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FOGO NA ROUPA
Sexo, drogas e rock’n roll
Ele abriu os olhos às 11h11. Sentia os sintomas por ter virado mais uma noite. A boca tinha gosto de guarda-chuva e a cabeça pesava. O estômago clamava por algo. Aos poucos, começou a se mexer na gigantesca cama. Não queria sair dali. Esticou a mão até o cinzeiro de cristal de murano e pegou a ponta sobrevivente da balada do dia anterior. Antes, deu um gole no frasco marrom para acalmar a gastrite. Virou-se para o grande espelho atrás da cama e acendeu a baga. A fumaça foi se espalhando no amplo quarto e o gosto da canabis aqueceu o gelado que o remédio leitoso deixara na língua. Olhando os feixes de luz que escapavam das frestas da janela, percebeu suas roupas jogadas na luxuosa cadeira avermelhada. O anel de prata em cima da carteira fina. As botas estavam caídas ao lado de dois copos com restos de blood mary. Se esforçou para lembrar como havia tirado as pesadas botas e com quem não teve tempo de matar seu drinque preferido. Além da rebordosa, já era comum a amnésia após as baladas.
Caminhou pelado até o banheiro da suíte. Feriado, não escutava os carros na rua. Nada de buzinas, apitos, freadas. Silêncio. Viajou no barulho do chuveiro e no rastro que as gotas d’água deixavam no vidro fumê. Permaneceu em transe durante demorados segundos. Ponto-morto. Não pensava em nada. Vislumbrava. Aos poucos, as imagens dos campos a perder de vista formaram-se na sua cabeça. Um mar verde de terra que engolia o mundo e que transformava gente, em grão. Via um filme. Um sol prata. Uma lua dourada. Um açude marrom. Tentou ouvir alguma movimentação, mas tudo parecia na santa paz. Quebrou a ponta de dois frascos de vitamina A e jogou o líquido oleoso no cabelo. Carequice, definitivamente, não combinava com rock’n roll. Ficou por um tempo sentindo o cheiro do shampoo de algas com o nariz encostado na ponta do pote aberto. Estava exausto e com sede.
Resolveu raspar a barba já crescida. Ao pegar os apetrechos, encontrou uma folha do bloco de recados em cima da portentosa pia branca de mármore. A boca de batom impressa no papel assinava o pequeno texto de caligrafia exemplar: ” Não pude esperar. Valeu a balada. Me liga”. A noitada passou na sua mente. Deu um sorriso e jogou fora o papel. Havia, finalmente, acordado. Pegou a toalha branca enorme e saiu para atender o maldito ramal interno do telefone. Molhou o carpete macio.
Atendeu.
- Oi.
- Acordou?
- Ahan.
- Então sobe. Quero te mostrar uma coisa muito, muito, muito… hum… você vai ver.
Cacá levantou a cortina e o quarto se iluminou. Do décimo-primeiro andar, apreciou o visual. O azulão do céu de brigadeiro contrastando com o esmeralda das copas das árvores na rua. Pôs o rosto para fora e viu uma das meninas da noite anterior saindo rapidamente pela portaria do prédio e embarcando em um táxi. Encostou a porta sem pressa e ouviu o interfone tocando no quarto ao lado. Seguiu pelo pequeno corredor, entrou na sala e foi para a cozinha. Bebeu três copos de água e aqueceu no microondas o leite para misturar ao café. Era o máximo que conseguia ingerir logo após acordar.
Foi até a mesa redonda da sala e sentou em uma das seis cadeiras. Colocou um biscoito de polvilho na boca antes do café com leite. Percebeu que alguém havia deitado há pouco no sofá de couro e remexido as almofadas. Aproveitou para tomar uma aspirina americana que estava há dias no bolso da camisa. A última coisa que queria era uma dor de cabeça. Foi até a cozinha, deixou a caneca na pia e subiu a pequena escada de degraus pretos que levava ao andar de cima.
- Oiiii. Ei, heyyyy!!.
Debruçou-se na mesa de sinuca e não viu ninguém por ali. A sua palheta estava presa nas cordas já gastas da Gibson Lês Paul preta. Modelo 76. A flanela laranja envolvia o braço da guitarra. As persianas da sala imensa do segundo piso continuavam cerradas, como de costume, apesar do sol de inverno lá fora. A televisão de muitas polegadas exibia imagens sem som. O ventilador de teto imóvel. Foi para o confortável sofá em L que ficava no mezanino e aí a surpresa.
Ela estava sentada no chão, só de calcinha e camiseta branca. Tinha as pernas grossas e os seios estufavam o algodão. Parecia domada. Detalhe, o braço direito algemado ao pé do sofá em L. A moça levantou a cabeça com um cigarro na boca. A cara estava mais para uma noite de bebedeira e cheiração do que sexo bem feito. Arfava.
- Tem fogo gato?
- Só lá no quarto.
- Vai pegar para mim. Por favor.
O desaparecido surgiu na sala.
- Ahann… achou a surpresa hein?!? É o que falo, meu caro! As mulheres sempre sabem o que querem. Umas mais, outras menos. Mas sabem. A sua companheira foi embora logo de manhãzinha, por exemplo. Parecia feliz da vida. Já a nova sócia aqui deu um verdadeiro show depois que vocês se retiraram. Um sh-ow, meu caro.
- Dá pra algum dos dois cavalheiros acender meu cigarro?
- Uau! Não digo. As mulheres sempre sabem o que querem, meu caro. Mademosele, estou aqui para concretizar seus pedidos e fazer todas as suas vontades. Antes, porém, vou preparar para nós mais um Fode-motorista. Você não vai sair daí né?
- Pelo amor Deus, preciso acender meu cigarro. Nesta situação, é o mínimo. Você pode até ser recompensado…
Hanny respondeu rispidamente:
- Não me venha com gracinha.
Aceso o cigarro…
- Estou com uma fome danada. Vamos sair, meu caro. Chama o Nelsinho. Ele dormiu aí. Nem te digo! O cara não pode mais beber que fica bobo, babando em cima da gente. É um vexame para o nosso clube. As garotas não acreditaram. Além disto é do tipo que fica apaixonado, dá beijo na boca, já quer casar, levar para morar em casa, constituir matrimônio, colocar anel, se encoleirar. Depois, fica valente…
Chega o fiasquento.
- Vocês estão falando de mim é? Tô novinho em folha e adorei a baby de ontem. Alguém pronunciou a palavra comida quando estava subindo a escada?
Hanny se anima.
- Vamos aonde rapazes?
- Churrascaria. Com polenta frita saindo na hora. A gente podia apertar mais um para ficar com aquela fome a-ni-mal. Deixa comigo.
Cacá começa a bolar um. Nelsinho senta ao lado da moça de pernas grossas.
- Ei? Olha a mina ainda aí? Caraca, não acrediiiito…
Hanny vai pegando as chaves.
- Meus caros, vamos para a churrascaria. Na volta me entendo com a nova sócia. Ela tem umas idéias revolucionárias e adoro isso. Com tantos anos nas costas e me surpreendendo com esta juventude.
- A amiga dela não quis subir. Saiu batida. Queria até ficar, mas falei que tenho que ir para a minha área. Esta festa para comemorar o último ensaio começou há quatro dias, esqueceram? Tenho que aparecer lá no meu pedaço.
Cacá acende o fino e propõe a Nelsinho:
- Vou contigo. Na boa?
- Claro. A gente faz um som no Rica e depois sai a pampa. Vamos para a pracinha e de lá, só Deus sabe.
- Vou comer feito um rei. Vocês estão lembrando que ontem a furona da Julinha não apareceu lá no ensaio como o prometido, né. Ela já está nos devendo esta e isso é bom, porque ela vai querer pagar dobrado. A última festa na casa dela saí de gatinho.
Nelsinho se enerva.
- Passa mané que sou o Pelé. Na tabelinha porra!! Vamos nessa, vamos nessa… Aí? Libera o habeas corpus para a menina, ok? Ela é da casa da Santa né?
Nelsinho encara a garota.
- A sua amiga me falou do que você gosta! Te entregou. Quem diria com um rostinho destes, hein, adora um maltrato. Não podia ter parado em melhores mãos né tio Hanny. Me joga na parede, me chama de lagartixa…
Nelsinho ri esquisito e passa a bola para Hanny.
- O cara colhe informações clandestinamente e ainda quer liberar o alvará de soltura da tomadora de uísque. Meus caros, ela derrubou uma garrafa de Jack Daniels depois que vocês se recolheram e fez loucuras em cima desta mesa. A coreografia que ela criou para o nosso blues já virou uma lenda. Pena que só eu tenha visto.
Hanny vai colocando a jaqueta.
- Meus caros, escutei os dois ensaios milimetricamente junto com a minha companheira de copo. Está perfeito. Aliás, tenho sempre a impressão que vocês me passam pra trás. Vocês ficaram com duas gostosas e olha só o que sobrou para mim. Brincadeirinha… Um minuto… estou pronto!!! Vamos, vamos…
Nelsinho segura Hanny.
- E ela?
- Ela tem a chave, meus caros. Vocês são uns bobões mesmo. É como digo: as mulheres sabem o que querem!
* O livro Fogo na Roupa pode ser lido também no site A Fábrika!
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Os irmãos TT, Alzira e Jerry estão voando rio Cuiabá abaixo neste momento. A caravana náutica tem um diário eletrônico e podemos acompanhar o dia-a-dia-noite-a-noite da tripulação pelo blog de bordo!
Com este projeto, TT e a trupe concretizam o sonho de muita gente do Matão que é descer os rios da região de Chalana conhecendo as populações ribeirinhas e cidades próximas aos rios Cuiabá e Paraguai (este que aparece na foto acima e ponto final da viagem-espindolania).
Quem for esperto vai estar lá em Corumbá para presenciar o show que finaliza o projeto no dia 9 de julho!
Daqui mando vibrações positivas para toda a tropa!
Salve a Música Brasileira-do-Sul-e-do-Norte-Matogrossense!
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Fiz duas matérias com o Bussunda na época em que trabalhei na TV Press. A primeira foi um longo papo. Era 1998. Lembro que cheguei para a entrevista no escritório que eles tinham em Botafogo, em uma simpática vila no final da Real Grandeza com a São Clemente (onde depois virou e e é até hoje a sede da TV Press) e o Bussunda estava em sua mesa de trabalho. De cara, vi que tinham algumas ?baganas? no meio da papelada. No final da entrevista não resisti e perguntei: ?Bussunda e estas baganas? Pode?? E ele: ?Se não tiver não sai o programa!?.
