Matulacultural’s Weblog


Cult Press 05 • Tetê e Alzíra Espíndola em Anahí
Outubro 31, 2007, 2:56 pm
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Dueto pantaneiro

A memória foi a grande aliada das irmãs Tetê e Alzira Espíndola para lançar o CD Anahí. Desde pequenas as duas ouviam a mãe Alba – falecida há pouco menos de um ano – cantar polcas, guarânias e valsas nos encontros familiares em Campo Grande, capital do Mato Grosso do Sul. Ao lado dos seis irmãos, Tetê e Alzira também ficavam fascinadas com os trios paraguaios que frequentavam as festas na casa dos Espíndola, família tradicionalmente musical. Além de tocarem instrumentos exóticos, como a harpa, os grupos do Paraguai faziam vocais característicos, lembrando as duplas sertanejas do Brasil. “A intenção foi resgatar nossa raiz musical. Desde pequenas escutamos em serenatas várias canções que es­tão no CD e que nunca esquecemos“, conta Tetê, que ganhou destaque nacional em 1985 ao ser eleita a melhor intérprete do Festi­val MPB/Shell da Globo com Es­crito nas Estrelas, de Carlos Rennó e Arnaldo Blach.

O novo álbum foi gravado ao vivo em São Paulo e marca o reen­contro de Tetê e Alzira após 21 anos. Desde 1978, quando elas se lançaram com o LP Tetê e o Lírio Selvagem – Lírio Selvagem era o trio composto por Alzira com os irmãos Geraldo e Celito -, que elas não faziam juntas um disco inteiro. “Há três anos começamos a tocar este repertório de brincadeira nos shows. Como o público reagiu bem, resolvemos gravar“, afirma Alzira. As 12 faixas do CD são uma seleção de clássicos da música da fronteira do Brasil com o Paraguai, como Pé de Cedro, de Zacarias Mourão, Chalana, de Arlindo Pinto e Mário Zan, e Seriema, de Nhô Pai e Mário Zan. As duas também fizeram questão de cantar em espanhol a clássica Mercedita, de Samos Sixto Rios, e apresentar versões para as populares índia, Galopera e a faixa-título Anahí. “Optamos pelo estilo mais puro. Infelizmente, o sertanejo que está na mídia é brega e não fala do campo como o repertório antigo. A música do interior foi deturpa­da e o público aceitou“, lamenta Tetê.

A dupla sul-mato-grossense também resgatou canções tradici­onais dos folclores paulista e mineiro. Com arranjos baseados em seus próprios instrumentos – Alzira no violão de náilon e Tetê com a peculiar craviola -, as duas atin­gem o momento mais brilhante do CD como intérpretes nas faixas Serra da Boa Esperança e Mágoas de Caboclo. Esta primeira é tocada como uma guarânia e destaca a letra do genial Lamartine Babo, que além de escrever clássicos sertanejos como Rancho Fundo, também ficou conhecido como o autor de hinos de clubes de futebol como Flamengo, Vasco, Fluminense, Botafogo e América.

Com Tetê se destacando na música de Lamartine com um vo­cal de arrepiar, em Mágoas de Caboclo é Alzira que subverte a com­posição de Leonel Azevedo e J. Cascata – famosa na voz de Nelson Gonçalves – e a transforma num blues. “E a única música que mudamos radicalmente o arranjo. Foi uma forma de mostrar nosso lado mais pop“, acredita Alzira. Mas é o potencial vocal da dupla que fica evidente no disco. Alzira explora mais os tons graves e Tetê prova que nunca esteve em tão boa forma. Como o disco é ao vivo, não existem meios de se maquiar erros e a extensão vocal de Tetê. Atualmente a cantora atinge impressionantes quatro oitavas – o normal são três -, dificilmente alcançadas por cantoras conhecidas como Gal Costa, Zizi Possi e Marisa Monte. “Quero melhorar as notas graves. Mas minha voz e a da Alzira se completam perfeitamente“, garante Tetê, que leva o público ao delírio ao demonstrar técnica para segurar o refrão de Galopera demoradamente.

