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ENTREVISTA • Comandante Américo
Dezembro 1, 2007, 11:15 am
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Presidente da FCMS faz uma análise da cultura no Estado e revê a própria trajetória

Américo Calheiros é filho de um nordestino e uma sul-mato-grossense. Nasceu em Goiana, em Pernambuco, mas aos 6 anos se transferiu com a família para Jardim e depois de dois anos mudou-se para Aquidauana, considerada por ele como a sua cidade natal de coração. Em 1970, aos 17 anos, deixou a pequena cidade para se estabelecer em Campo Grande, onde começou a trabalhar como professor. Começou a carreira dando aulas de alfabetização e logo estava ensinando no ginásio, onde construiu a maior parte de sua trajetória de professor. Formado em Filosofia, Ciências e Letras pela extinta FUCMAT, o atual presidente da Fundação de Cultura de MS (FCMS) acompanhou o desenvolvido cultural de Campo Grande e garante que é importante ter esta perspectiva histórica para entender o processo artístico da Capital. “Eu acompanho o crescimento cultural de Campo Grande a mais de 30 anos. Não é uma visão de três anos atrás”, ressalta Américo.

A carreira de gestor público do presidente da FCMS começou em 1997, quando assumiu o comando da Fundação Municipal de Cultura (FUNDAC), onde permaneceu até 2006. Com a estada no comando da cultura municipal ganhou fama de ser um gestor que consegue atuar com um orçamento pequeno. Não se abala com a gritaria de parte da classe artística de que só privilegiou grupos amadores e que os eventos que produziu tinha um cunho altamente popularesco. “Não sou o tipo de pessoa voltada para aquilo que é concepção de cultura de elite. Nunca vou ser”, argumenta.

Onze meses depois de assumir a presidência da FCMS, Américo garante que está aberto para todas as vertentes culturais e que a dimensão da ação em âmbito estadual é bem mais ampla do que a municipal. “A dimensão no Estado é outra. O princípio aqui é a cultura do ponto de vista do desenvolvimento”, teoriza. Entre as áreas artísticas, Américo se envolveu mais com o teatro. Ajudou a fundar o grupo Gutac há 16 anos, por exemplo. Também já escreveu livros (“Sem Versos”, “Da Cor da Sua Pele”, “A Nuvem Que Choveu”…) e trabalhou, em 1979, como editor de cultura do extinta “Jornal da Cidade”. Américo recebeu a equipe de “O Estado” para um bate-papo em seu escritório e comentou vários assuntos, como a luta por 1% do orçamento municipal para a cultura, à volta do FIC e vários outros assuntos. Confira abaixo a entrevista.

Qual o papel do governo na condução da cultura?
Esta é uma tarefa de todos. Porque cultura é uma ação do homem no meio ambiente. É a forma dele ser e estar. E só vamos prosperar com esta ótica. Cultura é algo mais complexo que só as artes da música, teatro e etc. Cultura está em tudo, na ciência e na agricultura. Neste contexto, o papel do Estado é ser responsável na formulação de políticas públicas que ajudem a fortalecer a cultura, que assegura a preservação de bens culturais, permita a circulação e o acesso da população a arte. Entendo também que existe a necessidade do governo e as demandas da população. A política pública consiste em conciliar estas duas propostas.

Os produtores culturais de Campo Grande sempre reclamam que a classe empresarial ajuda muito pouco. O governo também acha isso em relação a apoio financeiro a atividades artísticas?
A classe empresarial deveria ser mais presente com certeza. Mas não é um problema só daqui e sim de todo o Brasil, excetuando-se o chamado ‘Sul Maravilha’. Já vi a secretária de cultura de Minas Gerais reclamando justamente disso. Mas para mim falta uma cultura nacional que convença os empresários de que investir em cultura é um bom negócio e que o seu produto vai agregar valor se ele for associado às artes.

Qual o balanço que você faz dos 9 anos à frente da Fundac?
Acho que foi um período importante. Conseguimos implantar um calendário cultural para Campo Grande. É importante ter um calendário até mesmo para os produtores artísticos como, por exemplo, o Pedro Silva e o Josimar saberem como proceder em suas produções e não chocar com a programação da prefeitura. Trabalhamos em todas as áreas e não só apenas em eventos. Foram muitos os trabalhos de formação, desde a música erudita até coisas mais simples como a capoeira para a terceira idade. Muita gente fala de eventos como “Noite da Seresta” e os shows da Av. Fernando Correa da Costa, mas estes são eventos que conseguem visibilidade na imprensa. Mas fizemos muitas outras coisas, como um trabalho ligado à literatura do nosso estado, que precisa ser repensada, e a vinda de grupos importantes da dança brasileira. Mas, por exemplo, trouxemos o Ballet da Cidade de São Paulo e foi um pingo de gente ver no Glauce Rocha. Tem coisas que é difícil de entender.