Já em 2000 fiz esta matéria que está abaixo e que vou colocar apenas o bate-bola. Bussunda se gabava de estar mais magro, só com 120 kg. Foi no Projac, durante a gravação do programa e Bussunda como sempre tímido e falando baixo. Bussunda foi para o andar de cima e vai deixar saudades. Era o homem de frente do Casseta, o grupo que revolucionou o humor brasileiro na televisão e que agora está pronto para ser ?revolucionado? pelos novos!
Rodrigo Teixeira – O Casseta & Planeta está completando dez anos. Até que ponto o grupo depende do programa?
Bussunda – Se o programa acabar, provavelmente faríamos um filme por ano, montaríamos um espetáculo para correr o Brasil e pelo menos mais dez anos de fôlego a gente teria. Isso sem ir para outra emissora. Porque já somos famosos. Quando a gente também estiver muito feio para aparecer na tevê, continuaremos como autores de humor.
RT – Nunca houve a real possibilidade de algum dos integrantes deixar o Casseta?
B – Não. Já aconteceu de o grupo querer expulsar alguém. Mas a gente é espada. Resolvemos as coisas no grito, com tapas na mesa. Falta o componente da viadagem que faria alguém pular fora do grupo. Ninguém fica magoadinho. Viemos de uma amizade antiga e gostamos do nosso trabalho. Mais das realizações do que da fama. A nossa ligação é com o humor bem-feito. Estamos num período de ?vacas magras?, mas todo mundo adora quando gastamos uma fortuna para fazer uma piada babaca. Isto dá um grande prazer!
RT – Como você se prepara para fazer imitações, como do Ronaldinho, Manoela, ACM…?
B – Sou espada e não faço essas coisas de laboratório. Quando é a primeira vez, dou uma olhada em fitas que a produção manda. Normalmente pego só um detalhe da pessoa. O que faço é uma caricatura. Pego uma entonação e pronto. Que nem a Helena, da Vera Fischer em Laços de Família. Só imitei o suspiro dela e o resto era eu. Até hoje, é a imitação que mais deu retorno com o público. A maioria dos atores e autores falam que adoram nossas paródias.
RT – E por que Semelhança (paródia da novela Esperança) não foi mais ao ar?
B – Porque Benedito Ruy Barbosa pediu à direção da Globo e nós tivemos que acatar. Não entendi, pois em Terra Nostra também fizemos. Nunca bolamos piada com o intuito de ofender. É para as pessoas rirem. Faltou humor ao Benedito. É um equívoco da Globo não deixar Semelhança ir ao ar porque as paródias atraem público para a produção.
RT – Não falta uma maior renovação do humor na tevê atual?
B – A força que a gente dá para os novos humoristas é mandar matar, pois não queremos concorrência (risos). Falando sério, na nossa home page tem alguns novos grupos, como o Garagem e o Fala Sério, que estamos dando uma força. Sei que na MTV tem o pessoal do Hermes e Renato, o Sobrinhos do Ataíde… Na verdade, buscamos a renovação o tempo inteiro e jogar como o Romário, que é usar a experiência a nosso favor. Um dia ainda vai ser superado, mas enquanto pudermos ?matar? os concorrentes, vamos continuar.
RT – Qual o limite para se fazer uma piada na Globo?
B – Cada caso é um caso. O nosso desafio sempre foi estender os limites seja onde for. Sempre forçamos os limites da própria Globo. Estreamos na emissora no carnaval de 1990. Lembro que não podia pronunciar a palavra bunda, então a gente falava ?vamos escolher o melhor lombo do carnaval?. Lá pelas duas horas da manhã, ao vivo, a gente falou: ?Estamos escolhendo o melhor lombo porque não podemos falar bunda?. Aí o Boni ligou: ?Gostei, ficou engraçado. Pode falar bunda?. Aí comemoramos. ?Porra, liberamos a bunda na Globo?. Confesso que temos orgulho de estar há dez anos na Globo e até hoje as pessoas perguntarem como a emissora deixa.
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Recebi com entusiasmo recentemente o CD Afropolca 2. Mais enfurecido e melódico que o primeiro Afropolca, de 2005, o novo disco que me chegou as mãos com outros que ganhei e comprei durante o Festival América do Sul é cheio de temas instrumentais de muito bom gosto, alma guitarreira e técnica impecável. A sensação é que se está escutando a versão paraguaia de Jeff Beck.
Conheci esta figura em dezembro de 2004. Quando fui tocar em Assunção. O nome: Rolando Chaparro!
Primeiro o cantor e compositor Hugo Ferreira, proprietário do Bar La Trova, me falou que tinha uma amigo que escutou o meu disco Polck e havia ficado entusiasmado: ?É o mesmo som que eu faço. Quem é este cara?? Hugo disse que Rolando iria ao show do Gira Palermo, que dividiria com Olho de Gato, Flou, Revolber, Banana Skins, Gaya e os amigos do Paiko. Pouco antes de subir ao palco para fazer o primeiro e muy sonhado show em Assunção, em um até então inatingível Paraguai, lembro dele chegar vagarosamente e me enquadrar: ?Sou o Rolando. Tudo bem cara??
Conversamos rapidamente e ele sumiu. Já no meio do show, bastante emocionado com a boa reação do público, percebi que Rolando chegou a frente do palco, encostou no alhambrado e escutou atentamente o que eu, Pedro Ortale, Anderson Rocha, Fabinho Brum e o intrépido Fernando Bola estávamos tocando. Era polca-rock! Pela primeira vez importada diretamente do Sul do Mato Grosso para Assunção. E o link estava feito. No outro dia, Rolando chegou tarde ao La Trova e eu já havia encerrado o show. Ele pediu para Hugo colocar o CD novo que estava gravando: o Afropolca. Bom aí, já estava nítido que não era simplesmente eu e Rolando, mas Rolando e nós!
Todos os músicos do MS que se envolveram com o som ternário revestido com uma linguagem POP, pós-Prata da Casa, com menos de 45 anos, são irmãos deste cara de fala rápida. A diferença é que ele é nosso irmão puro-sangue. Rolando é paraguaio legítimo, envolvido em injetar adrenalina na música tradicional paraguaia desde a década de 80. E começou a compor as suas afropolcas também em meados dos anos 80, como Jerry, eu mesmo e Caio Ignácio. Faziamos a mesma coisa, sem se conhecer.
Rolando integrou a banda de Palito Miranda no início da década de 90. Cito isto porque é ilustrativo. Rolando participou como guitarrista do disco do saxofonista paraguaio batizado de Polka Blues e contribuiu com quatro composições (Un Poco de Rio, Como Sabrás…, Sobre Mambo e Ojavéva). Neste cd, gravado em 1994, tem releituras jazzy de clássicos como Índia (José Asunción Flores) e Danza Paraguaya (Agustín Pío Barrios), além do sugestivo tema Polka Blues, do próprio Palito. É bom salientar que houve no Paraguai um movimento de músicos que faziam a fusão dos standars da música tradicional paraguaia com o jazz e Palito talvez seja a maior expressão.
Ou seja, Rolando está totalmente envolvido com a fusão dos ritmos paraguaios com uma linguagem nova e moderna. E tem história pra contar. Além disso, é revolucionário e tem um teor político grande em suas letras e ações (o que os integrantes da polca-rock de MS perdem dia após dia). Somente o fato de ter se aproximado e gravado (registrado historicamente) com os Tamborileros Del Kamba Kuá (percussionistas de um bairro assunceno que é uma espécie de gueto dos poucos negros que restaram no Paraguai. Se não me engano, só existem 2 mil atualmente no país de seis milhões de habitantes) já dá uma mostra do tipo de cabeça que este cara é.
Depois, naquelas horas em que não se está fazendo porra nenhuma, cheguei a conclusão que além da afinidade de propostas musicais e nossos nomes começarem a mesma letra (R), temos nomes artísticos com o mesmo número de letras (15):
RO LAN DO CHA PA R RO
RO DRI GO TE I XE I RA
Bom, mas vamos a entrevistaaaaaaa! Rs
ENTREVISTA ROLANDO CHAPARRO
POR RODRIGO TEIXEIRA
RODRIGO TEIXEIRA – QUANDO VOCÊ COMEÇOU A PENSAR NA FUSÃO DA MÚSICA TRADICIONAL PARAGUAIA COM UMA LINGUAGEM MAIS POP? COMO ISSO SURGIU?
ROLANDO CHAPARRO – La idea mia de trabajar en la fusion de la musica folklorica paraguaya con otros ritmos es algo que lo vengo realizando desde mediados de los años 80, una epoca mucho mas dificil, en cuanto comprension se refiere, por que he tenido mucha resistência (muchisima mas que ahora, que todavia la hay), pero es algo que esta en mi desde hace rato, por que se trata de unir las cosas que mas amo que son mi cultura paraguaya con la musica que tambien es parte de mi generacion como el rock, jazz, blues…
RT – VC É UM DOS POUCOS MÚSICOS QUE SE DISPÕE A FAZER A FUSÃO DOS RITMOS DO PARAGUAI COM O ROCK. POR QUE?
RC – No soy el unico, talvez sea uno de los pocos y uno de los que mas fue constante en esto, por que hubieron otros que empezaron pero desistieron con el tiempo. Ya en los años 70 hubieron musicos que fusionaron esta musica con el jazz (Carlos Shwartzman por ejemplo) pero fue dentro de un contexto mucho mas elitista mas tendiente a un tipo de gente que escucha solo esta musica. Creo que con la version de “Reservista Purajhei” (disco “Pasaje al mas aca” (Krhizya) de 1997 el trabajo mio de fusionar con una vision mas rockera esta cancion se volvio definitivamente masiva. A partir de la experiencia de “Reservista” empezaron a surgir otras bandas y musicos que empezaron a interiorizarse mas en este tipo de trabajo, sacando otras versiones de canciones folkloricas etc. Pero compositicvamente es algo que ya lo he hecho mucho antes de “Reservista”.
RT – ATÉ QUE PONTO A FORTE TRADIÇÃO DA MÚSICA PARAGUAIA REJEITA A RENOVAÇÃO MUSICAL DO PAÍS? VC SOFRE PRECONCEITO COM ISTO?