Tetê e Alzira assinam a produção de Anahí e resolveram lançar o CD pelo selo Dabliú, dirigido pelo empresário Costa Neto e pelo cantor Belchior. Há mais de duas décadas no mercado independente, a dupla já conhece a dificuldade em distribuir discos no Brasil sem uma grande gravadora. Por isso, deixou a distribuição ao cargo da Eldorado. Mas a divulgação de Anahí vai ganhar reforço no segundo semestre, quando a dupla busca realizar um vídeo baseado nas letras das músicas do CD. “Vamos fazer um documentário sobre o povo do Centro-Oeste e montar um show multimídia“, avisa Alzira.

Rodrigo Teixeira
Cult Press • 23/02/99



Cult Press 04 • O reggae de Maxi Priest
Outubro 29, 2007, 11:09 am
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Disco

Camaleão britânico

Maxi Priest é a melhor tradução do reggae contemporâneo. O ritmo mais popular da Jamaica foi fundamentado na virada da década de 60 pelos geniais Bob Marley e Peter Tosh, mas ganha fôlego e novo rumo na voz do cantor britânico. O álbum The Best of Maxi Priest, recém-lançado pela Virgin, prova que é possível reprocessar os velhos elementos do reggae com a moderna música eletrônica. E o mais importante: sem perder a chama básica do suingue. Maxi Priest reúne nas 14 faixas do disco vários estilos musicais que serviram de base para o reggae emergir. Em seu caldeirão sonoro, o cantor de 37 anos, natural da pequena cidade de Max Elliote, subúrbio de Londres, mistura com muito bom gosto ritmos como ska, rithym’ n’blues, funk e balada. Intérprete dos bons e arranjador inventivo, ainda consegue acrescentar com criatividade a dance music ao reggae e chegar a um estilo inconfundível.

É o que percebe-se logo nos primeiros acordes das faixas Waiting In Vain e Get Up Stand Up, ambas sucessos de Bob Marley. Com a participação do guitarrista Lee Ritenour, que praticamente reproduz o arranjo original, o cantor diminui o andamento da primeira faixa e cria uma versão dançante e com um carimbo pessoal de arrepiar. O outro hit de Bob Marley ganha efeitos de teclados e conta com o vocal rasgado do astro jamaicano.

Shabba Ranks é do talentoso Rayvon. O resultado é eletrizante. Com uma letra bastante política, o trio cria uma miscelânea de estilos vocais, unindo a linha melódica tradicional e o moderno hip hop com dezenas de palavras por minuto.

Shabba também atua na faixa As You Walked Away. Com cordas ao fundo e um piano afiado, a canção é certeira para pistas de dança e traz um refrão que cola no ouvido. Além do grupo inglês Brand New Morning, na ótima faixa I Can See Clearly Now, Maxi Priest solta o vozeirão em Set The Night To Music ao lado de Roberta Flack, um dos pilares da música negra da década de 70. O único inglês a liderar as paradas jamaicanas com o reggae My God My King, em 1984, mostra em Set The Night To Music que também sabe fazer canções de apelo comercial mas mantendo a substância.

Mas é ouvindo a faixa Once Again It’s Summertime que pode-se entender porque o ainda marceneiro Maxi Priest – criado no distrito londrino de Lewisham junto com nove irmãos -, ganhou na adolescência a vaga de vocalista no Saxon após fazer algumas caixas acústicas para a banda de Londres. Numa interpretação primorosa, Maxi remete o ouvinte a traços característicos da tríade básica do reggae formada por Bob Marley, Peter Tosh e Jimmy Cliff. Graves e agudos definitivamente não são problemas para ele. Maxi Priest é britânico, mas tem alma jamaicana.

NOTAS

Memória disco

As pistas de dança nem sempre foram dominadas por ritmos eletrônicos pouco criativos como techno ou drum’ n’ bass. A era antecessora, a disco, marcou a década de 70 pela qualidade e trouxe a público alguns artistas que nunca mais seriam esquecidos. É o caso de Donna Summer, uma das rainhas daquela geração, que até hoje é reverenciada pela voz marcante e músicas inesquecíveis. O CD Greatest Hits resgata do fundo do baú as melhores canções de Donna Summer com um importante mérito: a acertada escolha do repertório. Estão lá músicas que fizeram a galera das meias soquete dançar até a exaustão como Last Dance, Hot Stuff, Bad Girls e I Feel Love. Ou a belíssima On The Radio, que até hoje provoca sorrisos furtivos em antigos apaixonados. Da década de 80, o álbum traz o libelo feminista She Works Hard For The Money, música bastante adequada à época que foi lançada, e, do início dos anos 90, This Time I Know It’s For Real – esta já mostrando uma forte influência das características eletrônicas do estilo dance que imperou nas pistas nos últimos anos. Mas, ainda assim, infinitamente superior à maioria absoluta do que se apresenta até hoje. Imperdível.