Há uma gritaria de parte da classe musical, por exemplo, de que a prefeitura investe desde a sua época em shows de axé music e sertanejo e pouco na música de MS. Muitos artistas, com prestígio no Estado, como Paulo Simões, Guilherme Rondon e Geraldo Roca, ficaram uma década sem tocar em nenhum evento da prefeitura. Há um problema de orçamento também?
Como trabalhador da cultura sou aberto a todas as vertentes. Eu não sou, por natureza, uma pessoa voltada para aquilo que é concepção de cultura de elite. Nunca vou ser. Mas sei das responsabilidades de um gestor cultural e que é preciso abrir espaço para todos. O que aconteceu neste período que fiquei na Fundac é que o governo do estado na época (Zeca do PT) assumiu uma parte da ala dos artistas e o município outra. Não foi nada combinado e aconteceu naturalmente. Eu nunca abandonei ou mesmo criei nichos artísticos. Pelo contrário. Criei projetos para o hip hop, rock e outras vertentes. As pessoas esquecem, por exemplo, que a prefeitura banca uma banda municipal que toca do erudito ao popular. Fizemos vários cursos para corais e etc. É muito fácil falar. Eu estou atento para todos os setores e nunca tive problemas com a classe artística. Sempre recebo e tento atender os pedidos.

Qual a avaliação que você faz após 11 meses à frente da FCMS?
A dimensão é outra. A ação é maior. O princípio aqui no governo é encarar a cultura do ponto de vista do desenvolvimento. Fazer a cultura gerar emprego e renda. Na verdade dimensionar quantativamente os benefícios da cultura é algo recente. Coisa de 50 anos. Não existe estudo nos estados para mensurar isso. Sei que atualmente, por exemplo, o artesanato movimento R$ 28 bilhões por ano no Brasil. Nos EUA nos últimos anos a industria cultural movimenta mais dinheiro que as outras indústrias no setor da exportação. Então nós temos que saber isso também. Por isso digo que estamos vivendo um período de pioneirismo. Está tudo ainda por ser feito. Não podemos ficar fora deste processo. Nós precisamos amadurecer e por isso vamos realizar um seminário em novembro para refletir os 30 anos de nosso Estado.

A classe artística de Campo Grande está batalhando por 1% do orçamento municipal. Você apóia esta reivindicação?
Sim. Este é um movimento que também está acontecendo em nível nacional. Todos os secretários de cultura do país estão envolvidos na campanha de conseguir 2% do orçamento da união. É claro que a cultura precisa de mais recursos. Tudo é dinheiro nesta vida. Claro que estou do lado dos artistas. Dificuldades existem e é preciso colocar as questões com clareza. Mas é uma unanimidade do Oiapoque ao Chuí que deve se aumentar à verba da cultura.

E o Fundo de Investimentos Culturais, o FIC, vai voltar quando?
A precisão é que ano que vem ele esteja em andamento. Na própria campanha o governador (André Puccinelli) já declarou isso. Não voltou este ano porque o estado estava com dificuldades mesmo na economia. O governador assegura e sempre garante o que fala.

Mas volta no primeiro semestre?
No ano que vem não sei quando. Estão tratando do orçamento agora e só quando fechar é que se vai saber.

Você não acha que deveria haver uma ponte cultural maior com Cuiabá?
Com certeza. Estamos sempre fazendo. Em outubro deve acontecer o encontro de cinema e vídeo dos cuiabanos aqui em Campo Grande. Somos parceiros. Mas isso tem que ter a vontade dos dois lados. Hoje o presidente do Fórum de secretários é de Cuiabá. Sinto um vento favorável para esta aproximação agora. Acredito que vai acontecer mais coisas daqui para frente.

Você concorda que o melhor setor do governo do Zeca foi à cultura?
A cultura teve seus avanços sim. A própria recuperação do prédio do Ex-Fórum que hoje está a Fundação. Os festivais também. Ocorreram avanços inegáveis. Mas quem tem que mensurar isso é a população.