RC – Siii, todavia existe mucho preconcepto y resistencia, no solo de los mas tradicionales, sino muchas veces tambien por parte de musicos que inclusive forman parte del movimiento mas rockero, pero que lastimosamente muchas veces estan mas ligados a la moda o al tipo de sonido que por lo general tiene sus raices en la cultura norteamericana o inglesa (cuando salio “Reservista” no fue facil en un primer momento difundirla, por las resistencia aun de los rockeros, esto llevo su tiempo, y hoy en dia tambien pasa con la ?Afropolca?, cuando uno saca un disco nuevo siempre tienden a encasillarlo con trabajos anteriores. Pero esto a mi es algo que no me preocupa, siempre digo que el dia que no haga la musica que dicta mi corazon, ese dia es el dia que en que voy a estar muerto, y esto solo va a pasar cuando yo deje este mundo fisicamente.
RT – COMO VC CONHECEU OS TAMBORILEROS DE KAMBACUA? DESDE QUANDO EXISTE ESTE GRUPO DE PERCUSSIONISTAS? QUAL A HISTÓRIA DELES? POR QUE TEM TÃO POUCOS NEGROS NO PARAGUAI (2.000)?
RC – Conocer a Lazaro Medina y a los tamborileros del Kambacua fue para mi uma de las experiencias mas importantes en mi vida en los ultimos años, significo el acercamiento y aprendizaje de una cultura a la cual admiro enormemente y con la cual me siento muy identificada, gente hermosa, sufrida y valiente y aun asi muy gentil y abierta. La historia de los cambacua en paraguay es algo que tiene su historia muy importante, ellos a su llegada a Paraguay, Fiueron muy marginados, quizas a todo esto se deba que existan tan pocos negros aqui.
RT – COMO É A CENA INDEPENDENTE MUSICAL NO PARAGUAI? COMO É O MERCADO DE TRABALHO DE ASSUNÇÃO?
RC – La escena musical y discografica en Paraguay es aun muy dura y dificil, existen poco onada productoras o sellos discograficos (Kamikaze si no es el unico, es uno de los pocos sellos), es asi que muchas veces el trabajo se realiza en forma independiente (como en mi caso), y el trabajo es sumamente dificil, por el poco apoyo de difusion de los medios y por existencia de pocos empresarios interesados en apoyar esta movida, pese a que Paraguay tiene exelentes musicos y bandas con discos y performances sumamente interesantes.
RT – EM MS SEMPRE TEVE UMA GRANDE EXPECTATIVA DE SABER COMO ERA A CENA MUSICAL DE ASSUNÇÃO. NA VERDADE NGM CONHECIA OS MÚSICOS DAÍ. E VCS? TINHAM NOÇÃO DA EXISTENCIA DE CAMPO GRANDE, MATO GROSSO DO SUL E DESTA FRONTEIRA DE PEDRO JUAN CABALERO/PONTA PORÃ?
RC – La verdad es que yo no conocia nada de alli, lastimosamente, por que creo que somos una cultura muy unida y similar, por todo lo que pude aprender com sorpresa de la musica de Rodrigo Teixeira y la historia que me el me contó. Pero por suerte hoy en dia tengo la bendicion de conocer a gente como el y como otros musicos como los de Olho de Gato, Toninho Porto e Guilherme Rondon y espero conocer a mas.
RT – O QUE VC ACHA DE VC FAZER TRABALHO MUITO PARECIDO COM JERRY&CROA E RODRIGO TEIXEIRA, Q EXPLORAM A POLCA-ROCK?
RC – La verdad es como dije antes fue para mi una linda sorpresa, saber que existen otros musicos hermanos haciendo algo similar a lo que yo vengo haciendo, esto significa una cosa, somos hermanos hablando el mismo lenguaje. Y esto debe unirnos para romper tantas fronteras estupidas que hacen que las personas se alejen de lo escencial que es la vida.
RT – QUAIS OS PLANOS?
RC – Las expectativas son muchas, por encuanto la idea es poder mostrar este trabajo a la mayor cantidad de personas posibles y compartirlo con ellas, un trabajo que quizas como otros tantos que he hecho anteriormente tenga mucha resistencia o quizas no sea el disco que tenga los mayores hits, pero es un disco sincero, con mensajes claros e importantes, tratando de rescatar y reivindicar cosas que muchas veces se nos pasan desaparcibidas. Ojala el Afropolca-tour pueda llegar a la mayor cantidad de personas posible y de esta forma pueda dejar una huella y aportar mi humilde granito de arena a la historia de esta cultura.
P.S.: Rolando é o de camisa vermelha na foto lá em cima; ao lado eu e Pedro Ortale no fundo!
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SÉRIE ‘DO FUNDO DO BAÚ’ – Nº 02
O ÚLTIMO DOS MOICANOS
Nélson Gonçalves bem que poderia ter nascido no Velho Oeste. Ele fazia o estilo sujeito ‘durão’. Pode levar no duplo sentido mesmo! Baixo-cantante, como gostava de ressaltar, não é que o gaúcho criado em São Paulo sacou a cartucheira depois de bater um longo papo diante da fotógrafa e deste humilde repórter. Já tinha escutado de coleguinhas que o cantor de A Volta do Boêmio tinha o hábito de se vangloriar do tamanho de sua ‘pistola’ e não raro mostrava a… prótese peniana. Embecado, de terno azul-marinho e cabelo gomalinado, Nélson não só fez a lenda se tornar realidade como deu a medida exata do que ele definiu como Cartucheira 44.
Era outubro de 1997. Nélson concedia o que seria a sua última coletiva em um bar chique de São Conrado, no Rio. Ele faleceu meses depois. Os jornalistas entravam de dois em dois para conversar com Nélson e fiz a entrevista com o xará Rodrigo Faour (que depois lançou a biografia de Cauby Peixoto). Com a voz enfraquecida devido a uma isquemia no miocárdio, o cantor lançava o derradeiro Nélson Gonçalves – Ainda é Cedo. O CD é composto por músicas de roqueiros da década de 80. Cazuza, Renato Russo, Herbert Vianna, Lulu Santos…
A entrevista foi divertida. Durou 30min e foi regada a água e café. O neto de Nélson permaneceu ao seu lado durante quase todo o tempo. O final da entrevista foi surpreendente, com ele declamando duas poesias, que tenho até hoje no acervo de fitas cassetes com dezenas de entrevistas gravadas e que serão transcritas nesta série No Fundo do Baú. Foi engraçado quando Nélson ouviu o nome de João Gilberto. Ficou agitado, parecia realmente nervoso e chamou o ídolo do Caetano de “Diminuto” e “Fim de noite”. Inesquecível.
Entrevista Nélson Gonçalves
por Rodrigo Teixeira
RODRIGO TEIXEIRA – QUAL FOI O CRITÉRIO DE SELEÇÃO DAS MÚSICAS DO CD?
NÉLSON GONÇALVES – Já conhecia as músicas. E achei bom gravar estas músicas com a minha divisão musical. Valorizo muito as tônicas. Não dou as notas dissonantes. Vou pelo lado natural. Achei que podia fazer bonito com estas canções. Porque muitas músicas que eles fazem, estes rocks e tal, a gente não entende a letra. As palavras escapam. Você não entende. Então quis fazer uma alteração leviana, minha, com os instrumentos em segundo plano e o coro só pontuando as notas. Gravei só com um terço da minha voz. Tudo bem ficou suave. Lindo de morrer.
RT – VOCÊ GRAVA DE PRIMA?
NG – Gravei todas as músicas de prima. Não dá para repetir não. Ouviu uma, grava na outra.
RT – DURANTE A DÉCADA DE 70 E 80, VOCÊ REGRAVOU MUITOS SUCESSOS SEUS. POR QUE SÓ AGORA RESOLVEU FAZER UM DISCO TOTALMENTE DIFERENTE DO QUE TINHA FEITO?
NG – Porque tem o seguinte. Havia grandes cantores no Brasil. Chico Alves, Orlando Silva, Carlos Garlhado, Vicente Celestino, Silvio Caldas, mas eles morreram. E parece que só restei eu. Aquela época de ouro dos cantores. Então, com esta invasão, vamos dizer assim, no bom sentido, do rock, do pop, desta coisa toda, do reggae, que todo mundo canta, as moças cantam, eu, pra não ficar fora desta coisa, embora o Brasil hoje não seja um país só de jovem, tá quase dividida a população, achei bom misturar isto daí e juntar as duas gerações, terceira idade e jovem. Então escolhi as músicas com o Robertinho do Recife. As tônicas estão todas certinhas. Não diz saudadi, diz saudade. Não diz rosá, diz rosa. Não diz casá, diz casa. Foi a primeira vez que trabalhei com ele. É um bom produtor. Novo. Ele me ouviu muito. Nos reunimos antes. Disse para ele que queria um som como se fosse dentro de uma igreja vazia. Fica um som no ar. Não é um som sentado.
RT – QUAL A SUA PREFERIDA DO CD?
NG – Não posso falar, senão vou machucar os outros (hehe).
RT – ANO PASSADO FIZERAM UMA PEÇA EM SUA HOMENAGEM. O QUE ACHOU DAQUILO?
NG – Achei boa. Faltam alguns detalhes importantes, mas…
RT – POR EXEMPLO?
NG – Não vou dizer para não machucar o rapaz (hehehehehehe).
RT – TEM ALGUMA CENA QUE VOCÊ SE VIU, QUE TE TOCOU?
NG – Não, sabe por que? Na peça que ele passa para mim, solo e tal, e eu sou um pouco irreverente. Não mal criado, irreverente. Digo não, sim. Deram uma lapidada na pedra bruta. Mas ficou bom.
RT – EM 60 ANOS DE CARREIRA, QUAL OS MOMENTOS QUE MAIS TE MARCARAM?
NG – Comecei a cantar em 1937. Minha emoção maior foi o meu primeiro disco. Quando ouvi meu primeiro disco, com Sinto-me Bem, de Ataulfo Alves, fiquei pensando: “Eu canto bem”. Havia aquelas vitrolas que você colocava as moedas para tocar as músicas, voltava para casa sem um níquel porque colocava na vitrola para tocar. Quando acabei de ouvir o disco, foi uma emoção. Muito bonito. Foi aí que lancei um ritmo novo: o samba sincopado (demonstra tocando). Nasceu comigo. A divisão é difícil de fazer. E depois foi em 73 e 74, quando recebi o prêmio Nipper (aquele do cachorrinho beagle do gramofone), da RCA, que só tem dois no mundo. Um o Elvis Presley e o outro eu. Veio ao Rio o presidente da RCA americana, especialmente para entregar o prêmio. Pelo tanto de anos e de vendagem de disco.
RT – QUAL A SUA MARCA?