Boa desculpa

O sucesso alcançado pela ótima trilha sonora do filme Full Monty – Ou Tudo ou Nada serviu como desculpa para se lançar um segundo disco, batizado, de More Monty. Ainda bem. O CD traz músicas que marcaram os anos 70 e 80, como More More More, de Andrea True Conection, Shame, de Evelyn King, e a atemporal Can’t Take My Eyes Off Of You, do Boys Town Gang. Curiosamente, More Monty é lançado na mesma época que as coletâneas de Gloria Gaynor e Donna Summer, divas da mesma era disco. Três trabalhos que mostram aos jovens que é possível se fazer música eletrônica de qualidade.

Erro mínimo

A dançarina Carla Perez resolveu seguir um novo caminho: além do cinema e da televisão, a ex-dançarina está agora se lançando como cantora. Surpreendentemente, o disco de estréia, Carla Perez Apresenta Lamba-eróbica do Brasil, traz um grande acerto: são apenas duas as faixas que mostram a verve cantora de Carla Perez. As outras trazem grupos consagrados do axé music ou de pagode, como Terra Samba com Carrinho de Mão ou a Banda Eva com Arerê. Para quem gosta do estilo, o disco é até bom, mas as músicas com Carla, Rap das Crianças e Fantasia são absolutamente dispensáveis.

GLS

Gloria Gaynor é a rainha da turma GLS – gays, lésbicas e simpatizantes -, a quem faz requebrar há mais de 20 anos, desde que lançou a libertadora I Will Survive. Ainda na ativa, Gloria esteve recentemente no Brasil e fez shows em boates freqüentadas por grupos GLS. Mas a coleção de sucessos da cantora vai além das tribos. Desde a era disco, quando abalou as pistas de dança com versões para músicas como Never Can Say Goodbye, originalmente cantada pela também ótima Thelma Houston, I’ve Got You Under My Skin, eternizada na voz de Frank Sinatra, e Walk On By, dos prolíficos Burt Bacharah e Hal David. Com ótimo repertório e Gloria Gaynor em grande forma, The Anthology só peca mesmo por ser extenso. São 25 faixas distribuídas em dois discos. À primeira vista, pode parecer ótimo. Mas não chega a ser um mérito ter a canção-título repetida duas vezes, sendo uma delas numa remixagem pouco interessante. Além disso, muitas das outras canções estão unidas em medleys, o que descaracteriza o CD como resgate de obra de um artista para torná-lo pretensamente adequado às pistas de dança. Mas apesar disso, Gloria vai sobreviver.

Rodrigo Teixeira
Cult Press • 23/02/99



Cult Press 03 • ‘A Força Que Nunca Seca’ de Maria Bethânia
Outubro 28, 2007, 6:46 am
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Disco

Reciclagem eterna

O tempo parece não fazer efeito sobre Maria Bethânia. Ou seja: no álbum A Força Que Nunca Seca, recém-Iançado pela BMG, ela repete a fórmula de seguir uma linha bem definida. Mesmo que não seja lá uma grande linha. O estilo conceitual e o romântico, já usado nos bons As Canções que Você Fez Para Mim, de 96, e Âmbar, de 97, continua no novo CD. Mas desta vez a cantora baiana cai no lugar-comum ao tentar imprimir um tom interiorano as 14 faixas de A Força Que Nunca Seca. Maria Bethânia mostra um repertório irregular, cheio de obviedades e, o pior, com regravações que perdem de longe para as versões originais.