* Publicada no jornal O Estado de MS em 29/09/2007



Cult Press 07 • Simplesmente música de Jards Macalé
Dezembro 1, 2007, 11:05 am
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Jards Macalé carrega a fama de maldito desde que apareceu de vestido e batom, em 1969, para defender a esquisita Gotham City no Festival Internacional da Can¬ção, no Rio. Mas o cantor e compositor de 55 anos rechaça com veemência esta definição. Jards prefere balizar seu estilo como nomeou o seu sexto álbum, recém-lançado pela Atração Fonográfica. “O que eu faço é música”, garan¬te o compositor, sem deixar de lem¬brar que a frase é do amigo e polé¬mico artista plástico Hélio Oiticica. “Era desta forma que ele de¬finia seu trabalho e tem tudo a ver comigo. Achei um bom nome para o CD, de uma ironia propi¬cia para o momento cultural que passamos”, explica Jards.

Há dez anos afastado dos es¬túdios e mais de duas décadas sem apresentar trabalhos com canções inéditas, o carioca criado na Tijuca, Zona Norte do Rio, reú¬ne letras de amigos já falecidos e antigos sucessos para compor as 16 faixas do novo disco. Além de transformar antigas letras de Glauber Rocha e Torquato Neto nas inéditas Rei de Janeiro, Destino c Dente no Dente, Jards grava pela primeira vez Vapor Barato – parce¬ria com Wally Salomão que ficou famosa na voz de Gal Costa, em 71, e ganhou recente versão do gru¬po Rappa e da própria Gal com y.cca Baleiro no disco Acústico pura a MTV – e faz um novo arran¬jo para Movimento dos Barcos, parceria com Capinam que o cantor já havia registrado no seu primeiro LP de 72.

0 compositor tam¬bém relembra uma parceria com Vinícius de Moraes, O Mais-Que-Perfeito, que Clara Nunes lançou em 74, e Poema da Rosa, poesia de Bertolt Brecht com tradução de Augusto Boal que Nara Leão gra¬vou em 69 e que Macalé incluiu no genial Contrastes, de 77. “Fiz questão de lembrar o centenário da morte de Brech”, frisa Jards.

O músico também decidiu que era a hora de musicar as letras de Torquato Neto e Glauber Rocha -falecidos respectivamente em 72 e 81 – que guardava há mais de duas décadas. O pequeno discurso de Glauber – “Idolatrada mãe a quem recorro, toda vez ameaça¬do pranto, paraíso São Sebasti¬ão, Rei de Janeiro”- é transforma¬do num mantra com levada lenta de samba e as de Torquato em sambas-canção. Jards recebeu de Torquato as letras dois dias antes dele se suicidar. “Fiquei com as letras queimando nas mãos”, lembra o compositor. Já o instru¬mentista aflora nas faixas Mais Um Abraço no Nosso Amigo Radamés e Um Abraço no Oliveira. “Antes não conseguia soltar a voz e que¬ria ser violonista”, afirma o can¬tor.

Mas é o lado de intérprete de Jards que surpreende em O Que Eu Faço é Música. Favela, de Padeirinho e Jorginho, traz uma letra que fala do surgimento dos conglomerados urbanos nos mor¬ros com um arranjo que mescla coro de vozes tradicional de sam¬bas enredo, guitarra distorcida e tiros de metralhadora sampleados.

Só não é mais original que a ver¬são para Blue Suede Shoes, clás¬sico de Cari Perkins, em que Jards mostra grande criatividade no vi¬olão aliando rock com samba, além de subverter a melodia. “Esta fai¬xa é uma loucura”, branda o músico, enquanto escuta a faixa de olhos fechados. Jards também dá uma nova abordagem para Ci¬dade Lagoa, um samba-de-breque do repertório de Moreira da Silva. “Quis transformá-la numa gafi¬eira moderna”, explica.

Com passagens por grandes gravadoras, como a PolyGram e a Som Livre, o músico frisa que teve total liberdade para fazer o que bem entendesse no novo CD, bem diferente da pressão que sentia nas multinacionais. “A Atração é pequena, mas muito profissional. Não ouvi nenhum não durante todo o trabalho”, agradece Jards, sem deixar de apontar o diretor artístico Wilson Souto Jr. – que na virada dos anos 70 para os 80 era dono do Teatro Lira Paulista, em São Paulo, onde se revelaram Itamar Assumpção e Arrigo Barnabé – como o responsável por armar um esquema ideal de trabalho.

Além de chamar para a banda-base os excelentes Jurim Moreira na bate¬ria, João Helder no baixo, João Lyra no violão e Cristóvão Bastos no piano, Jards convocou o velho parceiro Lanny Gordin para tocar guitarra e violão em duas faixas. “Meu objetivo com estes músi¬cos era recuperar a levada do samba carioca”, teoriza o cantor.

* Publicado pela Cult Press em 01/12/98