NG – Já vendi 78 milhões de discos. Gravei 127 LPs, 26 CDs, com este 27, 200 compactos duplos, 200 compactos simples, 200 fitas cassete, e 103 discos 78 rotações, como era antigamente.
RT – DEPOIS DE TUDO ISSO TEM ALGUM PROJETO QUE VOCÊ AINDA QUEIRA FAZER?
NG – Vou gravar um CD com rock, pop, reggae, samba. O próximo. Vamos misturar a música tradicional minha com a dos jovens novamente.
RT – GRAVAR ATUALMENTE É MOLE PERTO DO INÍCIO DE SUA CARREIRA…
NG – Antes a gente gravava com dois canais e o veículo era o rádio. Em algumas rádios tinha um cara que via o meu disco e riscava. Boicote. Um compositor chamado Nilton de Oliveira.
RT – COMO VOCÊ ANALISA ESTES COMPOSITORES ATUAIS? NÃO EXISTE MAIS DA ESTIRPE DE UM ATAULFO ALVES, LUPICINIO RODRIGUES. ATUALMENTE FALTAM COMPOSITORES NESTA LINHA DO BOLERO…
NG – Hoje ficou muito mais fácil. Antigamente você queria pegar uma mulher para transar você tinha que namorar, levar para dançar. Hoje em dia não. Você pode ficar com três, quatro na mesma noite. Então está fácil demais. E é por isso que está assim. Qualquer um compõe.
RT – VOCÊ NÃO GOSTA DA MÚSICA ATUAL?
NG – Ta aí a dança do tchan. A dança da bundinha. Daqui a pouco vão fazer a dança da bocetinha, vocês vão ver…
RT – DE TODOS OS COMPOSITORES, QUAL CAIA COMO UMA LUVA PARA A SUA VOZ?
NG – Lupicínio Rodrigues.
RT – VOCÊ APONTARIA UM HERDEIRO MUSICAL DESTA SUA ESCOLA, QUE REALMENTE CANTE DE VERDADE?
NG – Sou o último dos moicanos. Gostaria que tivesse, mas é muito difícil, porque sou baixo cantante, pego três oitavas. É muito raro…
RT – VOCÊ CHEGOU A ESTUDAR MÚSICA. VOCÊ LÊ PARTITURA?
NG – Sim, leio. Estudei voz com o Zebolati e música com Moacir Santos.
RT – VOCÊ GRAVOU COM MUITA GENTE QUE SERIAM SEUS FILHOS MUSICAIS. VOCÊ SE SURPREENDEU COM ELES QUANDO VOCÊ FOI GRAVAR?
NG – Tive surpresas sim, mas não foram agradáveis. Eles pensavam uma coisa: vamos cantar com o velho, chegaram lá e a coisa foi diferente. Teve um cantor que disse assim: ?vê o tom do velho aí que eu canto?. Eu falei pro maestro vê o tom dele que canto igual. Começamos a cantar e ele não conseguiu acabar a música… Parece que estava com diarréia. Um famoso cantor de boné… O meu horário de trabalho é nove horas da manhã. Acordo gravo e, no outro dia, está pronto o LP. Tem gente que grava uma música por um dia, repetindo, repetindo… Gravei este disco doente, de cama. Tive uma isquemia no miocárdio. Mas foi fácil gravar.
RT – QUAL A QUE VC MAIS GOSTOU?
NG – Para mim todas foram boas. Os cantores que foram ouvir lá choraram. Tá passando mal? Não, Nélson, é emoção. É a música que eu fiz, que coisa. Lágrimas. Que é isso? (kkkkk)
RT – LOGO QUE SURGIU A BOSSA NOVA, VOCÊ FEZ AQUELE DISCO, “NÓS E A SERESTA”, QUE TINHA UMA MÚSICA CHAMADA: “SERESTA MODERNA”, QUE VOCË BRINCAVA COM O PESSOAL DA BOSSA NOVA. DEZ ANOS DEPOIS, VOCÊ GRAVOU TOM JOBIM. COM O TEMPO O SENHOR DEU MAIS VALOR AO PESSOAL DA BOSSA NOVA?
NG – Daquela época, me aponta um que ficou…
RT – JOÃO GILBERTO.
NG – Ele canta alguma coisa? Não canta nada. Tom Jobim foi um compositor excelente. Vinícius de Moraes excelente. Mas cantando, tchuntchuntchun…
RT – NA BOSSA NOVA INAUGUROU-SE UM NOVO JEITO DE CANTAR, BAIXINHO…
NG – Sabe como era o apelido do João Gilberto? Fim de Noite. Era ele com o violão!
RT – DEPOIS DA BOSSA NOVA QUALQUER UM COMEÇOU A CANTAR?
NG – O culpado disso é o João Gilberto. O Diminuto. Cantar sem voz. (Imita João Gilberto… kkkkk) ?Saudade que vc não tem… Passa comigo que vc vai ver… hum, hum, hum?… amplia, bota som… Puta que pariu!!! Imagina ele na cama com uma mulher. (Imita de novooo!!!) ‘Meu amor, ai que gostoso’… Ah, vai para o raio que te parta! Eu não sou assim não. Eu sou agressivo, sem bater. Amorosamente. Vem cá, me dá aqui!!!?
RT – QUAIS OS LUGARES QUE VOCÊ FREQUENTAVA NO RIO DE JANEIRO NOS ANOS 50…
NG – Os piores. A Zona, na Sapucaí, na Lapa… Não se via assalto. O submundo era bem menos barra pesada.
RT – VOCÊ SAIU DO SUL COM QUANTO TEMPO?
NG – Com dois anos. Fui para São Paulo, onde morei no Brás. Mas o Adoniran começou comigo a vender anúncio para a Rádio Record. Eu ralei um bocado.
RT – QUAL O CONSELHO QUE VOCÊ DARIA PARA UM JOVEM QUE ESTÁ COMEÇANDO UMA CARREIRA?
NG – Tem que receber o não como sim. E vá em frente. Tive no Rio e fiz teste, sendo cantor profissional em São Paulo. Cantei na Marink Veiga, na Rádio Nacional, no Celso Guimarães, Ipanema… Só ouvi ‘não gostei’. O Ary Barroso me mandou jogar boxe que ‘eu não cantava nada’. Se for um qualquer, desiste. Mas fui à luta! E depois que fiz sucesso, ele veio falar que ‘estava brincando’. Aqui para você!!!
RT – AS LETRAS DOS SAMBAS-CANÇÕES TINHAM MUITO AQUELA COISA DE VOCÊ MUDOU DE DONO… COMO AVALIA AS LETRAS DE HOJE?
NG – Eles falam da mulher indiretamente. Dizia ainda é cedo. Uma menina me falou. Não falam o nome da mulher, mas falam da mulher. Indiretamente e branda. A minha maneira é mais: ‘Vamos lá’… Eles falam, ‘você é linda’ e eu, ‘você é gostosa!’ Acho que as coisas mudaram para melhor, embora haja um avanço meio inoportuno para a atual infância. A criança está ficando adulta muito cedo. Dança da bundinha para lá e para cá… Cresce como? P-U-T-A. Isso que é o mau. Mas vai ter uma virada. Uma suavizada.
RT – VOCÊ AINDA COMPÕE?
NG – Sim. Tem até um verso, que chamo de “Esquerdo do Amor”. Tem o lado direito do amor, que é o cara casado, direito, correto, trabalha, chega em casa tem a mulher, não tem amante na rua… E tem o lado esquerdo, que é aquele cara que prevarica na rua, dorme na rua… É o Esquerdo do Amor: “MENTI, E COMO CONSEQUÊNCIA PERDI, TEU AMOR E TUA INOCÊNCIA. SOU AGORA UMA SAUDADE ESQUECIDA, UMA LEMBRANÇA PERDIDA, EU SOU O VAZIO QUE FICA DEPOIS DO AMOR, EU SOU O TÉDIO, O ÓDIO E O DESPEITO, SOU TUDO O QUE NÁO É DIREITO, EU SOU O ESQUERDO DO AMOR”.
RT – ALGUMA VEZ VOCÊ FOI O ESQUERDO DO AMOR?
NG – Fui. Olha esta aqui. “SERÁ QUE VOCÊ MENTIA, NO TEMPO QUE ME DIZIA, EU NÃO VIVO SEM VOCÊ, OU É AGORA QUE MENTE, QUANDO PASSA INDIFERENTE, FINGINDO QUE NÃO ME VÊ”. Olha, eu tenho segundo grau!
RT – QUANDO É QUE VOCÊ COMEÇOU A SOSSEGAR ESTE LADO ESQUERDO DO AMOR?
NG – Sossegar? Fui casado quatro vezes. Tenho 78 anos de idade, mas 25 anos de… Eu tenho 22cm de pau… Tenho um tesão filha da puta. Canto com um tesão do caralho. Não posso ir a piscina. Por causa do volume. Parece uma cartucheira 45.
Últimas faixas de Nélson:
1 – Como Uma Onda (Nelson Motta/Lulu Santos)
2 – Faz Parte do Meu Show (Renato Ladeira/Cazuza)
3 – De Mais Ninguém (Marisa Monte/Arnaldo Antunes)
4 – Meu Erro (Herbert Vianna)
5 – Ainda é Cedo (Ouro Preto/Renato Russo/Dado Villa-Lobos/Marcelo Bonfá)
6 – Você é Linda (Caetano Veloso)
7 – Bem Que Se Quis (Pino Danielle/versão Nelson Motta)
8 – Caso Sério (Rita Lee/Roberto Carvalho)
9 – Nada por Mim (Herbert Vianna/Paula Toller)
10 – Simples Carinho (João Donato/Abel Silva)
11 – Estácio, Holly Estácio (Luis Melodia)
12 – Me Chama (Lobão)
· Entrevista concedida ao extinto caderno cultural Cult Press, da agência carioca Carta Z Notícias.
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No dia em que os católicos comemoram o Corpus Christie, evoco o artista plástico mais talentoso que apareceu por estas bandas do Matão do Sul nos últimos anos: EVANDRO PRADO!
O guri de 20 anos tá fazendo barulho nesta parte esquecida do Brasil. Com a sua série Habemus Cocam, sacudiu os puritanos, com direito a abaixo-assinado para cancelar a exposição no Museu de Arte Contemporânea de Campo Grande com seus quadros misturando Coca-cola com Papa João Paulo II, Fidel Castro e Nossa Senhora Aparecida.
Quem quiser ver os quadros da série é só acessar o site do Evandro.
De minha parte só tenho duas palavras a dizer: Continue e Parabéns!
Vou te ligar para a gente marcar uma matéria para o Matula!