Trenzinho Caipira, composta em 1930 por Heitor Villa-Lobos, com letra de Ferreira Gullar, e Luar do Sertão, de Catulo da Paixão Cearense, não causam impacto. Com a primeira mesclada a versos de Ascenso Ferreira – que diz “vou danado pra Catende” – e a segunda acoplada ao poema Azulão, de Manuel Bandeira, Bethânia mais uma vez prova que sabe declamar como ninguém. Embora não deixe de copiar vários artistas – como Ney Matogrosso no CD O Cair da Tarde -, com o recurso onomatopéico. Usar o texto de Ascenso para imitar o som do trem já é mais do que batido e desnecessário, pois não acrescenta nada à canção.

Em mais quatro canções Maria Bethânia não mostra força criativa. É o caso de Espere por Mim Morena, do falecido Gonzaguinha, e Gema, de Caetano Veloso. Na música do irmão – que foi escrita por Caetano depois que Bethânia relatou a ele uma visão de uma bola de luz em cima da mata -, a cantora deixa clara a opção em seguir a tendência sono­ra explorada por Caetano desde Livro, de 1997, em que ele une o estilo de percussão baiana com elementos da música pop.

Já em As Flores do Jardim da Nossa Casa, de Roberto e Erasmo Carlos, Bethânia deixa escapar toda o clima soul que envolvia a composição da dupla para tornar a faixa um pastiche romântico. Em uma das únicas incursões pelo repertório já grava­do por Elis Regina, Bethânia ten­ta emprestar um ar litúrgico à clássica Romaria, de Renato Teixeira. Nem os vocais de dois monges verdadeiros chegam a ofuscar a versão de Elis.

Mas nem tudo é desacerto no CD. Incrivelmente, É o Amor, do brega Zezé Di Camargo, ganha força na voz da cantora e até se transforma numa canção interessante. Apesar de ser prejudicada – como todo o disco -, por um ar­ranjo de cordas sem criatividade do americano Graham Preskett. Na verdade, o melhor do CD são as inéditas. Não Tenha Medo, de Miltinho Edilberto, Eu Queria que Você Viesse, de Marisa Monte e Carlinhos Brown, e a faixa-título A Força que Nunca Seca, de Chico César e Vanessa da Mata, são um verdadeiro oásis no deserto sonoro do novo disco de Bethânia.

Notas

Mestres do tambor

Festejando mais de duas décadas de existência, o Ilê Ailê lança pela Natasha Records o novo álbum 25 anos. Ao contrário da maioria dos blocos baianos que se aproximam cada vez mais da música pop, o Ilê Ailê mantém-se fiel à tradição da cultura africana, tanto que até hoje não permite que brancos desfilem com o bloco no Carnaval. Com produção de Arto Lindsay e participações de Daúde e Milton Nascimento, o disco do Ilê Ailê traz 14 faixas embaladas apenas por vozes e percussão. Esta, por sinal, conduzida com maestria por Marinalvo Paim e Band’Aiyê. A percussão do bloco é uma verdadeira escola de samba, com direito a paradinhas geniais extremamente difíceis de se realizar. As vozes dos cantores Guiguio, Graça, Reizinho, Cristiano, Altair e Adelson também são uma prova da originalidade do bloco. Responsável pela fagulha que abriu o caminho para a hoje institucionalizada axé-music, o bloco Ilê Ailê é, sem dúvida, imensamente superior ao banal som produzido pêlos inúmeros grupos que invadiram a mídia brasileira nos últimos anos. Destaque para O Mais Belo dos Belos, uma verdadeira aula de melodia e ritmo.

Som batido

Ao escutar as 12 faixas do disco Honey to the B é difícil engolir que o álbum da inglesinha Billie “é um dos mais completos discos pop de 99″, como insiste em classificar a gravadora Virgin. Tudo bem que a menina tem um rostinho bonito e uma voz afina­da. Mas os atributos – os bons, pelo menos – param por aí. O disco é parecido com inúmeros lançamentos de bandas pop que deságuam no mercado inglês e americano e, definitivamente, não traz nenhuma novidade a cena pop atual.

Dose dupla

Gian e Giovani lançam disco duplo, com inúmeras 19 faixas, gravadas ao vivo para 60 mil pessoas em Franca, cidade paulista onde a dupla iniciou na profissão. Balizado com o nome da dupla – o verdadeiro é Aparecido e Marcelo -, o CD traz sucessos dos cantores como Nem Dormindo Consigo Te Esquecer e Me Dá um Beijo. Afinadinhos, os dois conseguem um disco bem-produzido, com um som de boa qualidade e uma banda bem ensaiada. Mas nem isso consegue salvar a dupla de parecer clones de Zezé di Camargo e Luciano. A versão para Codinome Beija-flor, de Cazuza, é correta, mas sem o menor carisma. O CD pode agradar os fãs, mas dificilmente vai conquistar novos admiradores.

