É VERDADE A FAMOSA HISTÓRIA DE QUE O JOÃO GILBERTO FEZ O GATO SE JOGAR PELA JANELA DO APARTAMENTO DEPOIS DE FICAR TOCANDO DIAS SEM PARAR?
CL – Não sei, porque não estava. Mas o Vinícius me contou que era verdade. “O João ficou batendo no bordão do violão e olhando para o gato, tim, tim, tim… e o gatinho não agüentou e pulou”. Isso contado ao Vinícius pela Astrud, que era mulher dele na época. Se é lenda ou não, ninguém sabe. Que é engraçado, é.

RT – MUDANDO DE ASSUNTO, É VERDADE QUE AS GRAVADORAS RESISTEM EM LANÇAR NOVAS BOSSAS NOVAS E SEMPRE QUEREM RELEITURA DOS CLÁSSICOS?
CL – Sem dúvida. Querem “Minha Namorada”, “Primavera”, “Chega de Saudade”… Nova do Menescal e Carlos Lyra os caras ficam meio assim… a gente sente isso. Este disco novo mesmo a gravadora não quis divulgar. Chama-se projeto de resistência. Eles querem as coisas conhecidas.

RT – COMO OUVINTE, O QUE VOCÊ ANDA ESCUTANDO?
CL – Nada. Medíocre, não compro disco e não ouço nada. Cheio de pessoas prepotentes e vaidosas e evidentemente o público se sensibiliza com a vaidade. Porque o público hoje não compra arte, o público compra artista. Estão consumindo as personalidades. Agora arte mesmo, nem no teatro e nem no cinema. Estamos tentando fazer virar, mas o que vejo mais são as pessoas deixando se envolver por este clima de mediocridade e falta de integridade. As pessoas se vendem por qualquer coisa. Uma vergonha. Sobreviver está difícil, então não dá só para censurar, pô estes caras são mau caráter. Não é isso. É que realmente a vida econômica está difícil. Então, para sobreviver, o cara toca aí. E este é o nosso clima. Isto gera corrupção e mediocridade.

RT – VOCÊ ESTÁ COM QUANTOS ANOS?
CL – Não digo nem morto. Nunca mais. Ainda mais neste país aqui que é subdesenvolvido. O mundo já é orientado por jovens, país subdesenvolvido é muito mais. Então com 30 anos você está velho e com 40 está morto. O leilão é o seguinte. Quem dá menos. Colocaram no jornal 62 anos. De vez em quando eles chutam, né.

· Entrevista concedida ao extinto caderno cultural Cult Press, da agência carioca Carta Z Notícias.

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