Atendeeee o foneee aíiiiiiiiiiiiiiiii!
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Caximir não deixou pedra sobre pedra no show em Campo Grande no dia 10 de junho
Um furacão passou por Campo Grande. O nome: Caximir! O reduto mais marginal da Capital sul-mato-grossense foi pequeno para a bofetada musical cuiabana na cara do público encruado da cidade. Furiosos e apaixonados, os integrantes da banda são interessantes não só no conjunto, mas pessoalmente cada um é uma fonte de energia infinita e brilho próprio. Enlouquecidos e insanos, Antônio Sodré, André Balbino, Capileh Charbel, Eduardo Ferreira, Rosi Tekila, Wenderground, Anna e Fernanda Marimon e o baterista Rubens Lisboa carregam o cheiro da estrada regada à cerveja, noites insones e desvarios intelectuais.
O impacto visual do grupo é certeiro. E a ciranda de vocalistas só aumenta o estímulo para vôos de inconsciência e delírios futuristas. As mulheres do Caximir, sim elas!!!, fazem a pedra rolar. O sangue azul do rock?n roll circula nas veias do trio nervosamente sedutor e de figurino pré-sado-futurista-erótico-retro-chique. Em certa altura do show, pensa-se: a Nina Hagen está cantando com a banda? É Rosi Tekila dando seus chiliques em tons agudíssimos. Quem são as duas doidas que ficam se atracando em trajes sensuais no meio do público? Fernandinha e Anna põem pra quebrar. São herdeiras legítimas da santa trindade roqueira.
Tive o privilégio de abrir o show do Caximir. Toda banda acha que toca mais pesado que a outra. Pelo menos é o que está escrito na cartilha roqueira. Sentamos a bota de fato! E, verdade seja dita, eles também. O show deles foi pesado pra cacete! Neste aspecto, a vinda do Caximir passados quase duas décadas desfaz o que de tanto falar virou verdade em Campo Grande: de que em Cuiabá só tem músico paia, doidão, bicho-grilo!!! Mais do que jogar por terra esta teoria, mostra que o Caximir é uma banda com uma linguagem fartamente urbana de rock?n roll que os campo-grandenses ainda não conseguiram reproduzir.
O guitarrista Capilé Charbel é bom de palco e tem sensibilidade para saber quando pesar a mão e quando afinar suas distorções as melodias guturais dos cantores. É o maestro da banda e o galã também. André Balbino na viola elétrica torna ainda mais forte o sabor do caldo urbano-alucinante do Caximir, quando tende mais para uma Nova Iorque dos anos 70 do que o caipirismo centro-oestino brasileiro. Balbino está mais para Lou Reed do que Almir Sater!
Pessoalmente, o que me impactou no contato com o Caximir foram as figuras de Eduardo Ferreira, o baixista, e o poeta e vocalista Antônio Sodré. O primeiro é a prova de que o verdadeiro rock extrapola o palco. Não basta tocar rock?n roll, isto é fácil. A questão é ter atitude roqueira. Não ofender, como os punks, mas provocar como fazem os legítimos seguidores de Hendrix, Chuck Berry e Mutantes. Eduardo Ferreira ? o Gary Oldman cuiabano ? é o próprio. Ele toca com segurança e economia seu baixo de, detalhe, três cordas. Que após o show, aliás, estava jogado na varanda depois de tomar chuva. Sid Vicius, Iggy Pop pra caralho. Ele em uma espécie de canção-sermão branda para o público estupefado: LSD, Louvado Seja Deus! Provocador de idéias e estímulo para atitudes, é isso que Edu provoca, seja no Caximir, como Overmano ou dirigindo A Fabrika. Cada vez mais agradeço por este cara ter cruzado meu caminho!
Mas o assombro acontece mesmo quando empunha o microfone o bugre Antônio Sodré. É o Charles Bukoviski do Pantanal do Norte, Plínio Marcos do Cerrado, Lima Barreto do século XXI… Pirado, robótico, dono de gestos economicamente alucinados, o pequeno poeta vira gigante no comando do Caximir. Com ele tudo fica perfeito, na medida. É a dose salvadora de roqueirol que nos liberta deste mundo de sentimentos ruminantes. Ele grita Habibbbbbb em ritmo de tratamento de choque e nada fica mais igual.
No show de sábado, dia 10 de junho de 2006, vi novamente a poeira levantar. O espírito roqueiro habita um cavalo chamado Caximir! Ele está pronto, encilhado, em ponto de bala… Pedro Alexandre Sanches, Alexandre Mathias, críticos musicais do Brasil existe uma banda no coração da América do Sul pronta para fazer um estrago. Aliás, várias bandas.
Mas me retenho aqui no Caximir mesmo! Vamos dar uma trégua no olhar obcecado pelo Norte e Nordeste, Sul e Sudeste! Los Porongas, Cachorro Grande, Ludovic, queridinhos da MTV, turminha da Trama… dá licençaaaa!
O Caximir tá na área, o pior cego é aquele que não quer ver.
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Mister Bossa Nova (continuação)
RT ? E COMO ERA O CONTATO SEU COM ESTE PESSOAL?
CL ? Contato direto. Em princípio por causa do CPC. A gente estava procurando para arregimentar os extras do filme de Flávio Rangel e a idéia de pegar a música de raiz brasileira para socorrer a música de classe média, que estava com muita forma, mas sem nenhum conteúdo. Estava batendo na mesma tecla. Não tinha mais saco para isso. Não agüentava mais este negócio de flor. O CPC se dedicou a cavar conteúdo e a verdade é que minha música se enriqueceu com isso. Saiu o show “Opinião” com ele.
RT ? PODERÍAMOS FALAR QUE O SHOW “OPINIÃO” AFUNDOU A BOSSA NOVA E LEVANTOU A MPB?
CL ? Não afundou. Deu um passo a frente, além da Bossa Nova. O show foi escrito na minha casa. A Bossa Nova era uma coisa nacionalista, queria fazer música brasileira, e a bossa aí passou a ter conteúdo. “Opinião” é Bossa Nova com conteúdo. E daí para frente à Bossa Nova não caiu, ela passou a ter conteúdo. Esta é outra viagem que o Tinhorão perdeu. Ele não percebeu que a Bossa Nova se conscientizou. Na minha música, Vinícius e de outros mais. O Tinhorão não percebe esta evolução. Ele pensa que o Chico Buarque é MPB engajada e que a Bossa Nova é uma música alienada.
RT ? EM 1964, COM O GOLPE, VOCÊ DECIDIU IMPOR UM AUTO-EXÍLIO?
CL ? Com o golpe ficou insuportável. Os militares prepararam o terreno e os civis safados, porque o grande golpe foi dado por civis corruptos. Ordinários que estão aí até hoje. A gente está vivendo uma ditadura civil. Ninguém notou ainda, mas continua a brincadeira. Ainda tem muita gente ruim mandando neste país. Então me exilei, porque se tivesse ficado teria sido preso. Então fui para os EUA. Nova Iorque.
RT ? FOI QUANDO SURGIU PARA TOCAR COM O STAN GETZ?
CL ? Desde 1962 que o Stan estava gravando com a Astrud e com o João Gilberto. Os dois não quiseram mais participar e então ele me chamou. Só disse que não iria cantar “Garota de Ipanema”, que era compositor e não iria tocar música de ninguém. Ele disse tudo bem. Aí comecei a tocar as minhas músicas com um conjunto maravilhoso atrás de mim, com Chick Corea no piano, Gary Burton de vibrafone… O Chick reclamava que o Stan Getz não deixava eles tocarem e só queria o arroz com feijão. Isso em 1965.
RT ? COMO ERA O STAN?
CL ? Estava o tempo todo de porre. Mas era um cara legal. Ele divulgou muito a Bossa Nova. Mas não gosto de saxofone. Para mim tem hora, me incomoda um pouco.
RT ? DEPOIS VOCÊ ACABOU INDO PARA O MÉXICO.
CL ? Casei com a Kate na Cidade do México. Fiquei quatro anos e voltei para o Brasil em 1971. Até 1974 quando resolvi ir para Los Angeles passar dois anos sem voltar aqui. Fui em função da Terapia do Grito Primal. É curiosa, você grita, chora, se joga na parede, com a sala toda forrada de espuma… Para mim foi fantástico, pois estava rolando tudo aquilo no Brasil, e eu fumando feito um louco, com taquicardia… Comecei a passar bem, inclusive meu colega de terapia era John Lennon. Só toquei com ele na terapia, conversamos… Isso foi em 1974. Ele falou que aquilo estava salvando a vida dele, que ele estava se sentindo ótimo.
RT ? NESTA ÉPOCA VOCÊ TAMBÉM SE ENVOLVEU COM ASTROLOGIA SIDERAL. COMO FOI ISSO?
CL ? Em Los Angeles eu também conheci a Astrologia Sideral, que é para corrigir os signos. Astrologia científica, astronômica. Fui à escola de astrologia sideral para saber do que se tratava, fiquei convencido e passei a ensinar lá também. Porque já conhecia astrologia. Quando voltei ao Brasil lancei um livro chamado “Seu Verdadeiro Signo”.
RT ? ENTÃO ISSO É VERDADE MESMO. ÁRIES NÃO É MAIS ÁRIES…
CL ? É a pura verdade.
RT ? QUAL ERA O SEU SIGNO?
CL ? Era touro. Agora sou Áries. O signo dos pioneiros.
RT ? EU SOU ÁRIES. DEVO SER OUTRA COISA AGORA, NÉ?
CL ? Que dia você nasceu?
RT ? 11 DE ABRIL.
CL ? Você é peixes. Não é Áries nunca. Quando você nasceu o sol estava na constelação de peixes. O que isso significa para o teu caráter, você tem de fazer o seu horóscopo pessoal para ver. Pode mudar muitas coisas. Signo não é definitivo. Mas na Idade Média era proibido falar no movimento dos astros e a Igreja congelou tudo. Por que isso vai mudar sempre. Cada Era que muda, as pessoas já nascem em signos diferentes.
RT ? O QUE VOCÊ DIRIA PARA AS PESSOAS QUE FALAM QUE A BOSSA NOVA PAROU NO TEMPO?
CL ? Sebastian Bach não parou no tempo. Ravel, Tom Jobim parou no tempo. O que não se pode é ficar reprisando as mesmas coisas e da mesma maneira. Eu sou o Carlos Lyra e o Menescal é o Menescal. Não dá para mudar isso. Agora eu não vou deixar de ser e fazer aquelas coisas cabalísticas, mudar o meu nome para Carlinhos da Lyra e fazer samba enredo e dizer que eu sou moderninho. Não sou babaca! Vou ser Carlos Lyra sempre, mas meus discos vão ser diferentes. O Heráclito fala que você nunca entra duas vezes no mesmo rio.