Volta triunfal

Só a possibilidade de ouvir a voz da louríssima Debbie Harry em ação novamente já vale o novo disco do Blondie. No Exit, lançado pela BMG, é o sétimo álbum do grupo fundado, em 1974, nos Estados Unidos. Uma das primeiras bandas que fez a mistura do rock com o ska, já rotulada de new wave na década de 80, o Blondie apresenta 13 faixas inéditas e uma regravação. Após 16 anos sem nenhum lançamento, a banda prova que continua a mesma e não se deixou influenciar por ritmos que ganharam força nos anos 90, como o hip hop e a dance music. Com os quatro integrantes da formação original – Debbie Harry, Chris Stein, Jimmy Destri e Ciem Burke -, o Blondie investe em levadas pesadas de bateria, teclados com timbres siderais e melodias contagiantes. Criador de sucessos como Call Me, da trilha de Gigolô Americano, e Sunday GirI, o grupo também deixa transparecer a importância da vocalista na liderança. Debbie, ex-coelhinha da Playboy e ex-garçonete do Max’s Kansas City, está com uma interpretação mais sensual, provocante e ainda inconfundível. Destaque para a ramoneana Nothing is Real But the GirI e a balada Night Wind Sent.

Rodrigo Teixeira
Cult Press • 02/03/99



Cult Press 02 • O bamba Walter Alfaiate
Outubro 27, 2007, 3:32 am
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Um bamba sob medida

De chapéu de palha branca na cabeça, em frente à máquina Singer negra, Walter Alfaiate bate com grande categoria no tamborim. Também conhecedor dos se¬gredos do corte e costura, o cantor de voz gravíssima e compositor já gravado por Paulinho da Viola, Elza Soares e João Nogueira jamais perde a elegância e o humor genuinamente carioca. No peque¬no quarto e sala que mora em Copacabana, no Rio, em meio a carretéis, linhas e quadros do escrete do Botafogo de Nílton Santos e Garrincha, Walter faz questão de aumentar o volume do aparelho de som para escutar Olha Aí, primeiro CD em mais de cinco décadas de carreira.
Adoro todas as faixas, pois gravei o que gostava de cantar. Além disso, o time de músicos é uma seleção e em um mês o CD estava pronto“, orgulha-se o bamba de 68 anos.

Com a ajuda de feras como o pianista Cristóvão Bastos, Alceu Maia no cavaquinho, o baixista Jamil Joanes, e o baterista Wilson das Neves, Walter prova nas 14 faixas do CD que é seguidor legítimo da escola dos maliciosos Cyro Monteiro e Roberto Silva. O álbum lançado pela Alma Produções, que tem Aldir Blanc como um dos diretores, serve para com¬provar que Walter tem a voz do porte de sambistas como Jamelão e Zé Kéti. Ou mesmo evocar cantores díspares como Nelson Gonçalves, Vicente Celestino e Jackson do Pandeiro. “Meu tipo de samba é o sincopado, mas canto de tudo: de seresta a valsa“, gaba-se sobre a bancada que o apoia há 25 anos em sua alfaiataria. Separado há seis anos da terceira mulher, ele também usa o local de trabalho como moradia para não ter de pagar aluguel extra. “Talvez com o CD, consiga fazer um pé-de-meia“, torce o sambista, que é pai de três filhos oficiais “fora as denúncias“, como gosta de dizer.

Entre as músicas que escolheu para o álbum, Olha Aí, que batiza e abre o CD, já tinha lugar garantido. É que há 30 anos, Walter fez a promessa aos amigos e composi¬tores Mical e Miúdo – este falecido no ano passado -, que iria gravá-la em seu primeiro disco. “O Mical veio pegar o CD uns dias atrás e chorou bastante“, conta emocionado o Magnata Supremo da Elegância Moderna, modo que se autodefine em seu cartão de vi¬sitas. Em algumas interpretações, Walter aproveita as letras para re¬velar o período da vida pelo qual passa. “Adoro Menina da Liber¬dade pela idade que tenho“, destaca. O refrão da canção de Sereno e Nei Lopes justifica a preferência: “tu me enches de vontade e depois muda de conversa. Tenha dó, por caridade, que eu já tenho idade à beça“.