RT ? A LEILA PINHEIRO CHEGOU A DIZER QUE PROCUROU MÚSICAS NOVAS DE COMPOSITORES DA BOSSA NOVA, INCLUSIVE DE CARLOS LYRA, E QUE NÃO HAVIA ACHADO, EM OUTRAS PALAVRAS, BOAS…
CL ? Mas onde ela foi procurar? Assessor de imprensa quer saber a vida do Lyra e vão perguntar pro Tinhorão ou para o Zuza. Outro quer saber da vida do Menescal e vai perguntar na Globo. Porra, tem que perguntar pro cara. Se você quer uma música nova do Carlos Lyra pede a ele, não vai ver se tem na Globo, porque não tem. Tem na casa do Carlos Lyra. Se você quer saber uma coisa de mim tem de me procurar. Não vai procurar o Menescal para saber o que o Carlos Lyra pensa. O Ruy Castro cometeu este engano.
RT ? QUAL?
CL ? Ele quis saber do Carlos Lyra e foi procurar o Ronaldo Bôscoli. Para o livro “Chega de Saudade“. Entrevistou o Bôscoli durante dois meses e a mim entrevistou 40 minutos. Tivesse me entrevistado antes teria tido muito mais informações. Tem gente que reclama do livro e é evidente, porque a visão dele foi toda oferecida pelo Ronaldo Bôscoli. Ele pesquisou por conta dele, sobre o João Gilberto, mas muitas coisas sobre mim não foram bem assim. Porque ele não veio me entrevistar. Mas em relação à Bossa Nova em geral o Ruy contou muito bem.
RT ? É VERDADE A FAMOSA HISTÓRIA DE QUE O JOÃO GILBERTO FEZ O GATO SE JOGAR PELA JANELA DO APARTAMENTO DEPOIS DE FICAR TOCANDO DIAS SEM PARAR?
CL ? Não sei, porque não estava. Mas o Vinícius me contou que era verdade. “O João ficou batendo no bordão do violão e olhando para o gato, tim, tim, tim… e o gatinho não agüentou e pulou”. Isso contado ao Vinícius pela Astrud, que era mulher dele na época. Se é lenda ou não, ninguém sabe. Que é engraçado, é.
RT ? MUDANDO DE ASSUNTO, É VERDADE QUE AS GRAVADORAS RESISTEM EM LANÇAR NOVAS BOSSAS NOVAS E SEMPRE QUEREM RELEITURA DOS CLÁSSICOS?
CL ? Sem dúvida. Querem “Minha Namorada”, “Primavera”, “Chega de Saudade”… Nova do Menescal e Carlos Lyra os caras ficam meio assim… a gente sente isso. Este disco novo mesmo a gravadora não quis divulgar. Chama-se projeto de resistência. Eles querem as coisas conhecidas.
RT ? COMO OUVINTE, O QUE VOCÊ ANDA ESCUTANDO?
CL ? Nada. Medíocre, não compro disco e não ouço nada. Cheio de pessoas prepotentes e vaidosas e evidentemente o público se sensibiliza com a vaidade. Porque o público hoje não compra arte, o público compra artista. Estão consumindo as personalidades. Agora arte mesmo, nem no teatro e nem no cinema. Estamos tentando fazer virar, mas o que vejo mais são as pessoas deixando se envolver por este clima de mediocridade e falta de integridade. As pessoas se vendem por qualquer coisa. Uma vergonha. Sobreviver está difícil, então não dá só para censurar, pô estes caras são mau caráter. Não é isso. É que realmente a vida econômica está difícil. Então, para sobreviver, o cara toca aí. E este é o nosso clima. Isto gera corrupção e mediocridade.
RT ? VOCÊ ESTÁ COM QUANTOS ANOS?
CL ? Não digo nem morto. Nunca mais. Ainda mais neste país aqui que é subdesenvolvido. O mundo já é orientado por jovens, país subdesenvolvido é muito mais. Então com 30 anos você está velho e com 40 está morto. O leilão é o seguinte. Quem dá menos. Colocaram no jornal 62 anos. De vez em quando eles chutam, né.
· Entrevista concedida ao extinto caderno cultural Cult Press, da agência carioca Carta Z Notícias.
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Começo agora a publicar uma sequência de entrevistas na sessão Do Fundo do Baú.
De primeira, posto esta que fiz com Carlos Lyra, um dos mentores da Bossa Nova. A entrevista aconteceu no escritório de Carlos Lyra, em Ipanema, em 1998. Me preparei para o bate-papo. Iria falar sobre a biografia que Lyra estava escrevendo e os 40 anos de Bossa Nova.
Mas o Mister Bossa Nova desandou a falar. Esqueci da pauta e embarquei na viagem do compositor, na minha opinião, o mais chique dos que fundaram o estilo musical brasileiro mais importante do século XX.
Na entrevista, ele comenta várias passagens da Bossa Nova, a sua ruptura com os companheiros de banquinho e violão, a parceria com Vinícius, a dispensada que Tom Jobim deu em Elis Regina e o seu auto-exílio no México e Estados Unidos para fugir da Ditadura.
Também reclamou por Ruy Castro não o ter consultado mais profundamente para escrever o livro Chega de Saudade e relembrou as aulas que fez ao lado de John Lennon nos anos 70 na inovadora Terapia do Grito Primal.
Com vocês, Carlos Lyra!
Entrevista com Carlos Lyra
Por Rodrigo Teixeira
Mister Bossa Nova
RODRIGO TEIXEIRA ? POR QUE DECIDIU ESCREVER O CD-BOOK ?EU E A BOSSA??Carlos
Lyra ? Para documentar a Bossa Nova dentro de um ponto de vista econômico, político e cultural. O que significou os anos 60 na cultura brasileira. Houve um grande surto cultural baseado em um desenvolvimento fantástico. A época do Juscelino foi riquíssima no Brasil. Bossa Nova, Cinema Novo, bicampeonato no futebol… Em qualquer área cultural a gente estava na frente. Era Primeiro Mundo. E apesar daquela zona que foi o show no Carnage Hall, a Bossa Nova entrou nos Estados Unidos junto com os Beatles. Isto está muito bem frisado no livro.
RT ? ESTA ANÁLISE MAIS VOLTADA PARA A PARTE SOCIOLÓGICA QUE ENVOLVE A BOSSA NOVA AINDA NÃO FOI BEM EXPLORADA POR LIVROS COMO O ?CHEGA DE SAUDADE??
CL ? Claro que o Ruy comentou coisas que são pertinentes. Mas perguntei porque ele não havia enfocado o aspecto político e econômico. Ele disse que não queria saber deste negócio e que se eu quisesse, que escrevesse um livro. Perguntei se ele escreveria o prefácio. E ele fez mesmo. São 150 páginas, com fotos…
RT ? COMO VOCÊ FEZ PARA RELEMBRAR AS HISTÓRIAS DA ÉPOCA?
CL ? Foi fácil porque todas as coisas se passaram de uma maneira geral há 20, 30 anos. Da semana passada eu esqueço completamente. O computador ta lotado. Escrevi a mão, porque achei que seria mais rápido. Mas as coisas de 40 anos lembro com detalhes.
RT ? VOCÊ DEU PRIORIDADE PARA A DÉCADA DE 60?
CL ? Comecei desde 1954, 55… Quando fiz minha primeira música. Dou uma pincelada na minha infância e adolescência. A minha formação musical. Sou carioca, nasci em Botafogo. Por isso sou botafoguense também. Me criei lá e finalmente vim para Copacabana e Ipanema. Este livro também é um perfil do Rio de Janeiro e da minha geração.
RT ? VOCÊ ACHA QUE AS PESSOAS CONCORDAVAM MAIS UMAS COM AS OUTRAS NAQUELA ÉPOCA? TINHAM IDEAIS MAIS PARECIDOS…
CL ? Mais ou menos. Porque em conversas com Tom Jobim ele me contou as mesmas coisas que eu passava. Adolescência, praia, Copacabana, mulheres, colégios… O Fernando Barbosa Lima e eu éramos do Santo Ignácio, onde aprendi a gostar de música e teatro. Aquela era uma formação de um rapaz de classe média, o Tom Jobim também, ambos tentando estudar arquitetura, que nunca nos formamos. Trajetórias parecidas. Roberto Menescal, Tom Jobim e eu, e outros. Mas com o Tom eu era muito parecido. Até a questão de querer ser arquiteto. Eu cheguei a fazer pré-vestibular e ele, se não me engano, até o terceiro ano da faculdade. Depois a gente desistiu e optou pela música. Mas temos também as mesmas influências. Do Impressionismo, Ravel, Debussy, Villa-lobos, da música americana da época, o jazz…
RT ? QUANDO COMEÇOU A PINTAR AQUELES ACORDES DISSONANTES E ALTERAR AOS POUCOS A HARMONIA DO SAMBA, QUE ORIGINALMENTE É MAIS SIMPLES?
CL ? Pois é. Você é músico e sabe que aquela coisa de acorde menor com sétima, sexta, diminuta… Isso é Impressionismo. Já vem com Ravel e Debussy. E Villa-lobos usava muito, também impressionado com os impressionistas. A gente recebeu isso, vamos dizer assim, via jazz. E o jazz americano é muito influenciado pelo impressionismo e diretamente pelo Ravel, que era professor do George Gershwin. Então como a Bossa Nova também importou muita música americana, jazz, Gershwin e Cole Porter, então a gente misturou esta coisa no nosso samba e na nossa realidade. Mas você vai reparar o seguinte: a Bossa Nova não é uma música jazzistica.
RT ? COMO ASSIM, VOCÊ ESTAVA FALANDO O CONTRÁRIO?
CL ? Todos os modismos e maneirismos do Johnny Alf, por exemplo, eram coisas que a gente queria superar. Se bem que era uma referência importante para nós o Johnny, com acordes dissonantes, coisa e tal… Mas era exatamente o que a gente não queria. Ele era uma referência, porque botou um nome americano e tocava música americana. Uma referência importante de um brasileiro que até usava um nome americano. Mas ele mesmo diz que não é da Bossa Nova e não é mesmo. Ele é um precursor, um cara que vem antes. Como o Caymmi. O Ary Barroso. O Alf tocava por cifras e já usava aquelas harmonias dissonantes incorporado no samba dele, que tinha um maneirismo jazzistico. Era uma maneira nova de fazer a coisa. Mas realmente não é a minha praia. Para mim o Dick Farney era mais importante, porque cantava samba canção mesmo. E com conotação de classe média, mesmo. Ele era um rapaz de classe média.
RT ? E QUE TINHA A MESMA VOZ QUE O JOHNNY ALF…
CL ? Mais até. O Dick imitava o Frank Sinatra com perfeição. O Johnny Alf está mais para aquelas cantoras negras de esquetes. O Dick Farney é mais a nossa onda. Tanto que eu conheci mais o Johnny pessoalmente, porque morava no Rio. O Farney morava em São Paulo. Eu o ouvia cantando, o Farney, e ficava louco. Achava fantástico. Ele, o Lúcio Alves… Esta é a nossa praia mesmo. Nossos ancestrais diretos.
RT ? VOCÊ ENTÃO ACREDITA QUE A BOSSA NOVA REPRESENTAVA MESMO A CLASSE MÉDIA?
CL ? Sim. A classe média não tinha música. Ou você importava ou ia pegar no morro. Era Orlando Silva, aqueles negócios… A deusa da minha rua, com aqueles errress… Nélson Gonçalves, Francisco Alves… Isso não era uma coisa que nos satisfazia absolutamente. A gente respeitava, mas aqui pessoalmente, nunca curti. O Dick Farney não. Eu apagava a luz e ficava ouvindo no escuro, sentindo um barato interior. Para falar a verdade, com o Johnny Alf nunca me emocionei.
RT ? POR QUE VOCÊ NÃO LANÇA DISCOS MAIS REGULARMENTE?
CL ? O Tom Jobim tinha uma teoria que se devia lançar uma música por ano. Eu sou compositor, não sou cantor. Importante para mim é a música, não é meu disco cantado. Até penso em lançar um disco com clássicos da Bossa Nova que não são nem meus. Eu lancei um disco só com inéditas, então pegando uma cada ano. Vai começando a pegar.
RT ? VOCÊ LEMBRA DE BARES DA ÉPOCA NO LIVRO, COMO O VILARINO?
CL ? Para falar a verdade nunca freqüentei o Vilarino. Eu ia ao Bar do Plaza, no Leme, que é onde tocava os pianistas de plantão e o Johnny Alf era o músico da casa. E ali era bom, porque aparecia todo mundo, Lúcio Alves, Dick Farney, Os Cariocas, Dolores Duran, Tom Jobim, Billy Blanco. Todo mundo pintava naquele barzinho no Leme, que é muito mais importante que o Beco das Garrafas.
RT ? É VERDADE QUE O TOM JOBIM DISPENSOU A ELIS REGINA DO SHOW ?POBRE MENINA RICA??
CL ? É verdade. Inclusive no livro botei o depoimento da Elis contando.
RT ? E ISSO ACONTECEU MESMO? DIZEM QUE O TOM FALOU QUE ELA ESTAVA CHEIRANDO CHURRASCO…
CL ? Não foi bem assim. A expressão dele era que ela era muito caipira. Não sei se esta era a expressão certa. Talvez mais delicada. Ele, que era um músico fantástico, não viu que a Elis era a maior cantora do Brasil. Não reparou. O visual deve ter impressionado! A Elis era realmente muito vesguinha, e com aquele vestido de chita. Porque ela era muito simples e com o cabelo feio, todo… o Ronaldo Bôscoli realmente transformou a Elis numa star. Porque foi ele que transformou a Elis de uma caipira numa mulher até interessante. Charmosa.
RT ? NÃO ERA UM PRECONCEITO COM OS MÚSICOS QUE VINHAM DO SUL?
CL ? Era menos preconceito e mais desatenção. Mas no livro coloquei o depoimento dela. Eu não falei nada, porque se não vão pensar que é bronca minha. Então coloco ela falando “o Carlinhos me deu força, mas o Tom achou que eu estava muito crua…” Era um musical chamado “Pobre Maria” que eu queria fazer o disco. Ouvi a voz da Elis em um disco, que ela cantava boleros imitando Ângela Maria, e falei: “Eu quero esta mulher”. Senti. Mandei buscar a Elis no Rio Grande do Sul. Ela tinha gravado com a CBS, mas não tinha adiantado nada. Nem reparei em vestido de chita, sandália de couro, esta mulher canta muito, dá um banho de loja nela ou o que seja, mas vai cantar no disco. Não vai aparecer. Falei com o Tom e ele insistia: “Mas ela é vesga!!!”. Falava que ninguém ia ver isso, olha a voz dela. Ele teve mais um preconceito visual, do que outra coisa qualquer. Fiz ela cantar para ele, mas o Tom achou que tinha que ser a Dulce Nunes, que era uma menina fina, de sociedade, que era casada com Nenê Nunes… Depois o Tom saiu, o Radamés entrou e a Dulce continuou. Já estava comprometido, ela também era uma amiga querida. Porque o Tom havia falado que com a Elis não dava para fazer os arranjos, porque ela era feia para caramba. Então a produção da CBS, disse que não iria perder o Tom como arranjador e iria fazer sem a Elis. Pediram para arranjar outra pessoa. Que foi a Dulce. Aí que o que aconteceu foi que o Tom acabou não fazendo os arranjos por medo que as letras do Vinícius comprometessem a entrada dele nos EUA. Porque tinha uma conotação social e ele ficou com medo. Então ficou assim. Paciência.
RT ? COMO ERA O MÉTODO PARA COMPOR COM O VINÍCIUS?
CL ? Tinha um hábito de deixar as músicas no gravador do Vinícius e ele colocava as letras depois. Grande parte da nossa parceria foi assim. Com exceção de “Pobre Menina Rica” que a gente foi terminar as músicas em Petrópolis em conjunto. Até pus música em letra dele. “Minha Namorada”, por exemplo, foi dedicada a Anelita. O Vinícius estava se separando da Lucinha e casando com a Anelita. Já era o quinto casamento dele. Este casamento com a Anelita, inclusive, ajudei a raptá-la para Paris. O enxoval dela ficou na minha casa, porque os pais dela não queriam a relação com o Vinícius. “Minha Namorada” é desta época. Eles já foram para Paris casados. Ai os pais dela colocaram no jornal “queremos anunciar o casamento de nossa filha com o poeta Vinícius de Moraes”. Mas os dois já estavam em Paris.
RT ? ?MARIA NINGUÉM? É DE 56. ?LOBO BOBO? DE 57. ESTAMOS EM 1998, VOCÊ CONCORDA QUE A BOSSA NOVA ESTÁ COMPLETANDO 40 ANOS?
CL ? Não concordo absolutamente com isso. Mas não afirmo nada. Ofereço as opções para as pessoas pensarem. Porque quando você força uma barra, as pessoas acham que vc está puxando a brasa para a tua sardinha. 1958, para mim, é o ano menos significativo de todos.
RT ? ELIZETH GRAVOU EM 1958 O FAMOSO DISCO COM MÚSICAS DE TOM/VINÍCIUS…
CL ? A Elizeth para mim nunca foi uma cantora de Bossa Nova na vida. Era uma grande cantora de sambas-canções, mas sem suingue. O Vinícius é que gostava muito dela… Ainda não tinha aparecido Nara, Elis… Acho que tinha uma pessoa que poderia ter dado um recado mais Bossa Nova que era a Silvinha Telles.
RT ? ATÉ PORQUE ELA GRAVOU EM 1956 A MÚSICA ?FOI DE NOITE?…
CL ? Em 1955 ela gravou uma música minha chamada ?Menina? e do outro lado ?Foi a Noite?, minha, do Tom e do Nilton Mendonça. Era um samba-canção, mas ali já é uma evolução. Tinhas características harmônicas e melódicas de interpretação mais cool, bem classe média, já não era uma coisa de Zona Norte, do samba. Era bem mais o discreto charme da burguesia mesmo. O jeito da Silvinha cantar já era mais Bossa Nova. Por mais que as pessoas tendem a acreditar que Bossa Nova é uma batida de samba, então…
RT ? O QUE É A BOSSA NOVA PARA VOCÊ?
CL ? Para mim marcha-rancho, samba-canção, tudo isso para mim é Bossa Nova. Porque a idéia da coisa, o ritmo, interpretação, melodia, harmonia, tudo isso para mim é Bossa Nova. Então ela foi chegando aos poucos. Ela tinha em 1955, ou até antes, interpretação, harmonia, melodia… Quando o João Gilberto sentou, pegou o violão e tocou, ele deu uma forma definitiva para o samba bossa nova. Ele cantou marchinha
também… Mas basicamente ele cantava só samba. Eu sou contra este preconceito. Acho que Bossa Nova não é só samba. É marcha-rancho, samba-canção, baião, o que for… A Bossa Nova é mais um contexto artístico de música, melodia, interpretação e ritmo. É tudo isso junto.
RT ? QUANDO VOCÊ ESCUTOU PELA PRIMEIRA VEZ O TERMO BOSSA NOVA?
CL ? Em 1957 eu, Nara Leão, Roberto Menescal, Ronaldo Bôscoli, Silvinha Telles, fomos fazer um show na Hebraica… Era uma pá, mas não tinha Tom Jobim, Vinícius e João Gilberto. Acontece que naquele show da Hebraica tinha um judeuzinho lá que chega e disse assim “hoje se apresentam aqui na Hebraica este, aquele, aquela, e os Bossa Nova”. Um judeuzinho ligado em marketing nos botou um nome que a gente assumiu na hora. Então é uma referência importante. Quando foi a primeira vez a se falar em Bossa Nova? Não há dúvida de que foi ali. O primeiro a falar em Bossa Nova foi este garoto, judeu, em 1957. No ano seguinte a Elizeth grava o disco “Canção de Amor Demais” que não é também o definitivo neste negócio de Bossa Nova.
RT ? POR QUE? FOI NESTE DISCO QUE JOÃO GILBERTO INVENTOU A BATIDA BOSSA NOVA NO VIOLÃO. MAS VOCÊ NÃO ACHA QUE PODE TER SIDO UM ACASO, UMA CIRCUNSTÂNCIA PARA O JOÃO GILBERTO, JÁ QUE O DISCO TINHA REALMENTE OS ARRANJOS MAIS LENTOS…
CL ? As canções eram todas baladas, modinhas, que para mim é Bossa Nova também, não quer dizer nada. Tem dois sambas ali. “Outra Vez” e “Chega de Saudade”, que o João Gilberto atacou de violão no fundo, mas tocou outras coisas que não eram samba. Segundo o violão, aquilo também é Bossa Nova. Este mesmo ano o Tom fez o “Desafinado” com “isso é bossa nova, isso é muito natural”. Isso é algo também significativo. Inspirado no judeu da Hebraica. Mas no disco da Elizeth não tem a dupla Tom Jobim/Newton Mendonça, não tem Lyra/Bôscoli, Lyra/Vinícius… Ta faltando coisa nesta comemoração de 40 anos que só tem Tom e Vinícius e não tem nem João Gilberto cantando. Ta manco para dizer que está é a grande referência.