Além da clássica Sacode Carola, gravada por Cyro Monteiro, Wilson não desperdiçou a oportunidade de gravar a primeira parceria entre Paulinho da Viola e Aldir Blanc. Botafogo, Chão de Estrelas é resultado de várias horas de conversa de Walter com Aldir Blanc, que transformou o bate-papo em letra e recebeu uma melodia estilo samba-enredo de Paulinho. A composição descreve o bairro carioca de Botafogo de décadas passadas e cita os compositores do local, como Mauro Duarte, Zorba Devagar – parceiros de Walter -, e Jair Cubano. “Era um celeiro de sambistas internacionais. Tristeza, de Niltinho Tristeza, nasceu em Botafogo“, lembra o fundador de blocos como Foliões de Botafogo, Gaviões, Sem Rival e a hoje escola de samba São Clemente.

Walter Nunes de Abreu, batizado nos anos 70 como Walter Alfaiate por Sérgio Cabral e Paulinho da Viola, tira o chapéu para a produção e a direção musical de Rildo Hora para o seu CD. E com o lançamento do álbum previsto para o próximo dia 15, no Teatro Clara Nunes, no Rio, Walter começa a vislumbrar a possibilidade de abandonar o ofício que aprendeu aos 14 anos e se dedicar à carreira de cantor. Para o sambista, a profissão de alfaiate está em extinção, já que ele procura um ajudante há meses e não encontra. “Hoje as pessoas vão a casamento de jeans“, conclui Walter, que cobra em média R$ 350 para fazer um terno. O que ele tem certeza que nunca vai acabar é o samba. “O samba agoniza mas não morre“, cita a frase do amigo Nelson Sargento, que participa do CD. Já começando a acreditar nos bambas que sempre disseram que ele tinha futuro na música, Walter se prepara agora para superar o medo de avião, caso tenha de realizar shows em cidades distantes do Rio. “Dizem que vou adorar. Tomara“, torce o sambista.

Por Rodrigo Teixeira
Cult Press • 02/03/99



Cult Press 01 • Hieróglifos baianos de Gil
Outubro 26, 2007, 1:59 pm
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Ensaio Geral traz nada menos do que 142 faixas que revelam os dez primeiros anos – 66 a 77 – da carreira de Gilberto Gil. O conteúdo substancial do material lançado pela Universal é o mergulho mais profundo que uma gravadora já realizou em torno de um artista brasileiro. São 11 CDs, na qual encontram-se os seis álbuns oficiais renovados com faixas extras, quatro discos inéditos – dois solos – e ainda um CD single bônus. Ensaio Geral vai ter 10 mil cópias a um preço de R$ 290. “A caixa é um sítio arqueológico bem delimitado“, define o baiano de 56 anos.

O material preparado pelo jornalista Marcelo Fróes levou quatro anos para ser finalizado e é um misto de registros de shows, res­tos de gravações para discos ofi­ciais e trabalhos que o cantor baiano fez no período do exílio lon­drino. Entre as raridades estão a versão original de Sarará Miolo, com Nara Leão, e a inédita Brand New Dream, que faria parte do álbum inglês que Gil abandonou ao voltar do exílio em 72. “A caixa representa a minha história, os rumos que quis tomar e o que rejeitei“, acredita o ganhador do Grammy com Quanta Gente Veio Ver, eleito o melhor CD de word music de 98.

Ainda tratando de um pólipo, conhecido como calo, nas cordas vocais, Gil vibra com a possibilidade de reavaliar as etapas de seu desenvolvimento como músico. No inédito Satisfação, por exemplo, Gil reconhece que nunca es­teve tão perto de se tornar um ro­queiro, influenciado pelas sessões que ele participava em Londres. “Toquei com David Guilmor, do Pink Floyd, entre outros. Eu fi­cava pelas ruas viajando de LSD“, confessa o cantor.