RT ? PODERIA SER 40 ANOS DE QUANDO JOÃO GILBERTO INVENTOU A BATIDA…
CL ? Não foi. Em 55, quando a gente freqüentava o Plaza, ele já tocava com esta batida. Já conhecia o João Gilberto há tempos. Quando ele gravou em 1955 com a Silvinha a minha música eu já conhecia aquilo. Sei porque ele dormia na minha casa, pois não tinha nem lugar para ficar no Rio. E ele já tocava daquele jeito. Os historiadores adoram fazer história, ao invés de relatar a história. Não quero garantir nada. Só estou oferecendo o cardápio para você escolher. Em 1959 o João Gilberto grava “Chega de Saudade”, ele cantando, ele tocando, e com duplas Tom/Vinícius, Lyra/Bôscoli, Tom/Newton Mendonça. Estão faltando neste disco talvez as duplas Lyra/Vinícius e Menescal/Bôscoli. Mas tem muito mais coisas características da Bossa Nova neste disco do que qualquer outro trabalho.
RT ? INCLUSIVE INFLUENCIOU PARA SEMPRE O MODO DE CANTAR NO BRASIL, NÃO ERA MAIS PRECISO TER UM VOZEIRÃO PARA SER CANTOR…
CL ? Até o disco do João Gilberto não havia uma exportação da música daqui, nem nada disso. Tinha era uma coisa acontecendo aqui dentro, as pessoas se ligando e coisa tal, mas aquele lance assim, é agora! A hora é essa! Se for a hora é essa é 57, quando se falou a primeira vez em Bossa Nova ou 59 onde tudo o que tinha para acontecer junto. 58 está falho. Esta polêmica é de agora. Os japoneses nos chamaram em 1997 para fazer um grande show no Japão, para mais de 10 mil pessoas a 80 dólares o ingresso, maioria japonês, para celebrar os 40 anos de Bossa Nova no Japão. Por que sabiam que já havia uma data referente a 57. Eles sabiam disso, como eu não sei. Então em 59 apareceu de fato o canto e o modo de tocar do João Gilberto. Já que ele é tão cult, então ele está mais representado a Bossa Nova no disco dele, mesmo porque a Elizeth não é voz de se apresentar como cantora Bossa Nova nem aqui nem na China. É uma grande cantora, mas não é cantora bossa nova. Mas não é mesmo.
RT ? VOCÊ ACHA QUE A SILVINHA TELLES FOI MEIO QUE INJUSTIÇADA E NÃO TEVE O DEVIDO RECONHECIMENTO PELA SUA IMPORTÂNCIA NO SURGIMENTO DA BOSSA NOVA?
CL ? Ela merecia um maior reconhecimento. Porque a Silvinha era uma precursora. Porque antes da Bossa Nova se definir ela cantava muita música da gente. E quando a bossa entrou ela continuou gravando. As primeiras músicas minhas e do Tom Jobim a Silvinha gravou todas. Antes de falecer ela ainda teve tempo de fazer várias coisas. Foi uma das primeiras, antes do João Gilberto.
RT ? VOCÊ CONCORDA COM O JOSÉ RAMOS TINHORÃO, QUANDO ELE DIZ QUE A BOSSA NOVA NÃO SABIA QUEM ERA O PAI?
CL ? Pelo contrário. O Tinhorão, além de ser muito radical, não é um homem observador. A bossa tinha pais em excesso. Eu, Vinícius, Tom, João Gilberto… É a mãe que está desconhecida. Ninguém sabe quem é a mãe. Pai tem um monte.
RT ? VOCÊ TAMBÉM FOI O PRIMEIRO A RACHAR COM O GRUPO TAMBÉM. COMO FOI ESTA COISA DE 1961, QUANDO VOCÊ PARTICIPOU DO CENTRO POPULAR DE CULTURA?
CL ? Mas a racha ali era de outro nível. Eu era ali, talvez, o mais politizado. Fora o Vinícius, que era de esquerda há muito tempo. Haja vista “Operário e Construção”. Mas dentro dos músicos eu era o único. Tinha o Sérgio Ricardo. Mas não era do CPC e não quis participar disso.
RT ? MAS O QUE ACONTECEU PARA VOCÊ SE REBELAR?
CL ? A politização minha era muito ligada ao Teatro de Arena, que realmente era muito politizado. Fiz música para peça do Vianinha, baseada em textos de Max. Fui muito politizado pelo pessoal do Arena. A politização era o seguinte… O partido comunista era uma coisa elegante, bonita, não é xiita e radical como hoje. E este pessoal todo era do partidão. Eu, Vianinha, Guarnieri, a tropa toda, Paulo Francis… Todo este pessoal visava uma coisa importante que é a mudança de cultura no Brasil. Tem de botar todo jovem na universidade, por exemplo. Dar cultura ao povo. A idéia do centro era isso. A minha idéia era que fosse Centro da Popularização da Cultura. E alguns amigos radicais queriam cultura popular. Eu dizia cultura popular eu não sou. Sou classe média. Quero popularizar a cultura. Levar a Bossa Nova para o povo também. Estamos aqui para isso. Se for diferente eu estou fora. E o Vianinha disse que não, que eu estava errado. Mas insisti que nem eu e nem ele éramos. Não adianta querer fazer teatro popular que não é assim. Mas existe a música popular de uns caras que são ótimos. Nelson Cavaquinho, Zé Kéti, Cartola, João do Vale… E eu estava certo e o Vianinha me deu razão depois que ele estava sendo radical.
RT ? AFINAL, POR QUE VOCÊ DECIDIU RACHAR COM O PESSOAL DA BOSSA NOVA?
CL ? A quebra é isso. Após 1961 a bossa começou a entrar em um ritmo que merecia as críticas. Música de apartamento, que é o amor, o sorriso e a flor, o barquinho para cá e para lá… Tudo isso é legal, mas não saía desta porra. Então senti que estava faltando conteúdo na parada. Tinha forma para cacete, mas estava faltando conteúdo. E tanto eu tinha razão que quando entramos com o conteúdo, com “Influencia do Jazz”, “Quem Quiser Encontrar Amor”, “Aruanda”, aí o próprio Tom Jobim veio com “o morro não tem vez, e o que ele fez…” Entrou na jogada, e o Vinícius estava aí também. Então juntou, apesar de ser da direita festiva, mas ele estava ali, produzindo aquilo que mais tarde vai se transformar em MPB. Depois veio Caetano, Gil, Chico Buarque… Você não conhece um cara de MPB que seja de direita. Sem condição.
RT ? ACONTECEU AQUELE EPISÓDIO DA NARA LEÃO COM O BÔSCOLI, EM QUE ELE VOLTOU DE UMA VIAGEM E ANUNCIOU SEU CASAMENTO COM A MAYSA SENDO QUE ERA NOIVO DELA. O AFASTAMENTO DA NARA DA BOSSA NOVA FOI MAIS EM FUNÇÃO DO LADO PESSOAL OU POR UMA QUESTÃO POLÍTICA MESMO?
CL ? Na época em que ela estava com o Bôscoli, naquela fase o Bôscoli era, apesar de ser chamado de Ronaldo Esquerdo Bôscoli, era mais um cara de direita. Mas descomprometido. O negócio era fazer música. O Tom Jobim também. O talento independe destas posições políticas. O negócio é que a Nara começou a se envolver com um mundo diferente e já havia tido uma referência comigo. Eu cansei de cantar a Nara para esquerda. E quando levei para ela o Cartola, Zé Kéti, Nelson Cavaquinho, que ela não tinha nem idéia, ela abriu o olho. Ninguém conhecia de verdade. E falei: já imaginou uma garota Zona Sul cantando os crioulos de escola de samba.
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O percussionista peruano Lucho Solar integrou o show América Contemporânea! Ele é um dos maiores tocadores de cajon da atualidade e ainda dança muito. O cara quebrou tudo e fez a cabeça da platéia! Na foto ainda dá para ver (esquerda para a direita) o pianista Benjamin Taubkin, o rabequeiro Siba e o compositor argentino Carlos Aguirre de vermelho. Neste dia estava chovendo muito e tivemos de levar os shows para o Clube Corumbaense. Foi uma adrenalina, mas o improviso deu resultado e um show foi melhor do que o outro. Tocaram neste dia: Rigoberto Arévalo y Su Trio de Siempre (PARAGUAI); América Contemporânea (nove artistas de 7 países sul-americanos); Renato Borguetti (BRASIL) e o genial Puerto Candelaria (COLOMBIA).
Eu simplesmente não consegui parar em frente de um computador em Corumbá. Ou eu coordenava a música do Festival América do Sul ou parava para escrever. Tive q ficar com a opção 1. Mas a memória tá fresquinha e quero compartilhar a experiencia de ter participado deste evento pelo terceiro ano consecutivo.
A verdade é que a chuva deu um trabalhão nos três primeiros dias do Festival. Foi uma loucura que fez a gente rebolar literalmente. Aviões não desciam em Corumbá. Isso fez com que Lulu Santos, por exemplo, tenha ido de carro (500km) de Campo Grande a Corumbá. Tivemos de cancelar os shows de domingo tb e transferir os shows de segunda para o Clube Corumbaense para que a chuva não estragasse mais a festa. Só na terça o sol raiou. Mas para falar a verdade, quando isto aconteceu, já estava com a cabeça feita.
Sim, mais uma vez, o Festival América do Sul chapuletou, chapou a minha mente.
Foram muitos momentos mágicos, mas por enquanto não vou aprofundar a questão. Só quero dizer que o show do América Contemporânea com 9 músicos de países diferentes da América do Sul e o grupo Puerto Candelária, da Colombia, me fizeram mais uma vez ter certeza que no nosso continente se faz a música mais rica do mundo. E com certeza é o principal elo de integração entre a gente.
Sim, nós brasileiros, somos sul-americanos também.
Aos poucos vou postando aqui as minhas memórias, já que o diário do Festival foi impossível de fazer.
intéeeeee