Rodrigo – Ao ouvir o material da caixa, você tem vontade de voltar no tem­po e mudar algo?
Gil – Não, porque Ensaio Geral me dá a idéia do artista em formação. E uma sensação que não vou me aperfeiçoar nunca e nem superar alguns limites. Encaro esta caixa como lâminas de microscópio. E aí vêm as questões do envelheci­mento e da espontaneidade. Especialmente com os objetos recusados por não terem obtidos, já na­quela época, padrões mínimos de qualidade. E esta “desqualidade” é muito reveladora por mostrar o que se podia obter na época. A caixa representa a minha história, os rumos que quis tomar, o que re­jeitei. O tipo de visão que eu tinha sobre o significado de lançar um disco. A caixa é um sítio arqueológico.

A caixa recupera o CD inédito Cidade do Salvador. Por que você não concluiu este projeto?
Porque o substituí pelo Ao Vivo, gravado no mesmo ano de 74. A faixa Essa é Pra Tocar no Rádio, que estava no Cidade do Salvador, foi a única remanescente que gravei no Refazenda, já na WEA. Não lembro mais porque lar­guei. Talvez porque o Cidade do Salvador estivesse muito experimental. Os músicos do disco, o Rubão Sabino e o Aloysio Milanez, adoravam o estilo livre de tocar.

No exílio, na virada dos anos 60, você chegou a pensar em enveredar pelo rock, como já mostrava o CD Satisfação revelado agora pela caixa?
Acho que sim, mas virei um in­terlocutor entre o rock e a MPB. Toquei em sessões com o David Guilmor, do Pink Floyd, com o Mud Blues e o Jim Capaldi, bate­rista do Traffic. Era uma turma que freqüentava bares importantes, se­minais do rock, que eram a King Club, a Revolution, a Speak Easy e a Rolling Scotts. Tinham outras, como a ICU, onde vi na véspera de Natal de 71, o show da Yoko e do John Lennon com a Plastic Ono Band. Se ficasse mais, é possível que esta turma me arrastasse para o rock, porque não era capacitado musicalmente a me tornar um jazzista.

Fica nítido em algumas faixas, como em A Última Valsa, que você teve experiências com drogas. No exílio, você entrou mais fundo nesta questão?
Sem dúvida. Em Londres, eu ficava pelos lugares, perdido nas viagens de LSD. Mas a minha pri­meira experiência com ácido foi aqui no Brasil, antes de ir para Lon­dres, com o falecido bailarino Leny Dale. A droga era apenas um in­grediente daquela cultura. Quem queria passar por dentro dos tú­neis de seu tempo, tinha de sair do estado comum de consciência para os estados transformados. Já a macrobiótica fazia a negação das drogas. E eu tomava ácido e fazia macrobiótica. Comecei a largar as drogas quando elas faziam muito mais ruído no meu corpo do que silêncio na minha mente.

Sobrou algum material inédi­to do material pesquisado?
Uma música que não descobri­mos o autor: Rato Miúdo. Foi gra­vada com a banda do Caetano para a trilha da novela infantil do Sítio do Pica Pau, em 76.

Entre os 11 discos da caixa tem algum que seja mais revelador para você?
Louvação. Porque ele é muito simbólico. No dia que teve o incên­dio na tevê Record, no ano de 66, a rádio da emissora estava trans­mitindo Louvação. Os dois estúdios ficavam no mesmo lugar. Nos dias seguintes, a música virou sím­bolo da resistência da Record. No programa Fino da Bossa, apresen­tado por Elis Regina, todos queriam saber quem era o compositor. Louvação foi a música que me tornou conhecido.

Você gosta mais dos CDs ao vivo. A premiação do Grammy re­forçou esta preferência?
E lógico. O Grammy para o Quanta Gente Veio Ver premia o disco feito de verdade, com os músicos quebrando tudo. Fiquei sabendo que o troféu vai chegar para mim só daqui a um mês. O que aparece na festa é um protótipo. Só depois vai para a fábrica. Mas não tenho pressa nenhuma. Um menino de rua perguntou onde que iria ficar o caneco. O troféu vai ficar lá em casa ou em outro lugar. Os meus cinco discos de ouro e o único de platina, por exemplo, estão no banheiro do meu escritório.

Rodrigo Teixeira
Cult Press • 09/03/99